quarta-feira, 24 de julho de 2013

A História e a Meta-História



O homem moderno vive na luta infinita para distinguir, interpretar, aceitar ou rejeitar o sobrenatural. Esta ambigüidade negação/inclusão encontrou sua síntese numa conhecida frase de Gabriel Garcia Marquez: “Eu não creio em bruxas, mas que elas existem, existem”. Voltaire, conhecido agnóstico também enfrentou este paradoxo quando se viu no meio de uma procissão, e ao se aproximar do andor tirou respeitosamente o chapéu. Quando indagado sobre sua atitude “piedosa”, afirmou: “Ele e eu não somos amigos, mas nos respeitamos”.
O senso do Sagrado, do numinoso (Otto Rank), ou do arquétipo (Jung), permeia a natureza humana. Vivemos entre o histórico e o meta-histórico; entre o natural e o sobrenatural; entre o material e o espiritual; entre o temporal e o eterno.
A Bíblia é um livro de que conta a história de um povo, mais especificamente do povo judeu, mas o que vemos neste livro é seu interesse mais profundo em demonstrar como a história de Israel é permeado pela presença constante de Yahweh. Ao lermos seus relatos, vemos que na sua maioria são relatos ordinários de pessoas comuns, vivendo suas lutas, conflitos e ambições.
Considere a história de José (do Egito), numa intrincada realidade de um lar poligâmico, com quatro mulheres, 12 filhos e outro tanto de filhas, vivendo num sistema competitivo pelo amor de um homem. A saga desta família revela os ciúmes e invejas que as predileções geravam. Por causa desta disfuncionalidade José é vendido pelos seus próprios irmãos para um mercador de escravos amalequita, que o leva para o Egito colocando-o no mercado onde é leiloado. Apesar da Bíblia afirmar que “o Senhor era com José”, os eventos cotidianos de sua vida não dão muito idéia da presença do Sagrado. Torna-se mordomo, mas ainda escravo na casa de Potifar, dali é levado debaixo de açoites para a cadeia, esquecido numa masmorra. Onde está Deus nisto tudo?
Até mesmo os eventos trágicos e doloridos como os que vemos na vida de Jó revelam incidentes aparentemente desligados de um plano maior. Como entender a catástrofe que vem sobre suas empresas que culminam numa falência tão grave? Ou no vento enigmático que rouba a vida de seus filhos? Ou no arrastão que um grupo de ladrões faz entrando na sua fazenda e roubando todo seu rebanho? Como conectar estes eventos com alguma coisa sobrenatural?
No entanto, todos estes eventos são interconectados e possuem uma ligação na eternidade. A história e a meta-história, o natural e o sobrenatural lado a lado. Na vida de José, sua indesejada ida ao Egito, revelou-se na estratégia de Deus para salvar sua família. Ele mesmo declara isto ao encontrar-se com seus irmãos: “Vós intentastes o mal, mas Deus transformou o mal em bem, como hoje vedes”.

Como interpretamos o cotidiano, os eventos de hoje? Será que os vemos como meros acidentes de percurso ou somos capazes de conectá-los com um plano maior? Nem toda perda é ganho, e nem todo ganho é perda... é tudo uma questão de perspectiva!

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