segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Instituição ou Relação?

Não é raro encontramos casais vivendo juntos longos anos, tendo vida compartilhada, finanças em conjunto, criando filhos, mas que deliberadamente decide não se casar ou estabelecer qualquer vínculo oficial, seja ele civil ou religioso. Li até um comentário que dizia: “Vivemos juntos e felizes por 25 anos, e depois nos separamos”. E o interlocutor pergunta: “Por que se separaram?”. A resposta foi: “Decidimos nos casar!”
Muitos insistem em não se casar porque acreditam que o casamento, enquanto instituição, é muito complicado. O que a maioria não entende, é que viver juntos, cria vínculos legais e de direito, gera envolvimentos afetivos e compromissos emocionais, quer queiramos ou quer saibamos ou não destes fatos. Numa eventual separação, existem indenizações e compensações claramente previstas pela lei, e dores emocionais.
Por outro lado, ao contrário do pensamos, o problema não é a instituição, mas a relação. Um casamento não é mais nem menos complicado que a relação de amasiado. O problema não é o casamento em si, e as coisas não se tornam difíceis porque se tem um papel, mas porque é realmente difícil viver junto... Isto se dá por causa de nossa complexa natureza e pela tendência que temos em exacerbar nosso narcisismo, egocentrismo e individualismo. O grande desafio tem a ver com aquilo que somos, o nosso jeito de agir e pensar, isto complica grandemente a caminhada a dois. Duas pessoas vivendo juntas, com ou sem a formalidade da instituição, tem o grande desafio da abnegação, entrega e liberalidade, afinal, possuem formação social e cultural diferentes, personalidades e hábitos distintos, o que é um grande potencial de desagregação. Manter um relacionamento funcionando a contento exige disposição diária de perdão e diálogo.
Dan Doriani afirma que “a tendência para desapaixonar é tão forte, que os psicólogos dizem que devemos ver uma boda de ouro como veríamos um cachorro andando com duas pernas. Não devemos avaliar se foi bem feito, mas nos admirar que tenha sido feito”.
Ao contrário do que podemos pensar, não é a instituição que dificulta a caminhada de um homem com uma mulher, mas a indisposição em querer cultivar tal relacionamento. A ruptura de um vínculo de casal, oficialmente casado ou não, é sempre complexa porque envolve quebra de sonhos, desmantelamento de projetos, rompimento quase sempre dolorido para uma das partes, e em alguns casos, para ambas as partes.
Por que tememos a institucionalização? Que mensagem ou que motivos nos levam a tal posição? O que ou a quem tememos? O que nos assusta? Talvez se encarássemos de forma honesta e profunda estas questões, sem acharmos de que trata de um discurso moralista ou legalista, poderíamos até continuar amasiados, mas responderíamos num nível mais profundo angústias e complexidades que precisam ser tratadas, e que se não forem, certamente vão aflorar na caminhada a dois.

Que vida Besta!

Meu pai tinha um hobbie que foi cultivado e transmitido para dois de seus filhos. Ele amava caçar, infelizmente (ou felizmente), eu fui o filho que nunca compartilhou de seu lazer. Ele costumava se embrenhar em matas, às vezes ficando acampado por lá até atingir o seu alvo. Em muitas destas viagens, meus irmãos o acompanharam.
O irmão mais novo, sempre foi muito entusiasmado com estas viagens, e numa de suas primeiras experiências, ficou suspenso numa rede amarrada entre árvores, esperando que o animal viesse comer as frutinhas que caiam da árvore. Naquela noite, nenhum animal apareceu, exceto um tatu que passou longe de onde se encontravam.
Ao voltar para casa, meu irmão perguntou que animal era aquele e recebeu a seguinte explicação: “Quando chega a noite, alguns animais saem para comer. O tatu sai de sua toca, come e volta novamente para sua casinha”. Meu irmão pensou um pouco e disse: “Eles fazem isto toda noite?” Diante da afirmativa de meu pai ele respondeu: “Que vida Besta!”
Mais tarde descobri que esta reflexão era um veio filosófico do meu irmão, porque Carlos Drummond de Andrade fez a mesma afirmação no seu poema, Cidadezinha qualquer.
Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.
Êta vida besta, meu Deus.
De Alguma poesia (1930)
Acho que esta visão sobre a vida revela o sentimento de milhões de pessoas que apenas trabalham para comer, comem para trabalhar, vestir e dormir; dormem para trabalhar, e vestem para comer e novamente dormem, num ciclo quase infindável de idas e vindas, cuja existência vai desembocar num túmulo frio e ridículo onde cessam todos os sonhos, desejos e frustrações. Uma vida besta, sem sentido e propósito!
No entanto, a vida é bem mais que comer, dormir, trabalhar. A vida adquire sentido quando encontra um Norte como referência para sua história. Jesus percebeu isto nos seus discípulos, e fez uma afirmação extremamente importante: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância”. Existe alguém que pode transformar esta experiência tola de existir em uma vida plena de significado. Jesus afirmou: “Quem crê em mim, do seu interior fluirão rios de água viva!”. Não é exatamente para esta direção que nosso coração tão ansiosamente anseia caminhar?

Jogando o lixo fora

Assim como colocamos de lado a velha agenda do ano que se passou e passamos a usar uma nova, seria interessante que, ao começar um novo ano, pudéssemos jogar no lixo papéis e objetos sem importância. Nossas gavetas precisam ser esvaziadas, o guarda roupa precisa de mudanças, existem coisas que foram muito importantes, mas que agora já não interessam mais.
Simplificar, esvaziar, reorganizar, nem sempre é muito comum no espírito capitalista cuja lei principal é: “tenha lucros, acumule, ajunte!”. Esvaziar gavetas, reorganizar armários pode ser uma atitude agradável e deve ser praticada.
Esta atitude, porém, aponta para um aspecto simbólico ainda mais importante: precisamos esvaziar sentimentos recalcados, experiências podres e doloridas, ressentimentos, que são sentimentos antigos. Tirar coisas do velho armário pode apontar para a necessidade de doarmos, sermos generosos, repartir.
Por causa do meu trabalho já fiz várias mudanças de domicílios. Uma destas situações, porém, foi inusitada. Fazia muito frio e nevava no dia em que estávamos carregando o caminhão de mudança. Amigos vieram nos ajudar a colocar móveis, sacolas e caixas dentro do baú. A nova cidade ficava cerca de 500 kms de distância, e pretendíamos entregar o caminhão ainda no outro dia.
Chegamos cansados ao novo endereço, acompanhados de um amigo especial da família que resolveu nos acompanhar e nos dar apoio. Ele era uma pessoa muito querida e deixá-lo para trás foi uma das coisas difíceis naquele momento de nossa vida. Ao chegarmos ali, mesmo cansados, resolvemos descarregar o caminhão, e começamos a rir de um cômico fato que estava acontecendo. Como muitas pessoas nos ajudaram a carregar o caminhão, alguns sacos de lixos e caixas que deveriam ser descartadas, vieram juntos na mudança. Mudamos para uma nova casa, mas trouxemos o lixo da antiga. Levamos conosco aqueles indesejáveis sacos de lixo.
Penso que esta é uma boa alegoria da vida. Queremos mudança, mas não abrimos mão do lixo de nossa história, de nossos arquivos mortos, de memórias improdutivas, de traumas vivenciados. Os anos mudam, a gente muda, mas a mente e o coração continua azedo e mal resolvido, culpando amigos, a vida e o próprio Deus. Fernando Pessoa afirma: “Ser feliz é deixar de ser vítima das pessoas e ser senhor da sua própria história”.
Que neste ano, os indesejados sacos de lixo de memórias imprestáveis, de relacionamentos depressivos, possam ser jogados fora. Aproveite para limpar seu guarda roupa, esvaziar as gavetas entulhadas de parafusos, fios e papéis absolutamente desnecessários. Jogue fora o lixo, mas dê um pouco do muito que você tem recebido. Você vai entender então, o significado do que Jesus ensinou: “Mais bem aventurado é dar que receber”.