Sempre me impressionei com a relatividade do tempo. Para um time que está perdendo e quer virar o jogo, os minutos passam rápido demais; para o time que está ganhando e precisa manter o resultado, cada minuto parece uma eternidade.
Para nós, pessoas do Século XXI, agitadas e sempre em correria, cada minuto é importante: tentamos minimizar as agendas, fazer as coisas de forma mais ágil, redimindo o tão precioso tempo. Ultimamente tenho me sentido fascinado com as longas viagens de 7 dias, que as pessoas fazem nos rios da Amazônia. O tempo passa devagar, e parece que não estão preocupados porque o senso de urgência parece inexistir. Navegam longos dias nas chalanas, cheias de redes penduradas e não se sentem pressionadas nem incomodadas. Os dias são intermináveis e pachorrentos, mas tudo está certo: é assim que as coisas acontecem... lentamente.
Desta forma, podemos pensar no tempo de duas formas: o tempo linear e o tempo cíclico. O primeiro é o tempo da cronologia, mais comum na cultura ocidental e moderna. O tempo é visto como uma linha reta, com um ponto de partida (passado), um ponto presente e um futuro a ser alcançado. É irreversível e unidirecional. A história se move de forma progressiva em direção a um fim. O passado é um ponto de referência, mas o foco está no que está por vir. Há uma grande pressão por produtividade e eficiência: O tempo é um recurso escasso e valioso. Expressões como "tempo é dinheiro" ou "perder tempo" refletem a necessidade de otimizar cada momento. O relógio e a agenda governam a vida. Há um senso de urgência e planejamento rigoroso para alcançar metas e resultados.
O tempo cíclico é mais identificado com a natureza, mais comum em culturas agrícolas, orientais e indígenas. O tempo é visto como uma sucessão de ciclos que se repetem. As estações do ano, o ciclo da lua, o nascer do sol. O passado não se perde, ele retorna e se manifesta no presente. Neste caso, a vida não é sobre progresso, mas sobre ritmo: As colheitas, as festas sazonais e os rituais que mantêm a ordem cósmica e social. Não há pressão por produtividade e velocidade. A ênfase está na harmonia com a natureza e com o ritmo das coisas. O tempo é abundante, não escasso.
Dependendo da lógica que adotamos em relação ao tempo, surge uma enorme diferença no estilo de vida. As pessoas que estão em mais sintonia com a natureza, o homem simples do sertão, aprende que o rio corre devagar, não é preciso apressá-lo. A vida é cíclica, marcada pelos eventos naturais e desta forma torna-se mais harmônica. É preciso seguir o ritmo preciso e lento, respeitar as estações, aprender a desfrutar todos os momentos. Aprende-se a dinâmica do falar e do silenciar, de dormir cedo e acordar cedo, e só assim possível conversar, plantar, aguardar a chuva e torcer pela mágica ação da planta que nasce, cresce, dá flor e frutifica, tudo no seu tempo certo.
Na visão linear a agenda fica cada vez mais cheia, mas isto não significa que aprendemos a usar bem o tempo. Deus, na sabedoria, fez tempo até mesmo para o ócio, o conceito do shabath, na espiritualidade judaica é fundamental: é necessário descansar, repor as energias. E isto se aplicava até mesmo aos servos e aos animais, que foram proibidos de trabalhar no sábado. Até o jumento precisava de um dia de folga. Surpreendentemente, o Deus que não cochila nem dorme, nem precisa de descanso, decide descansar no sétimo dia. É claro que Deus não estava preocupado consigo, mas com suas criaturas, que tolamente concluem que não há espaço para o tempo de lazer, descanso e contemplação.
É preciso resgatar a correta noção do tempo, que foi estabelecida no design da criação. É necessário repensar as atividades, refazer a agenda com a ótica correta. Estamos doentes porque trafegamos num diapasão enviesado, e perdemos a correta noção do tempo. Há outras formas de ler e viver o tempo, e o stress, resultado da agitação e da agenda superlotada, parece nos induzir equivocadamente a nos esquecer que há tempo para todas as coisas debaixo do sol, inclusive, tempo para não fazer nada. Precisamos resgatar a correta noção do tempo.