quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O Melhor presente de Natal



É sempre um desafio comprar o presente adequado para as pessoas que amamos, começando dentro de casa, para a esposa (marido), filhos, pais. Já foi o tempo em que um carrinho de plástico, uma bola e uma simples boneca atendiam aos apelos e desejos dos filhos. Os presentes estão cada vez mais caros e sofisticados. Tênis custando R$ 999,00 e os tablets, Iphones, andróides facilmente dobrando esta cifra. De fato, não está nada fácil escolher o presente. E se você pretende comprar alguma lembrança para seus amigos, a tarefa ainda se torna mais complicada. O que comprar?
Criatividade é a palavra chave, mas não resolve facilmente a equação. Algumas pessoas são criativas, mas outras são péssimas para perceber e ter o “feeling” necessário. Conheci um marido tão frustrado com suas desastradas tentativas de comprar presentes, que decidiu não dar mais nenhuma lembrança nas datas especiais, mas ficava atento durante o ano para descobrir um presente, comprava e entregava imediatamente. No entanto, esta atitude pode ser frustrante quando o outro gosta do elemento surpresa e cria expectativas para datas especiais como aniversários, páscoa, dia dos namorados e natal – E quem não gosta de receber um presente nestas datas?
Dar presente pode ser um fiasco, quando aquilo que damos não possui qualquer ligação com o que o outro espera. Um presente mal escolhido transmite a idéia de desatenção aos desejos do outro. Um amigo meu comprou uma bicicleta para dar ao seu filho adolescente no natal, que era obcecado por sons, instrumentos e equipamentos eletrônicos. Ao receber o presente, ele disse sem nenhuma gratidão: “Isto aqui faz barulho?” O Pai voltou à loja para devolver o presente.
Presente é muito importante para determinadas pessoas. Algumas não ligam muito para detalhes, mas para outros isto é questão fundamental. Quando não há sintonia num casal, isto pode se tornar um grande problema. Muitos possuem uma linguagem de amor conhecida como “dar e receber presentes”. Se esta é a linguagem de amor de seu namorado (a), não se descuide porque isto pode trazer muito dissabor.
O melhor presente, porém, não tem a ver com coisas e seu custo final. O que conta mesmo é o valor agregado do gesto. Um presente apenas para cumprir tarefa, desacompanhado de outros gestos e atitudes, pode não valer muita coisa. Uma mulher recebeu um carro de presente do marido, mas o relacionamento dos dois estava passando por uma crise pesada. Ela disse que o que gostaria mesmo, é que ele se arrependesse de sua atitude, de sua rudeza e infidelidade, e voltasse o seu coração para ela. O carro, um grande presente, perdeu seu excepcional valor, por causa de outros fatores.

Um filho pode receber o presente do sonho para a maioria dos adolescentes, com todos os recursos modernos, e ainda assim, continuar distanciado e insatisfeito com seus pais. Presentes não substituem presença; carícia não substitui carinho. Uma simples lembrança num ambiente de amor causa impacto muito grande. Nem todos têm muito dinheiro para comprar caros presentes, mas todos podemos ter boas atitudes de amor que substituem a escassez dos recursos. Vale a pena o princípio da Bíblia: “Melhor é um prato de hortaliças onde há amor, que o boi cevado, e com ele o ódio”. 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Sintomas do Stress

Não é necessário ser um expert para notar que o final do ano, com todas as suas avaliações, expectativas e festividades aumenta significativamente o nível de stress nas pessoas. Tudo pode ser facilmente observado. Olhe para as pessoas ao seu redor e você as encontrará agitadas e cansadas. No Brasil, o balancete fiscal das empresas coincide com as festas de natal, trazendo maiores exigências e cobranças. Olhe para dentro de você mesmo e vai encontrar uma pessoa mais agitada, ansiosa e tensa. Os sintomas do stress do final do ano são conhecidos: Aumento da irritabilidade, maior nível de tensão, facilidade para comportamentos reativos. Quando isto acontece, nossa resposta as pressões se torna desproporcional. Qualquer nível de provocação, por menor que seja, soa como se fosse uma agressão; o pouco se torna muito; um comentário negativo se transforma em acusação, nosso organismo se torna um vulcão prestes a explodir. Em todas as direções, o stress se torna negativo. O corpo, que abriga todas estas emoções fragmentadas sofre a descarga de substâncias tóxicas que são jogadas diretamente no organismo. Uma desavença ou briga mais acirrada, gera taquicardia, fragiliza as emoções e desequilibra todo o organismo. Em lugar da serenidade, surge a angústia, sudorese, distúrbios gastro intestinais, insônia e ansiedade. O stress atinge também os relacionamentos. Agressões verbais se tornam mais comuns, os debates mais acalorados e as acusações mais frequentes. Sob a força do stress as gritarias e grosserias se tornam mais comuns, relacionamentos familiares e empresariais tornam-se mais competitivos e selvagens. A terceira área que sofre com o stress é a espiritual. Debaixo da força do stress, as orações se tornam mais agitadas e confusas, e encontramos dificuldade em descansar e confiar na direção de Deus, que se torna alguém distante. A alma não consegue encontrar repouso e sequer se lembra que existe um Deus que deseja o melhor para nossa vida. O stress afeta a confiança e segurança espiritual. Neste final de ano, no meio de todas as exigências e provocações empresariais e contábeis, procure zonas de descanso, num churrasco com a família, numa programação religiosa, num passeio para apreciar a natureza e a vida. Estes elementos são sempre bons antídotos contra o stress.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Paraíso Perdido



Quando meu filho trabalhava no Panamá, tive a oportunidade de lhe fazer uma visita e passear pela região. Num destes giros, fizemos uma fascinante viagem e visitamos a pequena ilha Tuba Senika, no Mar do Caribe, uma região com centenas de ilhas paradisíacas da região, com areias brancas e águas mornas, todas elas administradas pelos índios da etnia Kuna.
Se existe um paraíso, este lugar é uma de suas filiais. Uma pequena área de 8.000 mt2, cercada de pés de coco (as únicas árvores que crescem no lugar), com as cabanas fincadas nas areias, águas quentes com enorme variedade de peixe, ideal para a prática de snorkel onde o tempo demorava passar, e além de comer e beber, nadávamos, líamos e dormíamos na rede por causa do calor e porque não existia qualquer pernilongo para nos roubar o sono. Minha esposa e nora disseram que poderiam viver ali pelo resto de suas vidas, apesar de toda beleza eu não fui tão conclusivo assim...
No meio deste paraíso, logo percebemos alguma coisa estranha. Havia uma tela separando a ilha. Ela destoava do ambiente sereno, deslumbrante e mágico, além de ter um péssimo gosto estético. Nossa curiosidade se aguçou. Qual era o sentido daquela cerca? Daquele protótipo do “muro de Berlim”? Desta inusitada separação semelhantes às cercas entre as fronteiras dos EUA e México, que separam os ricos dos pobres?
A pequena ilha originalmente fora uma herança dada aos dois irmãos, que se desentenderam e incapazes de fazer um acordo a dividiram pelo meio. O paraíso estava ali, mas não era ali. De repente descobrimos os efeitos do egoísmo, do individualismo e da luta pelo poder numa pequena escala. O paraíso se perdera antes de mais nada no coração dos homens. O mal se alojou definitivamente no coração da raça humana. Mesmo quando o ambiente revela um pedaço do céu, ainda encontraremos ali o ódio, a separação, a competição e a luta. Podemos estar muito perto do céu, mas ainda vivendo no inferno.
As Escrituras Sagradas nos ensinam que Jesus veio exatamente reconciliar todas as coisas em si mesmo. Ele nos reconciliou com Deus, cujo abismo se formou por causa de nossa autonomia e teonomia (termo cunhado por Henry Nouwen); Ele veio nos unir uns aos outros, reconciliando raças, irmãos separados pelo egoísmo e narcisismo, ajudando-nos a perdoar e a ser perdoado; Ele veio para nos reconciliar com a natureza, que por milênios tem sido explorada pela ganância desmedida e o anseio por lucros a qualquer custo. Finalmente, veio nos reconciliar conosco mesmo, perdidos e confusos nas nossas vaidades e futilidades, buscando irrefletidamente por sentido e propósito, andando por becos escuros da existência sem saber exatamente onde queremos chegar.

Jesus veio reconstruir o paraíso perdido. Este é o propósito do Natal.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Princípios



Sr. Augusto Abrantes era um homem de princípios claros e firmes. Negro, pobre, neto de escravos, presbítero da Igreja Presbiteriana em Gurupi-TO, foi eleito vereador da cidade, na época em que o Brasil possuía apenas dois partidos. Certa feita, sendo oposiçāo ao prefeito da cidade, precisaram do seu voto para aprovaçāo de um projeto questionado pela sua bancada. Procuraram-no privativamente e ofeceram vantagens financeiras, caso os apoiasse. Com sua serenidade habitual, de forma direta respondeu: "Senhores, já foi o tempo em que se vendiam os negros".
Ao agir assim, este homem foi norteado por seus princípios e valores. Princípios sāo elementos que norteiam atos e decisões. Eles oferecem estabilidade e perspectiva. Sāo muitos os métodos, mas poucos os princípios; os métodos sempre mudam, os princípios, nunca. Princípios nos ajudam a alcançar objetivos permanentes e a evitar tendências passageiras. Se nāo nos orientarmos por princípios seremos governados por pessoas, emoções e situações, clássicos inimigos de valores permanentes.
Pessoas controladas por emoções, reagem a provocações, decidem com base no emocional, fazem negócios ou tomam decisões sentimentais. Assim se entregam às paixões, decidem no ímpeto, e depois correm atrás de perdas, danos e prejuízos, ferindo muitos e sendo feridos no processo.
Se guiadas por pessoas tornam-se marionetes,  movidas por popularidade e pelo que os outros pensam. O problema ė que tendências quase nunca sāo coerentes. A mesma multidāo que aclama Jesus na entrada triunfal em Jerusalém, uma semana depois clama em histeria que ele seja crucificado.
Quando as decisões sāo tomadas por circunstâncias: pressāo social, forças políticas, lucros imediatos - o medo torna- se o conselheiro. Oscilações do mercado, do humor dos outros e tendências da moda sāo sempre voláteis. Ao construirmos sobre princípios, os fundamentos sāo sólidos, se sobre situações, perdemos a referência do que é lícito ou ilícito, eticamente correto ou nāo, do certo ou errado.
Precisamos redescobrir princípios permanentes que se aplicam a todos os povos, em todos os tempos. Por favor, nāo confunda com métodos, que sāo "aplicações variáveis de princípios universais invariáveis" (Wiersbe). Sempre vamos precisar de novos métodos que se adequem às novas situações na medida em que surjam novos desafios e novos paradigmas.
Precisamos mais do que nunca fincar estacas e fortalecer alicerces, como afirmou Thomas Jefferson: "Em relaçāo aos princípios, seja uma rocha; mas em questāo de preferência, faça adequações". Princípios sāo valores eternos, pontos de referência. Nāo mude os marcos antigos, nem negocie valores, se deseja alcançar estabilidade e perspectiva. Princípios ajudam a alcançar objetivos permanentes e a evitar tendências passageiras.

Conceitos e preconceitos


Estamos no meio de uma crise conceitual. Chegamos ao ponto de não podermos ter mais conceitos. Ao ser indagado se tinha preconceito sobre determinado assunto, uma pessoa respondeu: "Não, eu não tenho preconceito sobre isto, eu tenho conceito".
Será que teremos que viver no estilo "maluco beleza" de Raul Seixas que afirmava, "eu prefiro ser, esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo", ou numa encruzilhada filosófica onde não poderemos ter opinião formada sobre nada?
Precisamos discernir conceito de preconceito. O pré-conceito, e aqui intencionalmente coloco um hífen entre estas duas palavras, aponta quase sempre para algo negativo. É, por sua natureza intrínseca, obtuso, reacionário e agressivo e se fecha para novas alternativas e novos caminhos, sacraliza os métodos e processos, sataniza o diferente, não consegue fazer releituras e não admite a possibilidade de um olhar alternativo. Acima de tudo, o pré- conceito se torna moralista, legalista e punitivo. 
Foucaut toca essencialmente nesta tensa questão em "Vigiar e punir": "Existem momentos na vida que a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir".
Por outro lado, não estabelecer uma linha de conceitos, princípios e valores, que orientam a vida e as relações humanas, nos transforma em pessoas anárquicas, que não conseguem encontrar um mínimo de consenso para se formular uma lei. Um princípio legal pressupõe um ou vários conceitos. Já pensaram numa sociedade na qual não existem leis, porque as pessoas nāo conseguem encontrar princípios e valores que possam norteá-la?
Conceitos são necessários para nossa sobrevivência enquanto indivíduo, o aspecto mais radical de alguém sem qualquer senso de valor é o sociopata. Ele recusa toda forma de convenção e adota o seu estilo pessoal, no qual não reconhece valor nem princípio, não sente dor nem remorso. Ele faz porque quer, independente dos padrões e culturas da sociedade em que vive.
Conceitos são necessários para dar estabilidade, a ausência deles implica no anarquismo; conceitos são indispensáveis para se organizar a ordem e a lei, o extremo disto é o caos social.
Preconceitos são dispensáveis porque seu resultado é o desprezo à opinião do outro, a pseudo superioridade moral e religiosa, o julgamento pelo esteriótipo e pela aparência, a incapacidade de diálogo e abertura para o novo e pela riqueza das diferentes hermenêuticas da vida.
 É interessante que a bíblia, um livro julgado por muitos como retrógado e antiquado ( fruto do preconceito) ensina-nos: "Acolhei ao que é débil na fé, não, porém,  para discutir opiniões. Um crê que de tudo pode comer, mas o  débil come legumes; quem come, não despreze o que não come, porque Deus o acolheu...um faz diferença entre dia e dia; outro julga igual todos os dias" (Rm 14.1-5). Discriminar, julgar e ordenar o outro, é ranço do preconceito. Mas
observe o que o mesmo texto nos ensina em seguida: "Cada um tenha opiniāo bem definida em sua própria mente". 
O mesmo texto que ensina a não tratar o outro de forma condenatória e respeitar o ponto de vista divergente, a não nos perdermos nesta multiplicidade de conceitos e a termos opinião clara sobre ideias e valores. Não preciso e nem posso julgar o outro, mas posso e devo saber exatamente no que creio e penso e viver debaixo de tal conceito, por uma questão de integridade e coerência para comigo mesmo, com minha consciência e meu Deus.



O preço da miséria e do abandono



Nos idos de 1998, morando nos Estados Unidos, nos surpreendemos com o ineditismo de uma proposta do governo americano. Percebendo a quantidade de hispanos (entre os quais somos incluídos) e asiáticos, com baixíssima qualificação profissional e preparo acadêmico, o governo se propôs a dar bolsas e verbas para que este segmento social pudesse melhorar suas habilidades. A lógica da proposta não era apenas humanitária – era também econômica.
O princípio subjacente é o seguinte: A pobreza, a miséria e o abandono trazem um custo social muito grande, cobrando muito do governo. Os múltiplos programas sociais do governo hoje no Brasil, como o Bolsa família, o bolsa escola, bolsa desemprego, etc, atestam isto. Embora seja uma estratégia correta para minimizar a miséria, cujo custo se torna altíssimo em criminalidade, doença e sofrimento. Obviamente tais programas ainda carecem de propostas mais conclusivas, retirando as pessoas que hoje dependem destes recursos para uma inserção comunitária, mas a verdade simples é que não podemos descuidar: o preço da miséria é muito alto para uma sociedade.
No livro 1822, de Laurentino Gomes, o autor demonstra que a economia daqueles dias girava em torno do trabalho escravo. Os ricos fazendeiros e comerciantes de então, acreditavam que a abolição traria um grande prejuízo para o comércio e ruína para a agricultura, mas ele aponta como esta situação de desumanização trouxe inúmeras rebeliões: Guerra das Cabanas (Pernambuco, 1831); A Balaiada (Maranhao e Piauí, 1834); A Cabanagem (Para, 1831); e a Revolta dos Malês (Bahia, 1835).
Embora D. Pedro I não tivesse conseguido avançar na questão da escravatura, escreveu um documento surpreendente para seus dias (1823), que se encontra hoje no Museu Imperial de Petrópolis. Este texto revela extrema lucidez:
“Ninguém ignora que o cancro que rói o Brasil é a escravatura, é mister extingui-la. A presença dos escravos distorce o caráter brasileiro, porque torna cruéis nossos corações e amigos do nepotismo. Todo senhor de escravo, desde pequeno, começa a olhar seu semelhante com desprezo, um hábito que faz contrair semelhantes vícios, deve ser extinto, e só assim os senhores olharão para os escravos como seus semelhantes (...) O cidadão que não conhece os direitos de seus concidadãos também não conhece os seus e é desgraçado toda vida”.

Para Laurentino Gomes, os filhos desta orfandade e abandono é um passivo, a rigor, que o Brasil carrega até hoje. Uma sociedade só pode ter grandes conquistas, quando não busca apenas seus interesses pessoais e a defesa de grupos de elite, mas entende que riquezas e bens de uma nação, podem favorecer a todos. Mesmo para os ignorantes que acham que o favorecimento pessoal é a única coisa que importa.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

A violência Silenciosa



O Brasil tem a fama de ser um povo pacato, que não gosta de brigas, cordato, gente boa. Nem a “independência” de Portugal foi feita com sangue e suor como os outros povos, mas através de conchavos, negociatas de imperadores e transações comerciais nesta trama pavorosa. Contudo, os números recentes sobre homicídios no Brasil não apontam na direção de um povo pacato, mas de uma sociedade silenciosamente violenta.
O anuário brasileiro de segurança pública trouxe dados aterradores sobre 2012. Nada menos que 50.180 crimes violentos e letais, entre eles, homicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte foram cometidos, de acordo com a estatística oficial. Isto sem contar os 19.209 homicídios culposos no trânsito; 190.322 roubos de veículos; 1.087.059 roubos em geral e 50.617 estupros (18% a mais que 2011).
Nossos indicadores econômicos estão melhorando, mas a violência não diminui. Sem falar das formas sutis de violência como o machismo, o desrespeito aos pobres e idosos, a violência no trânsito. Toda esta situação aponta para o coração humano: Alguma coisa não vai bem com a alma humana. Temos uma tradição de passividade e sossego, mas estamos em guerra no coração, e isto se reflete nos relacionamentos. A violência não é um ato fortuito, acidental e gratuito. Precisamos ter “cuidado com a paz armada e a guerra fria”.
Em 1992 Arnaldo Jabor publicou o ensaio “O Brasil choca o ovo da jibóia” (Jornal Folha de S. Paulo 1/11/92) Nele afirma que “A riqueza não olha a miséria, mas a miséria olha a riqueza”. Jabor faz o elogio dos meninos do arrastão que estariam indo à luta, querendo melhorar o Brasil, o Brasil deles. Afirma ainda que “há um outro Brasil, um Brasil de psicanalistas, artistas, filósofos, que vive abstratamente do mal-estar da impossibilidade”. Para Jabor, Brasil concreto é menino cheirando cola na Praça da Sé.
O fenômeno do Black block, dos mascarados na rua demonstra esta violência interior. Neste movimento temos um misto de protesto, criminalidade e baderna e isto revela a desesperança e frustração presentes. É uma forma severa de violência. Boa parte não sabe sequer porque se quer lutar, apenas deseja lutar.
A violência assume roupagens complexas e se manifesta de forma brutal. Ela revela a fragmentação das famílias, a ausência de parâmetros e relações significativas; a brutalidade de um “embargo infringente”, ou “embargo indecente”. A violência se constrói numa sociedade de desigualdades e na perda de referências éticas, familiares e espirituais. Em 1933, em resposta a uma carta de Einstein, Freud escreveu em Por que a guerra: “a guerra nos despoja dos acréscimos ulteriores da civilização e põe a nu o homem primitivo que há em cada um de nós”.

No Brasil de hoje, com este número alarmante de homicídios, arrastões, depredações e saques, não estaríamos assistindo a uma busca desesperada e maciça de apropriação de algo próprio, de uma identidade perdida? Uma busca por um sentido maior, que preencha a difusa angústia da alma? Um simbólico? Por um ponto infinito que em última instância se chama Deus?