Na semana passada, com muita hesitação, literalmente resolvi abandonar a chuteira que tantas vezes usei. Ela estava na minha sapateira, mas já fazia muito tempo que não jogava futebol por causa das repetidas contusões fruto da falta de treino e da idade, mas eu tinha dificuldade em doá-la ou me livrar dela. Era uma velha lembrança de um bom tempo e uma forma de conexão com o passado.
Me livrar da velha chuteira é algo que vai muito além de simplesmente jogar fora um objeto. Abandonar a chuteira é um rito de passagem. O objeto é como uma âncora, uma forma de conexão com o passado. Muitas vezes, mantemos objetos físicos não pelo que eles são hoje, mas pelo que eles representam: a memória de um corpo mais ágil, de um tempo sem limitações ou de uma fase da vida em que éramos vistos de uma certa forma.
Por isto a dor da hesitação ao tomar essa decisão. Desapegar não é um ato de frieza, mas um ato de coragem. É o reconhecimento de que, para abraçar o presente, precisamos abrir mão de uma fantasia que já não sustenta a nossa realidade atual. O próprio corpo estabeleceu o limite. Esse é um momento de reconciliação com a finitude. Em que a mente, que ainda quer jogar, finalmente aceita a mensagem do corpo, que pede cuidado e novos ritmos.
Ao "abandonar a chuteira", eu não estava apenas liberando um espaço na sapateira, mas simbolicamente abrindo espaço para novos hábitos, novas formas de cuidar de mim mesmo, e, talvez, até novas formas de se conectar com o mundo que não dependa do passado atlético. Fiz alguns gols com ela e a guardava na esperança de que, algum dia, em algum momento, pudesse novamente usá-la. Mas em todas as coisas da vida, há um momento de “pendurar a chuteira”, e isto se aplica a todas as áreas da vida.
Se estou triste? Não sei se tristeza é o termo correto… talvez melancólico, saudosista. Mas não posso reclamar. Em todo tempo Deus tem sido bom para comigo. A chuteira me faz lembrar que preciso deixar algumas coisas pelo caminho porque não servem mais. Me faz recordar de histórias, momentos, alegrias e caneladas que dei e sofri. Sai com algumas contusões, arranhões, mas intacto… grato a Deus. Afinal, para todo propósito há tempo e modo…
Muitas vezes hesitamos em nos desfazer de objetos (ou papéis, funções, identidades) porque tememos que, ao fazê-lo, estejamos desonrando o valor que tiveram. Descartar a chuteira não é um ato de descaso, mas de honra ao presente. Honramos melhor o passado quando não o usamos para "obstruir" o presente. Há em mim o jogador que ainda quer entrar em campo e a realidade da prudência e cautela. Este é o caminho que nos obriga a passar pela aceitação das limitações atuais. Um espaço vazio na sapateira não é apenas um lugar para acumular poeira; é uma promessa de que algo novo pode ser colocado ali.
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