O ódio é um mau conselheiro. Ai daqueles que se tornam presas deste vilão hediondo. Não raramente tenho encontrado pessoas "amargas, penduradas no passado", sendo orientadas pela angustiante tirania deste sentimento. Conheci um homem que esteve preso durante 29 anos pelo sentimento de vingança, até que um dia ele a satisfez, matando o outro que o ferira. Mas o seu coração não resolveu a dor através do assassinato: Ele continua amargo e até onde sei experimenta o fel da raiva e da amargura mesmo depois de ter "satisfeito sua ira".
Alguém afirmou que odiar é tomar um copo de veneno, pensando em matar o outro. Outra comparação que me vem à memória é a da pessoa que, consumida pelo ódio, faz uma tentativa de aprisionar o ofensor no peito para mantê-lo encarcerado, no entanto, o outro está livre, o dono da gaiola é que está preso.
Normalmente as pessoas não admitem que odeiam. Ódio é uma palavra forte e é politicamente errado admitir tal sentimento. Por isto o ódio vai assumindo outras roupagens em nós: Descaso, desprezo, depreciação, andam de mãos dadas neste processo dolorido de nossa alma. Indiferença é uma das suas linguagens mais sofisticadas.
O ódio surge por causa da dor que pessoas ou circunstâncias nos causaram. Quando não encontramos uma figura objetiva em quem jogar a culpa, passamos a odiar a nós mesmos, nossa família, nosso destino e até mesmo a Deus. Muitas pessoas têm raiva de si mesmas, e outras tantas de Deus.
Só existem dois caminhos para o ódio: Uma vida de inferno, marcada pelo ressentimento, culpa, tristeza ou o perdão. O problema é que no perdão, a pessoa que resolve libertar o outro de seu peito, precisa entender que "perdoar é ficar no prejuízo", e nós não gostamos de perdas, em nenhum sentido.
No entanto, perder para ganhar é uma grande estratégia. A vida muitas vezes é assim. Nem todas as perdas são de fato perdas, e nem toda vitória realmente nos faz vencedor. Perdoar, colocar na conta passiva, esquecer a ofensa é realmente algo maravilhoso para quem dá, já que perdão, também é uma benção para quem o oferece.
Muitas vezes temos dificuldade para perdoar. Outras tantas, gostaríamos de perdoar e não queremos perdoar. Alguém já me disse certa vez que não sentia vontade de perdoar, uma vez que a ofensa fora tão forte. Então sugeri a esta pessoa que orasse a Deus nos seguintes termos: "Deus, tu sabes que eu não quero perdoar, mas gostaria tanto de querer". Neste caso, não ora para perdoar ainda, mas ora para que o coração e a vontade se liberte para o perdão. Quem vence o ódio, liberta sua vida para recomeçar, para construir um novo momento, para poder sonhar. Quem não consegue fazê-lo, certamente continuará escravizado pela tirania dor ressentimento que dele advém.
Mostrando postagens com marcador tirania. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador tirania. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 8 de junho de 2005
segunda-feira, 23 de maio de 2005
A Tirania do Sucesso
Poucos homens estudaram tanto o comportamento humano quanto B. F. Skinner. Ele é um dos pais e mentores da Psicologia do comportamento, ou, do behaviorismo, se adotarmos o termo na língua inglesa. Num intrigante livro sobre o ser humano chamado O mito da Liberdade (Rio de Janeiro, Bloch Editores S.A, 1973), expressa profundo desencanto com esta questão da liberdade humana. Ele conclui seu livro dizendo: "Uma análise experimental transfere a determinação do comportamento do homem autônomo para o ambiente – um ambiente responsável pela evolução da espécie como pelo repertório adquirido por cada membro... Ele está realmente controlado pelo ambiente". (op.cit.pg 167-168).
Embora ele acentue que este ambiente é construído em grande parte pelo próprio homem não deixa de expressar em todo conteúdo do livro, forças humanas que condicionam o homem, levando-o a fazer opções que não necessariamente são julgadas em todas as suas complexidades.
Esta é uma das razões pelas quais temos falado de forças tirânicas que agem sobre nós e interagem conosco. Uma das que tem sido mais enfáticas, tem sido o conceito de sucesso. Somos uma sociedade ambiciosa e desesperada por reconhecimento público.
Imagine que você pergunte ao seu filho pré adolescente ou adolescente, e sugiro que não o faça, o que ele pensa que seria a sua expectativa sobre ele lhe dando três opções: ser um homem rico, um homem bom, ou um homem de sucesso, o que você acha que ele iria responder?
Muito provavelmente a resposta seria sucesso. O excesso de atividades, tarefas e obrigações que criamos para nossos filhos revelam a nossa ansiedade para que eles sejam bem sucedidos. A agenda de muitos meninos e meninas tem sido agenda de executivos, eles perderam a capacidade do lúdico, do prazer e do brinquedo. Tornam-se sérios demais numa época em que deveriam brincar. Por que o estatuto dos menores não discute esta questão? Muitos lares têm impedido os filhos de viverem pelo desejo incontrolável de que sejam pessoas de sucesso na vida.
Homens e mulheres também vivem no afã do sucesso. Partem vorazmente para o mercado de trabalho, fazem cursos cada vez mais rigorosos, afinal, dizem eles, precisam de um lugar ao sol. Os dois saem em busca do sucesso, reconhecimento, notoriedade. Esquecem-se uns dos outros, abandonam afetivamente os filhos e neste desespero pós-moderno, perdem a alma e o prazer de ser gente, de brincar, de rir. Ambos providenciam bens e riquezas para casa, mas ninguém está providenciando recursos para a alma, para os afetos.
O que poucos estão discutindo é o real conceito de sucesso. O que é ser bem sucedido? O que transforma uma pessoa em alguém vitorioso? Um diploma a mais? um carro mais novo? uma viagem a mais à Europa? Gente com tanto e com tão pouco, vazia de afeto, vazia de alma, vazia de sentido? É isto que chamamos de sucesso? Filhos estressados, individualistas, egoístas, burgueses, sem razão para viver, sem prazer de viver, sem sentido para viver? Pessoas ensimesmadas, yuppies sem desejo de ser gente, sem capacidade de amar?
A Bíblia nos faz uma exortação muito séria sobre isto: "Tal é a sorte de todo ganancioso; e este espírito de ganância tira a vida de quem o possui" (Pv 1.19)
Embora ele acentue que este ambiente é construído em grande parte pelo próprio homem não deixa de expressar em todo conteúdo do livro, forças humanas que condicionam o homem, levando-o a fazer opções que não necessariamente são julgadas em todas as suas complexidades.
Esta é uma das razões pelas quais temos falado de forças tirânicas que agem sobre nós e interagem conosco. Uma das que tem sido mais enfáticas, tem sido o conceito de sucesso. Somos uma sociedade ambiciosa e desesperada por reconhecimento público.
Imagine que você pergunte ao seu filho pré adolescente ou adolescente, e sugiro que não o faça, o que ele pensa que seria a sua expectativa sobre ele lhe dando três opções: ser um homem rico, um homem bom, ou um homem de sucesso, o que você acha que ele iria responder?
Muito provavelmente a resposta seria sucesso. O excesso de atividades, tarefas e obrigações que criamos para nossos filhos revelam a nossa ansiedade para que eles sejam bem sucedidos. A agenda de muitos meninos e meninas tem sido agenda de executivos, eles perderam a capacidade do lúdico, do prazer e do brinquedo. Tornam-se sérios demais numa época em que deveriam brincar. Por que o estatuto dos menores não discute esta questão? Muitos lares têm impedido os filhos de viverem pelo desejo incontrolável de que sejam pessoas de sucesso na vida.
Homens e mulheres também vivem no afã do sucesso. Partem vorazmente para o mercado de trabalho, fazem cursos cada vez mais rigorosos, afinal, dizem eles, precisam de um lugar ao sol. Os dois saem em busca do sucesso, reconhecimento, notoriedade. Esquecem-se uns dos outros, abandonam afetivamente os filhos e neste desespero pós-moderno, perdem a alma e o prazer de ser gente, de brincar, de rir. Ambos providenciam bens e riquezas para casa, mas ninguém está providenciando recursos para a alma, para os afetos.
O que poucos estão discutindo é o real conceito de sucesso. O que é ser bem sucedido? O que transforma uma pessoa em alguém vitorioso? Um diploma a mais? um carro mais novo? uma viagem a mais à Europa? Gente com tanto e com tão pouco, vazia de afeto, vazia de alma, vazia de sentido? É isto que chamamos de sucesso? Filhos estressados, individualistas, egoístas, burgueses, sem razão para viver, sem prazer de viver, sem sentido para viver? Pessoas ensimesmadas, yuppies sem desejo de ser gente, sem capacidade de amar?
A Bíblia nos faz uma exortação muito séria sobre isto: "Tal é a sorte de todo ganancioso; e este espírito de ganância tira a vida de quem o possui" (Pv 1.19)
domingo, 8 de maio de 2005
A Tirania do Mal
A presença do mal no mundo cria questões filosóficas angustiantes e perturbadoras. C. S. Lewis, conhecido escritor e professor em Oxford, falecido em 1963 afirma que existem duas abordagens complicadoras quando tratamos deste tema: A Primeira é negarmos o mal. A segunda, ficarmos obcecados pelo mal. Tanto a negação quanto a obsessão são complicadoras porque na primeira, nega-se a discussão e faz-se de conta que o mal não existe. Na segunda, cria-se uma neurose que tenta analisar a vida apenas pela perspectiva do sobrenatural, retirando das pessoas a compreensão mais ampla da responsabilidade moral. O diabo torna-se culpado de todas as fraquezas, contradições, ambigüidades e malandragens.
Para aqueles que professam os credos judaico-cristãos, é importante notar que ele aparece reiteradas vezes nos escritos do Velho e do Novo Testamento. Satã é tido como responsável por uma infinidade de doenças humanas, enviando aflições e perturbações à humanidade, trazendo distúrbios mentais e surge sempre como um espírito oposto a Deus, distanciando o homem de Deus e de seus propósitos. Uma boa referência bibliográfica para este tema é o livro, O Mal, o lado sombrio da realidade, de John A. Sanford, publicado pela edicões Paulinas.
Tanto na perspectiva das Escrituras quanto na experiência cotidiana, o Mal tem sido sempre uma força tirânica. Muitos têm sido presos de forma inconsciente desta força simbólica e/ou real, e vivem sufocados por um não sei quê de angústias e medos. Para alguns já não se trata mais de uma impressão, mas de fato de uma opressão. O mal tem sido experimentado de forma aguda no viver diário. Estes fatos não nos são desconhecidos.
Scott Peck, no livro O Povo da Mentira, afirma que o mal é o oposto da vida, e chama a atenção para o fato de que na língua inglesa, curiosamente, evil (mal), é oposto de live (to live: viver). Evil é vida escrita de trás para a frente, vista pelo inverso. O mal é oposto à vida. Ele confronta e esvazia a capacidade de viver, e isto está de acordo com o pensamento de Jesus que diz que "o diabo veio para matar, roubar e destruir, mas eu vim para que tenham vida, e vida em abundância".
Muitos têm sido escravizados por conceitos e pela realidade do mal. São forças espirituais e simbólicas que vão além do cotidiano. Fui procurado por médicos de um hospital psiquiatra que pediam para que eu desse parte do meu tempo para lidar com pessoas que precisavam de um tipo especifico de tratamento que ia além da análise, terapia e remédios que eram aplicados. Queriam alguém que lidasse com pessoas pelo ângulo espiritual. Peck, psiquiatra citado acima, admitia que ele mesmo buscou grupos de exorcistas para lidar com coisas que iam para além do cotidiano e do ordinário.
Não viver demonizando o comportamento humano, nem viver ignorando os fenômenos torna-se sabedoria para nossas vidas. Ainda mais importante, porém, é buscarmos solução integrada para que não mais estejamos escravizados de forças e conceitos que podem nos impedir de sermos menos do que aquilo que Deus queria para nós. Jesus lidou algumas vezes com endominhados, mas não via demônios em toda parte. Também não fazia de conta que não existiam. João, seu apóstolo, definiu o ministério de Jesus de duas formas: Primeiro afirmou que Deus é amor (1 Jo 4.16), e depois disse: "Para isto se manifestou o Filho de Deus: Para destruir as obras do diabo" (1 Jo 3.8). Podemos concluir que o amor de Jesus e a compreensão de sua aceitação incondicional por nós, e seu ministério que confronta o mal, são elementos altamente libertadores para aqueles que ainda vivem sob a tirania do Mal.
Para aqueles que professam os credos judaico-cristãos, é importante notar que ele aparece reiteradas vezes nos escritos do Velho e do Novo Testamento. Satã é tido como responsável por uma infinidade de doenças humanas, enviando aflições e perturbações à humanidade, trazendo distúrbios mentais e surge sempre como um espírito oposto a Deus, distanciando o homem de Deus e de seus propósitos. Uma boa referência bibliográfica para este tema é o livro, O Mal, o lado sombrio da realidade, de John A. Sanford, publicado pela edicões Paulinas.
Tanto na perspectiva das Escrituras quanto na experiência cotidiana, o Mal tem sido sempre uma força tirânica. Muitos têm sido presos de forma inconsciente desta força simbólica e/ou real, e vivem sufocados por um não sei quê de angústias e medos. Para alguns já não se trata mais de uma impressão, mas de fato de uma opressão. O mal tem sido experimentado de forma aguda no viver diário. Estes fatos não nos são desconhecidos.
Scott Peck, no livro O Povo da Mentira, afirma que o mal é o oposto da vida, e chama a atenção para o fato de que na língua inglesa, curiosamente, evil (mal), é oposto de live (to live: viver). Evil é vida escrita de trás para a frente, vista pelo inverso. O mal é oposto à vida. Ele confronta e esvazia a capacidade de viver, e isto está de acordo com o pensamento de Jesus que diz que "o diabo veio para matar, roubar e destruir, mas eu vim para que tenham vida, e vida em abundância".
Muitos têm sido escravizados por conceitos e pela realidade do mal. São forças espirituais e simbólicas que vão além do cotidiano. Fui procurado por médicos de um hospital psiquiatra que pediam para que eu desse parte do meu tempo para lidar com pessoas que precisavam de um tipo especifico de tratamento que ia além da análise, terapia e remédios que eram aplicados. Queriam alguém que lidasse com pessoas pelo ângulo espiritual. Peck, psiquiatra citado acima, admitia que ele mesmo buscou grupos de exorcistas para lidar com coisas que iam para além do cotidiano e do ordinário.
Não viver demonizando o comportamento humano, nem viver ignorando os fenômenos torna-se sabedoria para nossas vidas. Ainda mais importante, porém, é buscarmos solução integrada para que não mais estejamos escravizados de forças e conceitos que podem nos impedir de sermos menos do que aquilo que Deus queria para nós. Jesus lidou algumas vezes com endominhados, mas não via demônios em toda parte. Também não fazia de conta que não existiam. João, seu apóstolo, definiu o ministério de Jesus de duas formas: Primeiro afirmou que Deus é amor (1 Jo 4.16), e depois disse: "Para isto se manifestou o Filho de Deus: Para destruir as obras do diabo" (1 Jo 3.8). Podemos concluir que o amor de Jesus e a compreensão de sua aceitação incondicional por nós, e seu ministério que confronta o mal, são elementos altamente libertadores para aqueles que ainda vivem sob a tirania do Mal.
segunda-feira, 18 de abril de 2005
A Tirania da Culpa
Gabriel Garcia Marques no seu famoso livro "Cem anos de solidão" conta a história de José Arcadio Buendia, um dos personagens centrais do romance, que depois de uma briga numa rinha com Prudêncio Aguilar o mata com uma lança. Um dia, sua mulher saiu para beber água no quintal e retornou lívida afirmando ter visto Prudêncio junto à tina, com uma expressão triste, tentando tapar com uma atadura o buraco da garganta. Voltou ao quarto, contou ao esposo o que tinha visto, mas ele não ligou e respondeu: “Os mortos não saem, o que acontece é que não agüentamos com o peso da consciência”. Somos uma sociedade que experimenta dois sentimentos absolutamente ambíguos em relação à culpa: Negamos a existência do pecado e ao mesmo tempo vivemos culpados.
Ora, se pecado é algo puramente cultural não faz sentido viver culpado. Pecado, que é um termo absolutamente religioso, implica que existe uma lei absoluta passível de ser quebrada e que existe o ofensor e o ofendido. Se pecado não existe, a culpa, por conseguinte, não deveria existir. No entanto, quando mais se tenta negar a culpa, mais se percebe uma geração culpada. Obviamente, nem toda culpa é ruim, “Sentir-se culpado de alguma coisa que não é má é desnecessário e doentio. Não se sentir culpado de algo que é mal, é também doença”. Scott Peck, The people of the lie.
Obviamente existe sentimento de culpa sem culpa, resultante de um processo neurótico e repressor de uma sociedade doentia, mas também é certo pensar que existe culpa sem sentimento de culpa, em situações nas quais a pessoa não é capaz de perceber limites, nem o senso comum. Quando tal culpa não é percebida, há uma neurotização da alma que desemboca na psicopatia e na sociopatia. Nestes casos, mesmo quando o crime mais hediondo é praticado, a consciência da pessoa parece não ser incomodada nem afligida. Em tais situações, a liberdade que foi dada para a vida, torna-se um instrumento banal da morte, como no recente caso do serial killer conhecido como Corumbá.
A culpa penetra costumeiramente a alma humana e se torna tirânica quando escraviza aquele que deveria estar livre, mantém culpado quem já foi absolvido. Muitos vivem prisioneiros de seus fantasmas e são comumente detidos atrás de grades invisíveis. São pessoas acorrentadas ao passado. Muitas doenças são decorrentes de uma alma culpada, que paralisa e imobiliza as pessoas, como relata Shakespeare em Lady MacBeth, cujo personagem tem suas mãos ensangüentadas e vive gritando num interminável processo de dor sem saber onde suas mãos poderão ser lavadas.
O problema é que a culpa é traiçoeira, como um poço sem fundo: Quanto mais você tira terra mais profundo vai ficando. Ela escraviza, paralisa o potencial, enfraquece a energia e rouba todo entusiasmo das pessoas. A Bíblia afirma que a alma culpada correrá até a morte e ninguém poderá detê-la (Pv 28.17). Em quase todos estes processos de culpa percebe-se que a incapacidade da pessoa de se sentir perdoada.
Mas como se pode perdoar o “pecado” que não se reconhece? Como ser absolvido de um mal que não foi praticado? Se não existe pecado real, como se pode perdoar uma culpa real?
Creio que seria mais fácil se admitíssemos nossa culpa, porque assim poderíamos ser absolvido de forma real de nossa escravidão. Negação da doença nunca ajudou no processo da cura do enfermo. Parece que esta foi a leitura que Jesus fez da vida. Diante da mulher que estava para ser apedrejada ele diz: “Nem eu te condeno, vá e não peques mais”. Ele não nega seu erro nem o ignora, mas a absolve sabendo exatamente o que a culpava, e ela é assim restaurada. Para Jesus, pecado era algo muito real, mas a culpa também tinha remédio, cuja cura foi providenciada por ele mesmo, que no seu processo vicário de nos substituir na cruz assumiu a culpa em nosso lugar, como o Cordeiro bendito que tira o pecado do mundo.
Ora, se pecado é algo puramente cultural não faz sentido viver culpado. Pecado, que é um termo absolutamente religioso, implica que existe uma lei absoluta passível de ser quebrada e que existe o ofensor e o ofendido. Se pecado não existe, a culpa, por conseguinte, não deveria existir. No entanto, quando mais se tenta negar a culpa, mais se percebe uma geração culpada. Obviamente, nem toda culpa é ruim, “Sentir-se culpado de alguma coisa que não é má é desnecessário e doentio. Não se sentir culpado de algo que é mal, é também doença”. Scott Peck, The people of the lie.
Obviamente existe sentimento de culpa sem culpa, resultante de um processo neurótico e repressor de uma sociedade doentia, mas também é certo pensar que existe culpa sem sentimento de culpa, em situações nas quais a pessoa não é capaz de perceber limites, nem o senso comum. Quando tal culpa não é percebida, há uma neurotização da alma que desemboca na psicopatia e na sociopatia. Nestes casos, mesmo quando o crime mais hediondo é praticado, a consciência da pessoa parece não ser incomodada nem afligida. Em tais situações, a liberdade que foi dada para a vida, torna-se um instrumento banal da morte, como no recente caso do serial killer conhecido como Corumbá.
A culpa penetra costumeiramente a alma humana e se torna tirânica quando escraviza aquele que deveria estar livre, mantém culpado quem já foi absolvido. Muitos vivem prisioneiros de seus fantasmas e são comumente detidos atrás de grades invisíveis. São pessoas acorrentadas ao passado. Muitas doenças são decorrentes de uma alma culpada, que paralisa e imobiliza as pessoas, como relata Shakespeare em Lady MacBeth, cujo personagem tem suas mãos ensangüentadas e vive gritando num interminável processo de dor sem saber onde suas mãos poderão ser lavadas.
O problema é que a culpa é traiçoeira, como um poço sem fundo: Quanto mais você tira terra mais profundo vai ficando. Ela escraviza, paralisa o potencial, enfraquece a energia e rouba todo entusiasmo das pessoas. A Bíblia afirma que a alma culpada correrá até a morte e ninguém poderá detê-la (Pv 28.17). Em quase todos estes processos de culpa percebe-se que a incapacidade da pessoa de se sentir perdoada.
Mas como se pode perdoar o “pecado” que não se reconhece? Como ser absolvido de um mal que não foi praticado? Se não existe pecado real, como se pode perdoar uma culpa real?
Creio que seria mais fácil se admitíssemos nossa culpa, porque assim poderíamos ser absolvido de forma real de nossa escravidão. Negação da doença nunca ajudou no processo da cura do enfermo. Parece que esta foi a leitura que Jesus fez da vida. Diante da mulher que estava para ser apedrejada ele diz: “Nem eu te condeno, vá e não peques mais”. Ele não nega seu erro nem o ignora, mas a absolve sabendo exatamente o que a culpava, e ela é assim restaurada. Para Jesus, pecado era algo muito real, mas a culpa também tinha remédio, cuja cura foi providenciada por ele mesmo, que no seu processo vicário de nos substituir na cruz assumiu a culpa em nosso lugar, como o Cordeiro bendito que tira o pecado do mundo.
terça-feira, 5 de abril de 2005
A tirania da estética
Jean Jacques Rousseau inicia seu livro, O Contrato Social, afirmando o seguinte: "O homem é livre, mas por toda parte encontra-se a ferros". Forças tirânicas tendem a subjugar a natureza humana e a torná-la menos do que aquilo que de fato é. A tirania veste muitas roupagens e máscaras poderosas: Somos escravizados por forças psicológicas, sociais, religiosas e até mesmo sobrenaturais. Hoje gostaria de me reportar a um destes elementos tirânicos denominado por Jum Nakao de "a efemeridade da estética" em seu livro, "A Costura do Invisível" (Senac; 150 reais).
Uma pesquisa encomendada pela Unilever no campo da estética e realizada em dez países, coordenada pelas professoras Suzy Orbach, da London School of Economics, e Nancy Etcoff, de Harvard, trouxe alguns resultados que revelam a obsessão pela aparência. No Brasil, o peso e a beleza do corpo influem mais na auto-estima que sucesso na profissão, fé religiosa ou número de amigos. Apenas 7% das mulheres se consideram bonitas e, por conta disso, 54% se dizem dispostas a fazer cirurgias plásticas.
Na verdade não são apenas as mulheres que se encontram nesta armadilha. Homens também estão dispostos a ir cada vez mais longe na busca do corpo escultural e do rosto perfeito, muitas vezes em detrimento de sua própria saúde. Isso é uma tirania. Tratamentos cada vez mais complexos são feitos mesmo quando são avisados de que não são indicados para seu caso. E quem tenta melhorar o que não precisa pode ter um resultado pior que o inicial, muito de nossa obsessão é não apenas desnecessária, mas também inútil.
A psicanalista Susie Orbach, que atendeu Lady Di quando a princesa sofria por se achar gorda, afirma que existe uma pressão comercial muito forte obrigando-nos a seguir um certo padrão de beleza e que enquanto a cultura não assimilar outros modelos estéticos, a maioria continuará vulnerável às armadilhas da vaidade. Por causa desta ação tirânica que se transformou em modismo, nada menos do que 58% das brasileiras afirmam que, caso a cirurgia plástica fosse gratuita, recorreriam imediatamente ao bisturi. "Considero esse dado chocante. A preocupação com a aparência é tão importante para as brasileiras que a cirurgia plástica virou parte do cotidiano", diz Susie Orbach.
Excesso de preocupação com a forma provoca efeitos colaterais incômodos para as pessoas. Elas perseguem um ideal estético perfeito, que é irreal, e por isso tornam-se insatisfeitas. Passam a viver queixosas em relação a auto imagem e são as que mais se enxergam "gordinhas" e "pouco sexy", entre as mulheres nos dez países observados.
Poucos param para considerar quão ideológica é a beleza. Beleza não apenas é imposta, mas varia de cultura para cultura. O padrão de beleza que hoje nos é apresentado é o das modelos que desfilam nas passarelas: magricelas de quadris estreitos, seios quase inexistentes, cabelo esticado e pele impecável. Sete de cada dez meninas declaram fazer algum tipo de dieta para emagrecer, mesmo não tendo nenhum problema objetivo com a balança. Mas este padrão estético não é o mesmo em outras culturas orientais e africanas. O fato é que as adolescentes de hoje são atraídas cedo pelas armadilhas da vaidade. A frustração feminina com a própria imagem e a conseqüente busca por uma aparência mais próxima dos padrões inculcados pela mídia alimentam uma indústria poderosa. Só no ano passado as brasileiras gastaram 17 bilhões de reais na compra de produtos cosméticos e de perfumaria. Não é fácil – e é bem caro – ser uma mulher moderna.
Apesar deste padrão estético ser requerido, muitas vezes em nome da saúde física, A bulimia (doença que leva a pessoa a vomitar tudo que ingere), e a anorexia (incapacidade de se alimentar), são doenças que se tornaram comuns, em nome da tirania da estética. Existem pessoas entrando em choque hipoglicêmico (queda acentuada na produção de açúcar no sangue) e parando nas UTIs em razão das dietas piradas que tem sido criadas para produzir beleza. As sociedades médicas alertam para os riscos e absoluta falta de necessidade de muitos dos tratamentos. Alguns pensam em recorrer às cirurgias de redução do estômago apenas para controlar o peso, quando a cirurgia bariátrica trata uma doença e não tem propósitos estéticos. De acordo com Marco Antonio de Tommaso, psicólogo de várias agências de modelos, 92% das suas clientes têm problemas alimentares. ''Elogios, trabalhos, nada satisfaz a vaidade dessas moças. Querem estar cada vez mais magras, achando que isso fará com que sejam mais bem aceitas''.
É bom lembrar que não existe cirurgia da felicidade. Ela só é encontrada quando o coração encontra sentido em viver, e se volta para o propósito para o qual foi criado.
Uma pesquisa encomendada pela Unilever no campo da estética e realizada em dez países, coordenada pelas professoras Suzy Orbach, da London School of Economics, e Nancy Etcoff, de Harvard, trouxe alguns resultados que revelam a obsessão pela aparência. No Brasil, o peso e a beleza do corpo influem mais na auto-estima que sucesso na profissão, fé religiosa ou número de amigos. Apenas 7% das mulheres se consideram bonitas e, por conta disso, 54% se dizem dispostas a fazer cirurgias plásticas.
Na verdade não são apenas as mulheres que se encontram nesta armadilha. Homens também estão dispostos a ir cada vez mais longe na busca do corpo escultural e do rosto perfeito, muitas vezes em detrimento de sua própria saúde. Isso é uma tirania. Tratamentos cada vez mais complexos são feitos mesmo quando são avisados de que não são indicados para seu caso. E quem tenta melhorar o que não precisa pode ter um resultado pior que o inicial, muito de nossa obsessão é não apenas desnecessária, mas também inútil.
A psicanalista Susie Orbach, que atendeu Lady Di quando a princesa sofria por se achar gorda, afirma que existe uma pressão comercial muito forte obrigando-nos a seguir um certo padrão de beleza e que enquanto a cultura não assimilar outros modelos estéticos, a maioria continuará vulnerável às armadilhas da vaidade. Por causa desta ação tirânica que se transformou em modismo, nada menos do que 58% das brasileiras afirmam que, caso a cirurgia plástica fosse gratuita, recorreriam imediatamente ao bisturi. "Considero esse dado chocante. A preocupação com a aparência é tão importante para as brasileiras que a cirurgia plástica virou parte do cotidiano", diz Susie Orbach.
Excesso de preocupação com a forma provoca efeitos colaterais incômodos para as pessoas. Elas perseguem um ideal estético perfeito, que é irreal, e por isso tornam-se insatisfeitas. Passam a viver queixosas em relação a auto imagem e são as que mais se enxergam "gordinhas" e "pouco sexy", entre as mulheres nos dez países observados.
Poucos param para considerar quão ideológica é a beleza. Beleza não apenas é imposta, mas varia de cultura para cultura. O padrão de beleza que hoje nos é apresentado é o das modelos que desfilam nas passarelas: magricelas de quadris estreitos, seios quase inexistentes, cabelo esticado e pele impecável. Sete de cada dez meninas declaram fazer algum tipo de dieta para emagrecer, mesmo não tendo nenhum problema objetivo com a balança. Mas este padrão estético não é o mesmo em outras culturas orientais e africanas. O fato é que as adolescentes de hoje são atraídas cedo pelas armadilhas da vaidade. A frustração feminina com a própria imagem e a conseqüente busca por uma aparência mais próxima dos padrões inculcados pela mídia alimentam uma indústria poderosa. Só no ano passado as brasileiras gastaram 17 bilhões de reais na compra de produtos cosméticos e de perfumaria. Não é fácil – e é bem caro – ser uma mulher moderna.
Apesar deste padrão estético ser requerido, muitas vezes em nome da saúde física, A bulimia (doença que leva a pessoa a vomitar tudo que ingere), e a anorexia (incapacidade de se alimentar), são doenças que se tornaram comuns, em nome da tirania da estética. Existem pessoas entrando em choque hipoglicêmico (queda acentuada na produção de açúcar no sangue) e parando nas UTIs em razão das dietas piradas que tem sido criadas para produzir beleza. As sociedades médicas alertam para os riscos e absoluta falta de necessidade de muitos dos tratamentos. Alguns pensam em recorrer às cirurgias de redução do estômago apenas para controlar o peso, quando a cirurgia bariátrica trata uma doença e não tem propósitos estéticos. De acordo com Marco Antonio de Tommaso, psicólogo de várias agências de modelos, 92% das suas clientes têm problemas alimentares. ''Elogios, trabalhos, nada satisfaz a vaidade dessas moças. Querem estar cada vez mais magras, achando que isso fará com que sejam mais bem aceitas''.
É bom lembrar que não existe cirurgia da felicidade. Ela só é encontrada quando o coração encontra sentido em viver, e se volta para o propósito para o qual foi criado.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2005
A TIRANIA DOS FILHOS
Uma antiga amiga minha afirmava que estava sempre vivendo na contramão da história: quando pequena, os melhores pedaços de frango no almoço de sua casa eram reservados aos adultos, e hoje, a melhor parte da refeição estava reservada às crianças.
Na verdade, sua afirmação jocosa reflete apenas algo bem mais sério que tem acontecido em nossos dias. Os pedagogos e orientadores têm chamado isto de "a tirania dos filhos". A dificuldade dos pais em estabelecer limites cria uma geração de crianças mimadas, dominadoras e desajustadas socialmente.
A pedagoga Tânia Zagury, da Universidade Federal do Rio de Janeiro escreveu nos idos de 90 uma tese, publicada com o titulo, "Sem padecer no paraíso – em defesa dos pais ou sobre a tirania dos filhos", baseada na entrevista com 160 pessoas da classe média carioca e concluiu que, temendo traumatizar os filhos e não querendo desagradá-los ao impor padrões mais rígidos de educação, os pais passaram a ser comandados pelos filhos. Seu trabalho mostra que os pais não conseguem definir regras triviais em casa e a maioria está confusa sobre seus papéis e confessa que não sabe como agir com eles.
Sua pesquisa demonstra o seguinte:
88% acabam fazendo concessões aos filhos com medo de errar na educação.
88% se sentem culpados em dizer não aos filhos.
76% crêem que a disciplina possa controlar alguns casos de rebeldia, mas teme aplicá-la.
73% são a favor do castigo, embora não estejam muito claro quando e como devem fazê-lo.
70% Acreditam que as mães que trabalham fora não conseguem atender adequadamente as necessidades de seus filhos.
68% fazem o que a criança pede tentando evitar sentimento de culpa.
67% se sentem inseguros quanto às regras da educação.
Como educar filhos no Século XXI?
Esta é uma grande questão para nossos dias. Nosso contexto pós moderno, com ênfase no pluralismo, no relativismo e na tolerância, gerou um vácuo educacional. Nossa sociedade questionou a educação tradicional mas não conseguiu colocar outro modelo em seu lugar. Ninguém aceita as condições de autoritarismo impostas no antigo modelo educacional, mas a situação torna-se ainda mais grave, quando os filhos se tornam mimados, abusados, descontrolados, com uma enorme capacidade de fazerem chantagem e até mesmo agredirem fisicamente, e os pais amedrontados e acuados com a possível reação dos filhos, caso suas necessidades não sejam plenamente atendidas. Surgem assim, verdadeiros "monstrinhos verdes" dentro de casa, vorazes, temperamentais, exigentes e cheios de direitos sem responsabilidade.
O papel da autoridade
Fundamentados num falso psicologismo, os pais se tornaram presas de chavões mal interpretados do tipo "disciplinar pode traumatizar os filhos", "se dissermos não eles podem crescer recalcados", "rebeldia é uma forma de afirmar sua personalidade" e "nunca diga não".
Ora, tanto a visão mais antiga sobre educação, como pesquisas mais modernas sobre o assunto mostram exatamente o contrário.
Salomão, o sábio milenar afirmava que "A criança entregue a si mesma, cairá no mal" (Pv 29.15). Permitir que a criança faça escolhas num momento em que não tem maturidade para isto, e seja voluntariosa em suas atitudes, torna-se na verdade, um enorme peso e desgraça para ela. Esta suposta liberdade pode trazer-lhe graves conseqüências.
Freud, controvertido médico e pai da psicanálise, analisou a estrutura psíquica do ser humano sobre três pilares: Id, Ego e Superego. O Id é intuitivo, impulsivo, busca prazer imediato e não tem regras. Quando ele quer, tem que ser aqui e agora, não importando as conseqüências que tal atitude trará no futuro. O Superego é comparado à consciência social e moral. Está sempre censurando e questionando se uma satisfação pessoal deve ou não ser assumida. E o Ego, faz um papel mediador entre estas duas forças, sendo um fiel da balança, que tenta avaliar as conseqüências, e estabelecer limites e regras que sejam flexíveis o suficiente para que a pessoa não seja frouxa e licenciosa demais para atender o Id, nem repressiva e autoritária demais para se submeter ao domínio do Superego. Quando O Id predomina, temos um descontrole psicológico, a pessoa está entregue aos seus impulsos e quer atendê-lo sempre. Torna-se uma pessoa desajustada socialmente, e em casos mais graves um psicopata. Quando o Superego predomina, a pessoa se torna cheia de recalques, tem dificuldade de tomar decisões, tem medo de tudo e se encolhe. Nem a licenciosidade nem a rigidez interessam à estrutura psicológica saudável.
Içami Tiba, psiquiatra renomado hoje no Brasil pelas suas teses sobre educação infantil afirma que os filhos têm uma enorme necessidade de delimitações. Ao estabelecer limites os filhos aprendem que a sociedade tem regra, e quando os pais, para poupar os filhos não fixam estas normas poderão trazer muitos pesares para eles na fase adulta, porque relacionamentos são normativos. Tiba advoga o princípio de uma disciplina que seja constante, consistente e que ensine as conseqüências aos filhos.
Quando as regras são claras, elas se tornam cercas de proteção psicológica aos filhos. Incoerência e rigidez são traumáticas assim como a falta de parâmetros.
Deus colocou os pais com a tarefa de mentoria sobre os filhos. Nossa sociedade tem muita dificuldade em obedecer autoridades, bem como em exercê-las. Muitos não querem estar em posição decisória, mas é necessário que existam regras, por isto nenhum sistema de governo é anárquico. Filhos criados debaixo de uma autoridade amorosa e sensível, onde existe comunicação e ternura, com limites claros e amenos sentem-se seguras. Eventualmente protestarão, principalmente na fase em que é necessária a afirmação da personalidade, mas saberão que são amados. Nunca vi filhos criados debaixo de uma disciplina amorosa crescerem neuróticos, mas já vi muitos filhos neuróticos por ausência de regras, assim como tantos outros deformados em seu caráter pelo excesso de regras.
A autoridade dos pais é altamente benéfica para a organização do mundo interior dos filhos. E esta autoridade foi dada por Deus. Pais não precisam mendigar autoridade, já que esta lhe foi outorgada, mas precisam exercê-la. Isto os livrará de futuros dissabores no relacionamento com seus filhos, e de transtornos sociais e morais que filhos tiranos podem trazer sobre si mesmos.
Na verdade, sua afirmação jocosa reflete apenas algo bem mais sério que tem acontecido em nossos dias. Os pedagogos e orientadores têm chamado isto de "a tirania dos filhos". A dificuldade dos pais em estabelecer limites cria uma geração de crianças mimadas, dominadoras e desajustadas socialmente.
A pedagoga Tânia Zagury, da Universidade Federal do Rio de Janeiro escreveu nos idos de 90 uma tese, publicada com o titulo, "Sem padecer no paraíso – em defesa dos pais ou sobre a tirania dos filhos", baseada na entrevista com 160 pessoas da classe média carioca e concluiu que, temendo traumatizar os filhos e não querendo desagradá-los ao impor padrões mais rígidos de educação, os pais passaram a ser comandados pelos filhos. Seu trabalho mostra que os pais não conseguem definir regras triviais em casa e a maioria está confusa sobre seus papéis e confessa que não sabe como agir com eles.
Sua pesquisa demonstra o seguinte:
88% acabam fazendo concessões aos filhos com medo de errar na educação.
88% se sentem culpados em dizer não aos filhos.
76% crêem que a disciplina possa controlar alguns casos de rebeldia, mas teme aplicá-la.
73% são a favor do castigo, embora não estejam muito claro quando e como devem fazê-lo.
70% Acreditam que as mães que trabalham fora não conseguem atender adequadamente as necessidades de seus filhos.
68% fazem o que a criança pede tentando evitar sentimento de culpa.
67% se sentem inseguros quanto às regras da educação.
Como educar filhos no Século XXI?
Esta é uma grande questão para nossos dias. Nosso contexto pós moderno, com ênfase no pluralismo, no relativismo e na tolerância, gerou um vácuo educacional. Nossa sociedade questionou a educação tradicional mas não conseguiu colocar outro modelo em seu lugar. Ninguém aceita as condições de autoritarismo impostas no antigo modelo educacional, mas a situação torna-se ainda mais grave, quando os filhos se tornam mimados, abusados, descontrolados, com uma enorme capacidade de fazerem chantagem e até mesmo agredirem fisicamente, e os pais amedrontados e acuados com a possível reação dos filhos, caso suas necessidades não sejam plenamente atendidas. Surgem assim, verdadeiros "monstrinhos verdes" dentro de casa, vorazes, temperamentais, exigentes e cheios de direitos sem responsabilidade.
O papel da autoridade
Fundamentados num falso psicologismo, os pais se tornaram presas de chavões mal interpretados do tipo "disciplinar pode traumatizar os filhos", "se dissermos não eles podem crescer recalcados", "rebeldia é uma forma de afirmar sua personalidade" e "nunca diga não".
Ora, tanto a visão mais antiga sobre educação, como pesquisas mais modernas sobre o assunto mostram exatamente o contrário.
Salomão, o sábio milenar afirmava que "A criança entregue a si mesma, cairá no mal" (Pv 29.15). Permitir que a criança faça escolhas num momento em que não tem maturidade para isto, e seja voluntariosa em suas atitudes, torna-se na verdade, um enorme peso e desgraça para ela. Esta suposta liberdade pode trazer-lhe graves conseqüências.
Freud, controvertido médico e pai da psicanálise, analisou a estrutura psíquica do ser humano sobre três pilares: Id, Ego e Superego. O Id é intuitivo, impulsivo, busca prazer imediato e não tem regras. Quando ele quer, tem que ser aqui e agora, não importando as conseqüências que tal atitude trará no futuro. O Superego é comparado à consciência social e moral. Está sempre censurando e questionando se uma satisfação pessoal deve ou não ser assumida. E o Ego, faz um papel mediador entre estas duas forças, sendo um fiel da balança, que tenta avaliar as conseqüências, e estabelecer limites e regras que sejam flexíveis o suficiente para que a pessoa não seja frouxa e licenciosa demais para atender o Id, nem repressiva e autoritária demais para se submeter ao domínio do Superego. Quando O Id predomina, temos um descontrole psicológico, a pessoa está entregue aos seus impulsos e quer atendê-lo sempre. Torna-se uma pessoa desajustada socialmente, e em casos mais graves um psicopata. Quando o Superego predomina, a pessoa se torna cheia de recalques, tem dificuldade de tomar decisões, tem medo de tudo e se encolhe. Nem a licenciosidade nem a rigidez interessam à estrutura psicológica saudável.
Içami Tiba, psiquiatra renomado hoje no Brasil pelas suas teses sobre educação infantil afirma que os filhos têm uma enorme necessidade de delimitações. Ao estabelecer limites os filhos aprendem que a sociedade tem regra, e quando os pais, para poupar os filhos não fixam estas normas poderão trazer muitos pesares para eles na fase adulta, porque relacionamentos são normativos. Tiba advoga o princípio de uma disciplina que seja constante, consistente e que ensine as conseqüências aos filhos.
Quando as regras são claras, elas se tornam cercas de proteção psicológica aos filhos. Incoerência e rigidez são traumáticas assim como a falta de parâmetros.
Deus colocou os pais com a tarefa de mentoria sobre os filhos. Nossa sociedade tem muita dificuldade em obedecer autoridades, bem como em exercê-las. Muitos não querem estar em posição decisória, mas é necessário que existam regras, por isto nenhum sistema de governo é anárquico. Filhos criados debaixo de uma autoridade amorosa e sensível, onde existe comunicação e ternura, com limites claros e amenos sentem-se seguras. Eventualmente protestarão, principalmente na fase em que é necessária a afirmação da personalidade, mas saberão que são amados. Nunca vi filhos criados debaixo de uma disciplina amorosa crescerem neuróticos, mas já vi muitos filhos neuróticos por ausência de regras, assim como tantos outros deformados em seu caráter pelo excesso de regras.
A autoridade dos pais é altamente benéfica para a organização do mundo interior dos filhos. E esta autoridade foi dada por Deus. Pais não precisam mendigar autoridade, já que esta lhe foi outorgada, mas precisam exercê-la. Isto os livrará de futuros dissabores no relacionamento com seus filhos, e de transtornos sociais e morais que filhos tiranos podem trazer sobre si mesmos.
Assinar:
Postagens (Atom)