Dia 15 de Maio de 2026 tive a alegria de celebrar os 90 anos de D.Zilá, minha mãe. O encontro da família para este evento se deu em Palmas, onde ela mora. Celebrar 90 anos não é para qualquer um...E ela nunca perdeu a lucidez, ainda que o corpo cobre pedágio dos anos vividos. Ela é a única irmã viva de uma família com 11 irmãos, isto nos leva a considerar que ela viu todos partirem, a maioria ainda com idade relativamente nova. Portanto, ela é um modelo clássico, de edição limitada, fabricada em 1936. As peças são originais e o motor continua funcionando, embora às vezes precise de um tempo para aquecer de manhã.
Que privilégio e que responsabilidade chegar aos 90 anos! Isto significa que ela nasceu em 1936, quando o mundo se agitava com os rumores da II Guerra. Ela foi testemunha viva de quase um século de transformações no mundo, na cultura e na tecnologia. Para uma pessoa desta idade, é de se esperar que o peso da ansiedade do amanhã diminua e a colheita da memória ganhe força. Apagar 90 velas em um bolo já não é mais um parabéns, é um teste de capacidade pulmonar e um exercício aeróbico de alta intensidade.
Da minha mãe trago várias lembranças. Reunidos ali em Palmas, fiz questão de gravar alguns vídeos com ela contando histórias, ora engraçadas, ora difíceis. A idade vai nos dando um grande acervo de memórias e lembranças. Escrever sobre ela é, na verdade, tentar decifrar a mim mesmo. Seus hábitos, os ditados, frases engraçadas, a forma como ela lidou com os grandes desafios que teve de atravessar. Entre várias marcas de sua personalidade, quero registrar duas de suas características.
A primeira, é que ela nunca deixou de ensinar a importância e valor do trabalho. Todos aprendemos a fazer tudo em casa, de cozinhar, passar o pano e o vermelhão no piso da sala, lavar prato, varrer o quintal. Independentemente do sexo. Sua ética de trabalho era tão rígida, que mesmo estando de férias na chácara, onde também tínhamos que ajudar a plantar e a colher na época das férias, ela não nos deixava dormir até tarde. Abria a cortina, e nos colocava para fora da cama dizendo: “Não criei filho para ser preguiçoso!”
A segunda, era a ênfase na importância de estudar. Como o dinheiro era curto, ela costurava para sustentar a casa e dar condições para que fossemos para a escola. Meu pai não tinha salário e cuidava da chácara, e seria impossível ficar na cidade sem o dinheiro que ela recebia das costuras. Se os filhos eram desatentos e as notas não iam bem, ela nos colocava ao seu lado, e fizéssemos ali o dever de casa. Ela tinha uma grande régua de costura e ficar desatento com o estudo ou não prestar nas tarefas era fatal. Aquela régua servia para seu trabalho e para orientar nossa atenção...
Concluir a história de alguém que atravessou nove décadas não exige arroubos poéticos. A beleza dos 90 anos da minha mãe não está em uma idealização, mas na solidez prática dessas duas marcas que definem quem ela é. Ela não é um mito; é uma realidade viva, um ponto de referência que o tempo e as mudanças do mundo não conseguiram desgastar. Celebrar sua vida hoje é, acima de tudo, um exercício de reconhecimento. Minha mãe está aqui, inteira em sua própria essência, e a sua permanência silenciosa continua sendo o nosso chão mais firme.

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