Esta máxima presente em diversas tradições filosóficas, com cunho aparentemente tão ético e religioso, não foi escrita por um mestre da moral, mas é colocado na boca de Michael Corleone, no clássico “O Poderoso Chefão. Seu objetivo é demonstrar que a sobrevivência e o poder dependem da capacidade de manter a mente fria. Odiar alguém é permitir que a outra pessoa controle suas emoções e, consequentemente, suas decisões. O famoso gangster não a usa para ensinar moral. O raciocínio por trás da frase no contexto da máfia é puramente estratégico.
No estoicismo, mestres como Marco Aurélio e Sêneca, pregavam que a mente deve ser como uma fortaleza. Se você permite que o comportamento de seu inimigo altere o seu estado interior, você perde a sua liberdade. O ódio era uma perturbação que diminuía a razão. Sun Tzu (A Arte da Guerra) ensinava que um general nunca deve atacar por raiva. A raiva é uma causa comum de decisões militares desastrosas. O bom estrategista observa, calcula e age. Quando você odeia alguém, entrega a essa pessoa a chave do seu processo de pensamento.
Na visão pragmática, para superar o inimigo, você precisa entender como ele funciona — suas forças, fraquezas e padrões. Se você odeia, para de analisar o inimigo e passa a reagir a ele. O ódio é reativo; a estratégia é proativa. Quando você reage, você está sempre um passo atrás, jogando o jogo de quem você despreza. "Quem luta com monstros deve cuidar para não se tornar um". Quando você permite que o ódio dite o raciocínio, você começa a adotar os mesmos métodos, a mesma mesquinhez e a mesma visão de mundo de quem você considera seu inimigo. O "inimigo" deve ser visto como um problema técnico. É importante manter o cérebro frio.
Vemos então, que a frase “Não odeie seus inimigos, isto afeta seu raciocínio,” não necessariamente reflete um coração sensível e bom, mas pode ser um instrumento de guerra de pessoas implacáveis e frias como Dom Corleone para seu pragmatismo cruel.
Enquanto a literatura sugere evitar o ódio por estratégia, Jesus nos ensina a superar o ódio por transformação do coração, para não perder a alma. O ódio se transforma em prisão. O sábio evita o ódio não apenas por estratégia de guerra, mas porque o ódio é ineficiente — ele drena a paz e a inteligência emocional de quem o mantém.
Jesus sugere uma " terceira via" que é muito mais difícil que o desapego estratégico, mas muito mais poderoso: "Amai os vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem" (Mateus 5.44). Por que fazer isso? Não é por ingenuidade. Jesus sabia que o ódio tem uma característica parasitária: ele precisa que você pense no inimigo o tempo todo. Ao amar você se liberta da influência do seu inimigo. Você deixa de agir por reação (o que o inimigo espera) e passa a agir por convicção (o que você escolhe). Se Dom Corleone diz para não odiar para ser mais eficiente na crueldade, Jesus ensina não odiar para ser livre. Ao superar o ódio, você retoma o seu próprio governo e preserva a clareza para enxergar o que é eterno.
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