terça-feira, 1 de abril de 2008

História e a Fé cristã

O povo de Deus é um povo que tem memória. A Bíblia vai paulatinamente registrando os atos de Deus na história dos homens para que eles não se esqueçam da intervenção de Deus.
O Salmo 105 ensina que o povo de Israel deveria contar aos filhos os atos poderosos de Deus. Relembrar os eventos gerava fé e servia de testemunho às futuras gerações. O Shemá hebraico em Deuteronômio 6 conclamava o povo a contar aos filhos, de forma insistente e planejada sobre a exclusividade de Deus. “Ouve, Oh Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor”.
Vários textos do Novo Testamento nos ensinam a mesma verdade. João afirma que Jesus fez muitos outros milagres nos seus dias que não foram registrados, mas estes relatados tinham o propósito de manter a memória dos cristãos e gerar fé na igreja (Jo 20.30-31). No maravilhoso tratado sobre a Santa Ceia nos é informado que deveríamos lembrar das verdades que recebemos da parte de Cristo (1 Co 11 1 15.1-5).
A história, portanto, está profundamente interligada à fé. Aliás, fé nas Escrituras tem sempre uma relação com aquilo que Deus fez para o seu povo. Fé tem a ver com a história, com a lembrança e concordância dos eventos que entre nós se deram. Quando se trata do futuro, o termo mais apropriado é esperança. A fé cristã é histórica.
Esta verdade foi profundamente questionada pelo método histórico crítico de interpretação, encabeçado por Bulltmann, Harnarck e outros teólogos na virada do Século XIX. Para eles não interessava o evento, mas o significado. Pensadores reformados, defensores do Método Histórico Gramatical, intervieram reafirmando a convicção de que nossa fé é histórica. Interessa muito o evento. Porque, se Cristo não ressuscitou (fato), é vã a nossa fé a nossa pregação.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

A presença indispensável

Um dos relatos mais impressionantes da Bíblia está registrado em Êxodo 33.12-16. O povo de Deus havia murmurado contra Deus e contendido com Moisés, e então, Deus toma uma decisão “impensada”. Ele diz a Moisés que não vai mais andar com o povo, mas enviaria o seu anjo adiante dele, e isto seria suficiente para derrotar os inimigos que surgiriam no caminho. Diante desta situação, Moisés afirma que sem a presença de Deus ele não iria. “Se a tua presença não vai comigo, não nos facas subir deste lugar” (Ex 33.15).
O que Moisés afirma é extremamente importante para levarmos em conta para o próximo ano: “Sem Deus não dá!”.
Moisés tinha a garantia de vitória, mas a vitória não era suficiente. Ele precisava de Deus. Não bastavam as bênçãos, ele precisava da presença do Senhor. Ele argumenta com Deus: “Pois como se há de saber que achamos graça aos teus olhos, eu e teu povo? Não é porventura, em andares conosco, de maneira que somos separados, eu e o teu povo, de todos os povos da terra?” (Ex 33.16). Para Moisés, o diferencial de sua vida era a presença de Deus.
Muitas vezes nos preocupamos com as lutas que teremos diante de nós, os desafios, tribulações, acusações e instabilidades a enfrentar. Não deveríamos temer nada disto... O único temor nosso e a única questão a incomodar nossa alma deveria ser: “Deus está ou não está conosco?”.
Dá para se andar com pouco dinheiro, viver sem comprar roupas por um bom tempo, não viajar, não ter coisas luxuosas na mesa, nem comprar carros. O que não dá, e não dá mesmo, é andar sem a maravilhosa presença de Deus conosco. Por isto Moisés é tão enfático, e Deus queria ouvir isto de sua boca. E em resposta a este clamor de seu servo afirma: “A minha presença irá contigo, e eu te darei descanso” (Ex 33.15).
Sem Deus não dá...

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Igreja Presbiteriana: História e sistema

A Igreja Presbiteriana teve sua origem em João Calvino, que nasceu na Franca, em 1509, mas exerceu seu ministério na Suíça. Sua vida se deu na efervescência do movimento da Reforma Protestante, que era um protesto contra a decadência moral e teológica da Igreja Católica.

A ênfase de sua doutrina foi, acima de tudo, na soberania de Deus.
No Brasil, A Igreja Presbiteriana fincou suas bases com a vinda do missionário Ashbel Green Simonton, em 12 de Agosto de 1859. Outras tentativas foram feitas muito tempo antes com Jacques Le Baleur, em 1560, que foi preso em S. Vicente, deportado para a Bahia, onde ficou encarcerado por 4 anos, e, afinal, quando veio para o Rio de Janeiro, foi enforcado por ordem de Mem de Sá, e tendo como carrasco o padre José de Anchieta.

O nome “presbiteriano” vem do fato de ser uma igreja governada por “presbíteros”, que reunidos em Conselho governam a igreja. Um presbítero sozinho pode ser um mestre, pregador, educador, mas não pode governar sozinho. O sistema presbiteriano implica no conceito de Concílios.

O princípio básico é que alguns governam todos. A igreja, reunida em Assembléia, elege, por voto secreto, os seus líderes. Se o presbítero, no decorrer do mandato, se tornar prejudicial à igreja, esta poderá fazer cessar o seu mandato, já que a igreja é soberana. Toda eleição e decisões maiores devem ser tomadas com a maioria absoluta dos membros civilmente capazes.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Essa questão me atormenta‏

Recebi nesta semana a seguinte questão de um amigo: “Rev. Samuel, numa discussão, fiquei sem resposta para a seguinte afirmação: Se Deus nos fez a sua imagem e semelhança, em que momento apareceu tantos defeitos? A tendência ao pecado é um defeito de fabricação? Preciso resolver isso”.
Aqui segue minha tentativa de resposta: A Bíblia diz que "Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias" (Ec 7.29). Isto mostra que Deus não fez o homem com defeito de fabricação. Ele o fez perfeito. O único "erro" de Deus foi fazê-lo com livre arbítrio, isto é, com capacidade de escolher entre o bem e o mal, entre o certo e o errado.
Ao colocar o homem no Éden, ele tinha a opção da obediência (vida), e rebelião (morte). Ele optou pela morte ao aceitar a sugestão da serpente que lhe disse que ele não morreria. Que o pecado não traria conseqüências morais, nem juízo. Que Deus não estava bem intencionado com ele, mas sustentava o seu governo com base na tirania moral e que temia que tivesse competidores, ou pessoas semelhantes a ele. O homem achou que a argumentação de satanás fazia sentido, e até hoje estas questões existenciais ainda se tornam a raiz da tentação para a humanidade.
Por que então Deus fez o homem livre? Não seria melhor se fizesse o homem “isento” e “blindado” do mal? Sem capacidade para escolhas erradas? Por que dar liberdade ao homem?
Deus fez isto para que ele pudesse se relacionar com o ser humano num nível espiritual. Animais não têm capacidade de quebrar o ciclo e fazer escolhas diferenciadas. Agem por instintos, não por escolhas morais. Não erram, mas também não possuem relações afetivas com o seu criador. O fato de Deus ter criado o homem à sua imagem e semelhança significa que somos capazes de responder com nossa mente, vontade e emoções ao criador, àquele que nos fez, de forma positiva ou negativa. Se Ele nos fizesse autômatos ou robôs, isto implicaria na impossibilidade existencial de termos um relacionamento baseado na escolha e no amor. Deus sabia do risco, nada disto o pegou de surpresa, mas o fez para que isto nos autenticasse enquanto ser. Por isto o homem é o único que sofre angústias e ansiedades, mas é o único ser capaz de ter relação. Ao fazer isto ele estava querendo que nosso relacionamento com ele fosse um critério de nosso coração, não mero automatismo. Espero ter ajudado...
Abraços
Samuel Vieira

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Não há Deus!

Julio A. Ferreira, renomado conferencista presbiteriano afirmou que a Bíblia é a mãe das heresias. Sua afirmação causou espanto e ele a justificou da seguinte forma: “Pessoas mal intencionadas com uma atitude tendenciosa podem isolar textos bíblicos e fazer as mais esdrúxulas declarações”. Por exemplo, se lermos apenas a primeira afirmação do Sl 14.1 isolando-a do seu contexto, veremos a seguinte afirmação: “Não há Deus”. Embora a frase completa seja: “Diz o insensato no seu coração: Não há Deus. Corrompem-se e praticam abominação”.
Quem diz que não há Deus? O insensato. Este termo na verdade é um eufemismo para a tradução mais crua do termo Nabal (no hebraico), que significa uma pessoa com alterações no seu juízo epistemológico e racional. Só o louco pode dizer em seu coração que não há Deus.Não há Deus! Por que os homens querem tanto provar que Deus não existe? A Bíblia não tenta justificar a existência de Deus, antes começa sua narrativa com o fato da existência de Deus. “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Não há preocupação ou tentativa de se propor a existência de Deus, de dar argumentos ontológicos, filosóficos ou teológicos sobre a existência de Deus. Deus não precisa ser provado, sua ausência é que desafia muitas pessoas a tentarem provar que Ele não existe.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Ame sua cidade!

Estamos no ano do centenário de Anápolis, e começamos este ano com uma baixa auto estima. Nada pode ser mais desastroso na vida que uma instituição que se sente por baixo, que perde seu orgulho pessoal.

Cidade tem ciclos, assim como a vida. Nem sempre se ganha! Muitas vezes é necessário atravessar períodos conturbados para que ajustes sejam feitos, o trigo seja separado do joio, as identidades se tornem conhecidas. A peneira do tempo exerce juízo de valor. Quem hoje se sente rei, amanhã pode ser vilão, e vice-versa.

Analisamos aspectos diversos como o desafio da cidade e do fenômeno da urbanização, com suas características de mobilidade, anonimato, diversidade, alienação, pobreza e cidadania. Refletimos sobre os ensinamentos bíblicos e o desafio da justiça social, com seus desdobramentos quanto ao cuidado com o emprego, desenvolvimento e participação solidária. Estudamos ainda o desafio da intercessão, isto é, a necessidade da igreja orar pela sua cidade e pelos que a dirigem.
Chegamos à conclusão de que existe um silêncio da igreja sobre a questão urbana. Pensamos pouco sobre a cidade e nosso envolvimento com a mesma, apesar de nosso mundo ser um mundo urbano e a Bíblia também ser um livro urbano: Os grandes personagens das Escrituras viveram num contexto urbano, alguns em grandes cidades. O ministério de Jesus foi realizado nas cidades, e o livro que registra os atos dos apóstolos demonstra que a ênfase dos discípulos era focalizada nas cidades.
Na medida em que refletíamos sociológica e teologicamente sobre a cidade, ficamos impressionados com o cuidado e zelo que Deus tem por ela e os inúmeros textos que ensinam os cristãos a terem uma relação positiva com a cidade, até mesmo com aquelas que aparentemente não deveriam ser amadas como Nínive, que pertencia aos babilônios (Jr 29.4-7).
Algumas aplicações práticas puderam ser analisadas:
Precisamos cuidar de nossa cidade – Isto envolve participação solidária. Tem a ver com a forma que lidamos com o lixo da nossa casa, segurança de nosso bairro, até plantação de árvores e jardins. Uma cidade torna-se bonita na medida em que seus cidadãos resolvem fazê-la bonita. Apesar de ser responsabilidade da administração local zelar pela sua aparência, limpeza e em tapar os buracos que nela existem, não podemos deixar de cuidar bem de nossos lotes, jogar lixo na rua e latas de refrigerantes nas ruas. Vendo tantas pessoas jogando lixo de dentro de seus carros, sem a menor discrição, chego a perder a esperança de que ainda existam pessoas civilizadas. Como alguém pode deliberadamente emporcalhar as ruas da sua cidade jogando papel de balinhas, jornais velhos e escombros de reforma na rua?
Precisamos prestigiar nosso comércio local – Teoricamente, um comércio próspero gera mais emprego, qualificação profissional, movimentação financeira e impostos, que redundam em benefício do município e de seus habitantes em geral. Quando compramos fora, não por necessidade mas por mero esnobismo, enfraquecemos o esforço de nossos comerciantes locais e a competitividade que torna-se produtiva para nossa cidade.
Precisamos orar pela nossa cidade – Muitas vezes a Bíblia nos exorta a fazer isto. Orar pelos políticos, pela liderança, pelos soldados, pelos encarcerados, pelos hospitalizados, pelos jovens, pela educação, pela saúde financeira de nosso povo, por empregos, e assim por diante.

Em linhas gerais, estes são alguns aspectos que nos ajudam a amar a nossa cidade. Parabéns Anápolis!

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

“Não matarás”- Sexto Mandamento:

Este mandamento aprecia a vida e a coloca na correta perspectiva. Nele aprendemos a sacralidade da existência, reconhecemos que a vida é um dom de Deus. Não pode ser banalizada, manipulada, nem explorada como um objeto comercial. Não se pode desconsiderar seu precioso valor.
O verbo “viver” em inglês é “to live”. Se invertermos este termo “live”, teremos outra palavra sugestiva: “evil” (mal). Assim como na língua inglesa precisamos considerar que o mal é oposto à vida. Matar é desprezar o valor e significado da existência e desconsiderar que Deus é o Senhor da vida. Onde encontramos pessoas e estruturas que desvalorizam a vida, teremos ali a expressão do mal, seja qual for a explicação que se dê a esta atitude, ela será sempre maligna. O bem exalta a vida. Deus valoriza a vida!
Por isto não temos o direito de tirar a vida do outro, uma vez que a vida é doação divina. Apenas Deus, que a dá, pode tirá-la, no seu tempo, da sua forma, dentro de seus propósitos. Dar e tirar a vida são prerrogativas divinas.
Nossa sociedade tende a relativizar o valor da vida e a banalizá-la. Acostumamos facilmente com a morte, nos tornamos apáticos. Apatia (a-pathos) é uma fuga do sentir. Ela opera como o instinto da morte de Freud. Assim é que estatísticas como o assassinato de 50 mil pessoas anualmente no Brasil não nos assusta mais. Isto demonstra quão pouco a vida é valorizada em nosso país. Centenas de pessoas morrem de igual forma de fome, guerras vazias, prepotência de ditadores em outras partes do mundo. Não seria esta uma forma de co-participação no projeto da anti-vida? Não seria isto uma forma de matar?
Este mandamento também lida com a trágica situação do infanticídio que acontece nas clínicas de abortos clandestinas cujos números chegam aos milhares. Certa mulher para justificar o aborto afirmou que por ser dona do seu corpo podia fazer o que bem entendesse com ele. Este princípio de fato é real, ela pode amputar uma de suas pernas, se assim desejar, ou arrancar um órgão de seu corpo, mas a criança, que está no seu útero, é outro ser dentro do seu corpo. Portanto, a prática do aborto é também uma quebra do sexto mandamento.
Jesus dá uma dimensão ainda mais profunda a este mandamento, ensinando que o ódio nutrido e expressões de desprezo, desconsideração e descaso dentro de nossos corações são formas subjetivas de matar o irmão, e quem faz isto incorre no julgamento de Deus (Mt 5.21-26). Matamos com nossa indiferença, apatia, ira e maledicência.
Matamos também idosos e deficientes, quando encontramos neles um valor meramente utilitarista. Nossa sociedade focalizada apenas no sucesso, lucro e conquista tende a destruir aqueles que não são mais úteis.
Este texto nos alerta a não conspirarmos contra qualquer irmão, nem contra nossa própria vida. Alerta-nos também contra o suicídio. Uma vez que você não é o autor da vida, não pode dispor dela para a auto-destruição. A vida é um dom!
Uma visão positiva da vida pode alterar nossa visão de universo e de valor próprio, afinal, ideologias são antropologias. É isto que este mandamento pede de nós. Que valorizemos o ser humano uma vez que ele foi criado à imagem e semelhança de Deus.