terça-feira, 22 de agosto de 2023

A difícil tarefa de se aposentar no Brasil

 



Recentemente o Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) validou a nova regra de cálculo das pensões por morte de segurados do Regimento Próprio de Previdência Social (RGPS) antes da aposentadoria. Por maioria, o colegiado declarou constitucional a regra da reforma da Previdência de 2019 que fixou os novos critérios para a concessão do benefício. Agora quem ficar viúvo terá direito a receber 50% do benefício do segurado que morreu ou da aposentadoria por invalidez.


Na verdade, o STF não criou a Lei, já que não é a função da suprema corte criar as leis, Esta prerrogativa é do Congresso Nacional. A Lei foi criada na reforma da previdência em 2019. 


O fundamento do relator da ação, ministro Roberto Barroso, entretanto, me pareceu frágil demais. Ele decidiu a partir dos dados sociais como o aumento da expectativa de vida e a diminuição da natalidade, o que geraria um comprometimento no equilíbrio da Previdência Social, que já é deficitária. O mau planejamento do INSS tornou-se um problema que os associados ficaram responsável em pagar.


O que o STF não entendeu é que os aposentados pagaram para ter esta aposentadoria. O Governo Brasileiro não está fazendo favor aos segurados ao pagar o INSS aos aposentados, mas apenas praticando a justiça, não se trata de um ato de generosidade, mas de equidade. Imagine a vida de uma pessoa, cuja família recebia o INSS e terá que reduzir seu orçamento pela metade...


Para Barroso, as pensões por morte não visam à manutenção do padrão de vida do segurado falecido nem têm natureza de herança. Não é herança sr. Ministro, é conquista de quem pagou. Ao fazer tal afirmação, parece que o Estado é um Papai Noel generoso e liberal. Isto não é verdade: O INSS é um instituto de seguridade. As pessoas pagam (obrigatoriamente), para ter um benefício, que não saiu dos fundos do governo, mas do bolso dos trabalhadores. Talvez um escalonamento e proporcionalidade fossem mais justos.


Se você paga INSS hoje e pensa se aposentar apenas com ele, cabe o alerta: INSS deve ser aposentadoria complementar, não a principal. Portanto, trate de repensar imediatamente sua aposentadoria e começar a investir em um fundo privado de aposentadoria. Minha sogra perdeu seu marido a 13 anos atrás. Ele pagava sobre o teto, e se aposentou com o equivalente a 7 salários-mínimos. Atualmente ela recebe 1.700 reais. 


Rosa Weber foi mais sensível ao tema e votou contrário ao relator: “A manutenção da forma de cálculo não permite, senão inviabiliza, a reorganização familiar e financeira após o falecimento, ampliando a vulnerabilidade social”.


Está se tornando cada vez mais difícil se aposentar no Brasil...

Caos

 


Eugene Peterson relata que após uma palestra dada a um grupo de estudantes em Vancouver, ele foi indagado sobre qual seria a coisa mais importante da vida e respondeu sem nunca ter refletido sobre esta pergunta: “Caos.”


Depois da resposta, ele começou a explicar a razão: Quando a vida está sem sobressaltos, corremos o risco de nos tornarmos pessoas acomodadas e sem grandes sonhos, o caos gera um susto, desalinha, nos faz ficar inseguros e nos obriga a sermos criativos e encontrar novos caminhos e estratégias que jamais usaríamos numa situação de conforto e tranquilidade. O caos, a desordem, o evento inesperado, pode nos colocar em outro patamar e nos levar a lugares mais altos e estradas nunca percorridas. 



Nem todo caos é ruim. Grandes descobertas cientificas se deram em meio a grandes crises. A enigmática, dolorida e inesperada pandemia do Covid-19, colocou muitas empresas em outro nível de pesquisa e proposta, obrigando empresários e acadêmicos a buscarem novas soluções. Muitas pesquisas feitas neste pandemônio se tornarão o ponto de partida para estudos mais avançados. Com a guerra atual entre a Criméia e a Rússia, parece que o país invasor avaliou mal as consequências. Toda Europa depende de suas fontes energéticas, mas com a insegurança gerada pelo conflito, pesquisas e avanços surpreendentes têm sido feitos em pouco tempo e a Rússia perderá boa parte de seus recursos, com a queda da exportação, porque os países da região encontrarão novas fontes energéticas. 


Certo homem estava desesperado porque sua esposa havia pedido o divórcio, e para complicar, na surdina havia entrado na justiça com uma ação contra ele e todos seus bens foram arrestados. Foi um choque. Sua vida e economia aparentemente ajustadas estavam agora no limbo. Ele estava tenso e irado, tanto pela perda financeira quanto pela sensação de ter sido traído. Apesar do relacionamento deles estar em crise nos últimos anos ele nunca imaginou que ela seria capaz de tomar uma decisão tão surpreendente e drástica. Sendo seu amigo lhe assegurei que ele ainda viria a rir daquela situação, e foi exatamente o que aconteceu. O divórcio aconteceu, a situação financeira se reorganizou e ele se ajustou novamente. Ele não ficou em torno da sua dor, tirou forças de onde não tinha e o caos assumiu outra direção, trazendo novas oportunidades.


A Teoria do Caos, afirma que há um padrão de organização dentro de um fenômeno desorganizado, de aparente casualidade. Existe “ordem no caos.” A aparente desordem é necessária para que a vida caminhe em direções mais produtivas e criativas. 

Então, ao enfrentar situações surpreendentes e aparentemente insolúveis, reflita sobre as possibilidades ainda não percebidas, que o caos pode trazer. Isto gera esperança e expectativa. A Bíblia diz que “Abraão, creu contra a esperança”, e foi surpreendido pelo anúncio de que ainda teria um filho com Sara. O impossível é sempre possível quando se tem um Deus capaz de dar ordem ao caos.

Perda dos referenciais

 


Recentemente a colunista Natalia Timerman afirmou que suas referências estavam morrendo, e que por causa disto ela sofria um senso de orfandade. Ela se referia de forma mais explícita à morte de Rita Lee e Milan Kundera, escritor Theco que influenciou o mundo com romances como “a insustentável leveza do Ser” e “Risíveis amores” entre outros. Para ela, isto se constituía numa espécie de desamparo, e de que tais pessoas são, de certa forma, insubstituíveis, já que com a internet, a inteligência artificial e a relação contemporânea com o tempo estão transformando o conhecimento, a forma de aprender e apreender a vida e que não somos e não seremos tão capazes quanto os que vieram antes. 


Tento entender um pouco da frustração e receio da autora, mas minha crise sobre a perda de referenciais vai numa outra direção, ainda que seja simpática à sua dor. Tenho pensado muito na perda dos referenciais sociais, culturais, morais e espirituais. Jordan Peterson, no seu espetacular livro “12 Regras para a Vida”, afirma que o mundo apresenta a cada pessoa a dualidade do caos e da ordem. O caos é o domínio da ignorância, do inexplorado. A ordem, por sua vez, é como um território explorado, é a hierarquia, a organização, o ambiente de domínio no qual se sabe e se entende. A ordem é pacífica, segura e produtiva.



Quando retiramos os fundamentos, perdemos a noção de quem somos e nos aventuramos no campo do desconhecido, do risco. A perda da referência pode ser fatal, ainda que seja o caminho da criatividade. Mas o que estamos vendo é que as pessoas estão enfatizando tanto a necessidade de liberdade, de experiência, do senso de que não temos pais e mães para nos controlar e fiscalizar, que adentramos um campo sombrio da depressão, do caos e da ausência de sentido.


Timerman ainda fará uma analogia destes últimos anos da era pós-moderna como aquela situação em que você está no ensino médio e os seus pais vão viajar e você dá uma festa. “Por um tempo aquilo é genial, é livre e libertador, a autoridade parental se foi, está derrubada, um festim dionisíaco do tipo o-gato-foi-embora-vamos-brincar. Mas aí o tempo passa, e a festa vai ficando cada vez mais ruidosa, e as drogas acabam, e ninguém mais tem dinheiro para comprar drogas, e coisas foram quebradas e derramadas, e tem uma queimadura de cigarro no sofá, e você é o anfitrião, e aquela casa também é sua, e você gradualmente começa a desejar que os seus pais voltem e restaurem um pouco de ordem.” 


Quando penso na perda de referência, estou olhando não para pessoas, mas para valores, princípios, cosmovisão, que organiza nosso universo e aponta a direção daquilo que somos e para onde devemos caminhar, Conta-se que Nietzsche, que defendeu a conhecida tese da morte de Deus e do Eterno Retorno, aos 16 anos chorava no porão de sua casa, e seu pai se aproximou e lhe perguntou a razão do desespero e da dor, e ele respondeu: “Descobri que Deus não existe e agora não há esperança.”


Me assusta perceber a perda da referência do Sagrado, a ausência de sentido, a superficialidade das relações nesta nova geração. Falta algo que “empreste” sentido e isto é pavoroso. A perda dos referenciais é fatal do ponto de vista psicológico, e mais destrutivo ainda na perspectiva existencial. Perder a Deus é perder-se. “que adianta ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma.” Foi isto que Jesus disse numa de suas conhecidas parábolas.

domingo, 11 de junho de 2023

Verdade e Narrativa

  



 


 

Recentemente, o mundo ficou surpreso e chocado com o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No encerramento da Cúpula dos Presidentes da América do Sul, realizada no último dia 30 de maio em Brasília, Lula afirmou que uma narrativa colocou o ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez como um “demônio” e que o mesmo teria acontecido com ele durante a Operação Lava Jato. Na opinião de Lula, ambos teriam sido injustamente condenados.

 

Ao falar de “narrativa”, o que Lula quis dizer? Ora, que tudo o que aconteceu na Venezuela nos últimos dez anos - a grave crise econômica que reduziu o PIB do País em mais de 75%, gerou hiperinflação e provocou a migração massiva de venezuelanos, teria sido apenas uma forma de denegrir o País.

 

Na visão do presidente brasileiro, tudo o que se tem dito nada mais é que uma ficção bem articulada de grupos de direita para demonizar a esquerda. Ele reiterou que o mesmo ocorreu com ele. Uma “fábula” teria sido construída em torno de sua biografia para culpá-lo de algo que ele não fez. Assim, mensalão e petrolão jamais teriam existido. Tudo não passaria de mera ficção, de acordo com Luiz Inácio Lula da Silva.

 

Bem, anteriormente ele já havia se comparado com Jesus Cristo. Em setembro de 2016 Lula falou que, em quesito de honestidade, teria uma história pública conhecida. "Acho que só ganha de mim, aqui no Brasil, Jesus Cristo. Só", disse ele. Em sua visão, tanto Jesus quanto ele, Lula, teriam sido injustamente condenados.

 

Qual é o perigo de confundir verdade com “narrativa?”  Há uma célebre frase do ministro da propaganda na Alemanha nazista - Joseph Goebbels - que nos ajuda a entender os motivos: "Uma mentira dita mil vezes torna-se verdade". Minimizar a verdade, suprimir a verdade, esconder a verdade são estratégias políticas e religiosas malignas utilizadas no decorrer da história para manipular os fatos.

 

As afirmações recentes de Luiz Inácio surgem em um contexto pluralista e relativista que defende não existir verdade. Assim, a verdade deixa de ser o que é, como na definição socrática, e se torna o que dizemos ser ou mesmo o que desejamos que ela seja. Essa é a visão hegeliana, que sustenta a relativização de todas as coisas, para a qual não há absolutos e tudo depende do ponto de vista.

 

A questão, portanto, é mais que política. É filosófica e religiosa. Verdade é algo palpável, real, que pode ser averiguado.  Verdade não é o que achamos ou afirmamos ser. Verdade é o que é. Nada pode ser mais demoníaco que relativizar a verdade. Jesus afirma que Ele é a verdade e que “o diabo é o pai da mentira”. Para ele, a verdade é objetiva, pode ser analisada, desmentida, denunciada. Para Jesus a verdade não é subjetiva, pois não depende do que queremos que ela seja.

 

Narrativa é a interpretação tendenciosa e maligna que os homens fazem dos fatos. Verdade é o que de fato aconteceu. Não se trata de uma interpretação, nem de uma distorção. Este é um dos grandes desafios filosóficos que temos em épocas de subjetivismo e relativismo tão pulsantes. 

sexta-feira, 2 de junho de 2023

Sentido e propósito

 


 

Numa recente entrevista a empresários árabes, Ellon Musk afirmou que muito breve teremos o grande desafio social do desemprego em grande massa, porque precisaremos cada vez menos de mão de obra direta e as máquinas farão melhor e com mais eficiência as tarefas manuais nas áreas industriais, pesquisas, agronegócios. Haverá abundância de produção através de tecnologia e pesquisa e os alimentos poderão ser produzidos bem mais baratos.

 

Ele acredita ainda que será necessário encontrar uma política que ele chama de “basic income” (salário básico), para que as pessoas desempregadas recebam salários já que não haverá emprego para todos, mas ainda assim haverá aumento de produção de riquezas e bens com a automação. As máquinas poderão fazer quase tudo.

 

Musk, entretanto afirmou, que o desafio maior não será o da sobrevivência, mas de sentido: Para muitos o valor pessoal deriva do emprego e daquilo que fazem. Se não houver emprego, de onde virá o sentido? As pessoas poderão perder o significado de viver. Este é o grande desafio!

 

Talvez esta hipótese levantada por Musk ainda demore, ou se trate apenas de uma utopia, entretanto, pode ser que estejamos mais perto desta realidade que imaginamos. Então, é urgente e necessário refletir sobre sentido e propósito.

 

Tyler Durden, controvertido personagem do “Clube da Luta”, afirma em um de seus diálogos: “Somos uma geração sem peso na história. Sem propósito ou lugar. Nós não temos uma Guerra Mundial. Nós não temos uma Grande Depressão. Nossa guerra é espiritual. Nossa depressão, são nossas vidas. Fomos criados através da TV para acreditar que um dia seriamos milionários, estrelas do cinema ou astros do rock. Mas não somos.”

 

Não estou muito certo do que ele quis dizer com “nossa guerra é espiritual.” Mas eu acredito que é exatamente este o ponto central da vida. Se preferir pode chamar também de guerra existencial. Qual é o ponto central da vida? Para que nascemos e existimos? Para onde estamos indo? O que é realmente importante?   Falta-nos propósito e identidade que só pode ser encontrado quando existe uma referência, como afirmou Sartre: “Nenhum ponto finito faz sentido sem um ponto infinito.”

 

Para Sartre, filósofo, o ponto de partida é a consciência, o ponto fixo que Arquimedes procurava. Entretanto, sinto-me seguro ao afirmar que se trata de um sentido eterno, que eu chamo de Deus. Como afirmou Agostinho: “Fomos criados para Deus, e nosso coração nunca encontrará sentido fora de Deus.” Precisamos sim, de sentido e propósito, mas este sentido não se encontra em nós mesmos, ele é transcendental, e nos aponta para o ponto infinito, para o Eterno.

O óbvio nem sempre é óbvio



 

Clarice Lispector afirmou que “O óbvio é a verdade mais difícil de se enxergar.” A ideia do óbvio é que a verdade é tão clara que nos saltam à vista e que todos são capazes de percebê-la nítida e distintamente, sem variações ou sombras de luzes, clara como o sol.

 

O grande problema é que as coisas nem sempre são tão claras para todos e o óbvio não é tão óbvio assim. Jesus afirmou que suas parábolas tão óbvias não eram tão claras a um determinado segmento: “É por isso que uso parábolas: eles olham, mas não veem; escutam, mas não ouvem nem entendem. “Cumpre-se, desse modo, a profecia de Isaías que diz: Quando ouvirem o que digo, não entenderão. Quando virem o que faço, não compreenderão. Pois o coração deste povo está endurecido; ouvem com dificuldade e têm os olhos fechados, de modo que seus olhos não veem, e seus ouvidos não ouvem, e seu coração não entende, e não se voltam para mim, nem permitem que eu os cure. Felizes, porém, são seus olhos, pois eles veem; e seus ouvidos, pois eles ouvem.” (Mt 13.13-16 NVT)

 

O que Jesus afirma é: “Não se esqueça do óbvio, embora o óbvio nem sempre seja óbvio.” O que para alguns é claro, nem sempre é para o outro. Muitas vezes não percebemos a miragem nos enganando, até vermos tudo dar errado.

 

O próprio Deus, Todo-Poderoso, não é óbvio, pelo menos para muitos. Podemos perceber isto na declaração de Jesus de que muitos ouviriam sua mensagem e não entenderiam. Tinham ouvidos para ouvir e não ouviam, tinham olhos para ver e não viam. O óbvio não era óbvio assim.

 

Alguns relatos bíblicos mostram-nos quão inusitado era a forma de Deus agir. Eliseu manda Naamã, comandante sírio, mergulhar sete vezes no Jordao. Ele fica indignado. Deus o mandou banhar num rio sujo para que reconhecesse sua arrogância. Antes de Lázaro morrer, Jesus recebeu a notícia de sua enfermidade, mas ao invés de sair depressa e curá-lo, esperou quatro dias, para ir ao encontro da família e ressuscitá-lo. Deus subverte a ordem. Despreza a obviedade.  

 

No Magnificat, belíssimo cântico de Maria depois de receber a notícia dada pelo anjo de que ficaria grávida do Espírito Santo (isto também não é nada óbvio), ela afirma: “(Deus) Derrubou governantes dos seus tronos, mas exaltou os humildes. Encheu de coisas boas os famintos, mas despediu de mãos vazias os ricos.” Isto é subversivo! Uma verdadeira desconstrução.

 

O óbvio é reconfortante. Dá uma sensação de ordem, controle e poder e traz alívio e satisfação, simplesmente porque nos fornece uma resposta às nossas dúvidas. Mas muitas vezes o óbvio começou a ser questionado para dar espaço à verdade. Por dois milênios as pessoas acreditaram que a terra era o centro do universo. Defenderam isso de forma filosófica, científica e até religiosa. Mas o óbvio não era verdadeiro.

 

Nestes dias de grandes manipulações jurídicas e chicanas forenses tão explícitas no cenário político, nunca ficou tão claro, como o óbvio pode ser deturpado por interesses e jogo de poder. A recusa pela verdade e o interesse pelas narrativas se tornaram armas de controle e manipulação. O óbvio está presente, mas ele nem sempre é óbvio.

 

 

 

Nunca desperdice uma boa crise

 



 

A frase “nunca desperdice uma boa crise” é atribuída a Winston Churchill, ex-primeiro-ministro do Reino Unido. O economista, Ricardo Amorim, gosava de usá-la para demonstrar que a crise nada mais é do que uma “oportunidade de consertar algo que precisa ser consertado”.

 

A vida é cheia de surpresas, de altos e baixos. não existe uma situação na qual você possa viver sem sobressaltos. As surpresas virão, algumas positivas outras negativas. A vida é feita de solavancos e repleta de situações inusitadas. Todos invariavelmente precisam enfrentar tais circunstâncias. Nunca desperdice uma boa crise, ela sempre poderá nos ensinar muito se dela precisarmos.

 

Quando uma crise surgir, tente olhar por detrás das linhas picotadas e das rasuras: o que posso aprender neste momento? Algumas das boas descobertas de grandes homens se deram no meio da perda. A humanidade sempre avançou diante dos desafios históricos que enfrentou. Tempos de bonança nem sempre geram grandes insights, afinal “carro apertado é que canta.”

 

É conhecida a frase de C. S. Lewis: “Não desperdice suas lágrimas.” Em outras palavras, não chore por chorar. Curiosamente quando Jesus lida com sua grande provação, antes de ser levado para ser crucificado, tomou o pão e o vinho e agradeceu. Como é possível agradecer a Deus diante daquilo que representa seu sofrimento? O ponto central é que para Jesus o sofrimento não era mero sofrimento. Ele tinha um propósito, um sentido. As coisas não acontecem por acaso, elas possuem significados. Existem coisas que só conseguimos ver no meio da tempestade, com os olhos marejados de lágrimas. Os dias de calmaria não são capazes de aprofundar nossa compreensão de nós mesmos e do mundo. A dor nos torna humanos.

 

Provavelmente a crise do coronavírus tenha sido uma das mais desafiadoras dos últimos anos. O mundo foi colocado de cabeça para baixo. A forma de fazer as coisas teve que ser reinventada. Crises têm o efeito natural de sacudir as pessoas e organizações de sua complacência, criando oportunidades para desafiar a sabedoria convencional e dar aos líderes espaço para mudanças transformadoras em seu campo. Muitos souberam aproveitar este momento, aprender grandes lições e recriar com muita imaginação, aproveitaram o caos e cresceram no meio dele. Ao invés de ficarem chorando pelas perdas, souberam tirar proveito dela. Não desperdiçaram a crise. 

 

Crise é a junção de duas palavras em chinês: Oportunidade e risco. Ela nos ajuda a repensar o modelo das nossas organizações e alinhá-lo à nova realidade. Crise também nos ajuda a realinhar prioridades pessoais, considerar valores realmente significativos e redirecioná-los a uma nova etapa e um novo momento de nossa vida. A crise pode surgir de uma falência, de um relacionamento quebrado, de doença ou luto na família, de uma enfermidade pessoal. Ao invés de nos vitimizarmos, e sermos consumidos pela raiva e tristeza, precisamos lutar contra a depressão, a angústia e o medo e nos perguntarmos: Como esta crise pode me tornar mais humano, e me ajudar a realmente reter aquilo que de fato interessa. Não desperdice, portanto, uma crise.