Uma das boas heranças que a igreja Católica nos legou foi a da obra expiatória de Cristo. Repetidas vezes durante a liturgia era necessário afirmar: "Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, tende piedade de nós". Esta frase traduz a essência da Páscoa!
A Páscoa, contudo, como todas as mensagens cristãs, tem perdido seu significado. O comércio voraz, faminto de dinheiro, trocou o cordeiro pelo coelho. Aliás, um coelho muito versátil, quase milagroso, que põe ovos de chocolate de todos os tamanhos e para todos os gostos. Para o consumismo insaciável, a essência da páscoa não tem a menor importância. O que importa é vender, vender muito, ainda que na mente das pessoas a verdade seja sacrificada, e o cordeiro fique esquecido. Para uma sociedade materialista, secularizada e consumista cujo deus é o ventre, o importante é empanturrar o estômago de chocolate, ainda que se sacrifique no altar do comércio esfaimado, a essência da verdade.
Páscoa significa originalmente “passagem”, vem do hebraico pesah, e é associada com o verbo pasah, que significa “saltar” ou “passar por cima”. Foi usada originalmente para expressar o fatídico dia em que o povo de Deus estava saindo do Egito e o anjo da morte "passou" sobre o povo judeu, sem que nenhum mal pudesse atingir aqueles lares que foram marcados pelo sangue do cordeiro que estava pintado nos umbrais das portas. Esta é uma história central do Antigo Testamento. Naquela noite o povo de Deus foi salvo da tragédia da morte dos primogênitos, porque um cordeiro tinha sido sacrificado e o seu sangue havia sido aplicado sobre as vergas das portas. Esta é a história épica da libertação do povo de Deus do cativeiro, com mão forte e poderosa. (Livro de Êxodo, cap 12).
No Novo Testamento, aprendemos que Jesus é o cordeiro pascal, O cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Foi ele quem foi imolado na cruz por nós. Ele sofreu o castigo que nos traz a paz. Deus lançou sobre Ele a iniqüidade de todos nós. Ele, como ovelha muda, foi para o matadouro, carregando os nossos pecados. Ele se fez maldição por nós. Ele morreu derramando seu sangue, adquirindo para nós eterna redenção. Esta é a história da nossa libertação. Não podemos deixar que ela seja distorcida e diluída em chocolate. Não podemos permitir que o maior de todos os sacrifícios, vivido na hora mais amarga do Filho de Deus, bebendo sozinho o cálice da ira divina, seja reduzido a um festival de gastronomia.
Coelho ou cordeiro?
O coelho é um intruso que nada tem a ver com a festa da páscoa. Esta festa é a festa do cordeiro, do Cordeiro de Deus. Ele sim, deve ser o centro, o conteúdo, a atração e a razão de ser desta festividade. Que a nossa família possa estar reunida não em torno do ovo de chocolate, mas em torno de Jesus, o Cordeiro que foi morto, mas vive pelos séculos dos séculos, tendo a certeza que estamos debaixo do abrigo de seu sangue.
Não é crime compartilhar fraternalmente um ovo de Páscoa. Mas é grave esquecer que Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.
quarta-feira, 23 de março de 2005
quarta-feira, 16 de março de 2005
Espelho, espelho meu...
Assisti atenciosamente o quadro de televisão que tem o nome acima. A idéia é curiosa: A direção do programa recebe várias cartas de pessoas aflitas que desejam uma transformação na sua imagem e que não gostam de si mesmas. A equipe vai atrás de profissionais de primeira linha para dar uma "guaribada" em uma destas pessoas que eles escolhem, e ela passa por uma série de tratamentos incluindo cirurgias plásticas, cuidado com a pele, checagem nos dentes e corte de cabelo. A pessoa é restaurada na perspectiva estética e os profissionais tentam fazer o melhor possível para que ela seja transformada. O trabalho em geral, fica muito bom. Os responsáveis pela metamorfose fazem um excelente trabalho.
A maioria das pessoas tem problema com a auto-imagem. Os mais gordinhos gostariam de emagrecer um pouco, os magros se sentem inadequados e gostariam de ser mais cheinhos, os altos acham exagerado o tamanho, os baixinhos gostariam de ter um centímetro a mais. Todos nós temos uma certa insatisfação com nosso espelho. Quando olhamos as fotografias, narcisistas como somos, procuramos nossa imagem para nos enamorarmos um pouco de nós mesmos, mas sempre culpamos a fotografia por ela mostrar o que vemos. "Esta foto não saiu muito boa". Ao dizermos isto, estamos reconhecendo que temos uma imagem mental que não concorda com a imagem real.
O grave problema do espelho é que temos imagens construídas dentro de nós mesmos. Nunca vamos nos ver como de fato somos. Quem afirma isto de forma categórica é o Dr. Maxwell Maltz, famoso cirurgião plástico que escreveu um best-seller intitulado "New Faces, New Futures", uma coletânea de história de pessoas que haviam passado pela cirurgia plástica e o relato de como se comportavam depois do tratamento. Em algumas, ocorreram transformáveis notáveis de personalidade, mas em muitas, a cirurgia não fazia a mínima diferença, pois continuavam se "sentindo" feias. Tinham um novo rosto, mas o coração ainda era o mesmo. Então, o Dr Maltz afirma que "cada personalidade possui um rosto", este rosto emocional, que só poderá ser mudado com uma transformação mais radical na alma.
A Bíblia afirma que "como o homem imagina em sua alma, assim ele é" (Pv 23.7). Auto-estima tem a ver com a forma como sentimos a nosso respeito. Se o coração não mudar, as emoções conceituais a nosso respeito continuarão sendo danosas porque elas se constituem no âmago de nossa personalidade. A questão fundamental não é como eu sou, mas como eu penso que sou.
Pessoas de beleza mediana podem ser bem resolvidas, ter um alto grau de aceitação de si mesmas, enquanto outras, muito bonitas, podem se sentir péssimas acerca de seu corpo e da sua imagem. Tenho percebido que muitos em processo de bulimia ou anorexia nervosa possuem uma beleza acima da média e no entanto estão no processo de auto destruição e suicídio inconsciente.
O fato é que não se pode viver bem, se não se percebe bem. Não se pode acreditar na verdade enquanto se acredita em um erro. Auto imagem negativa é uma arma mortífera e altamente destrutiva, porque rouba a criatividade, a espontaneidade e a alegria de ser gente. A personalidade, a sexualidade e os relacionamentos todos são afetados pela nossa auto-percepção. A pessoa que tem uma visão positiva de si mesma é mais saudável em todos os sentidos. Mas a transformação só pode acontecer, se o coração for mudado. O Dr George Herbert Mead, usa o conceito do "eu do espelho". As imagens e conceitos que temos acerca de nós mesmos, têm muito a ver com as imagens e sentimentos que vemos refletidos naqueles que estiveram ao nosso redor e criaram o conceito daquilo que somos agora.
A Bíblia afirma que Deus nos fez para sermos um "poema" dele (Ef 2.10), e este poema tem verso, rima e trova. Cada um de nós possui o seu próprio eidos, usando aqui uma expressão da fenomenologia de Heidegger. Deus nos fez diferente de todos os demais. Padrões de beleza são culturais e transitórios, mudando de acordo com a conveniência de um artista ou da mídia que criam a moda. Por isto, nosso paradigma precisa ser sobrenatural. Trazer esta verdade para nosso coração pode ser altamente libertador.
A maioria das pessoas tem problema com a auto-imagem. Os mais gordinhos gostariam de emagrecer um pouco, os magros se sentem inadequados e gostariam de ser mais cheinhos, os altos acham exagerado o tamanho, os baixinhos gostariam de ter um centímetro a mais. Todos nós temos uma certa insatisfação com nosso espelho. Quando olhamos as fotografias, narcisistas como somos, procuramos nossa imagem para nos enamorarmos um pouco de nós mesmos, mas sempre culpamos a fotografia por ela mostrar o que vemos. "Esta foto não saiu muito boa". Ao dizermos isto, estamos reconhecendo que temos uma imagem mental que não concorda com a imagem real.
O grave problema do espelho é que temos imagens construídas dentro de nós mesmos. Nunca vamos nos ver como de fato somos. Quem afirma isto de forma categórica é o Dr. Maxwell Maltz, famoso cirurgião plástico que escreveu um best-seller intitulado "New Faces, New Futures", uma coletânea de história de pessoas que haviam passado pela cirurgia plástica e o relato de como se comportavam depois do tratamento. Em algumas, ocorreram transformáveis notáveis de personalidade, mas em muitas, a cirurgia não fazia a mínima diferença, pois continuavam se "sentindo" feias. Tinham um novo rosto, mas o coração ainda era o mesmo. Então, o Dr Maltz afirma que "cada personalidade possui um rosto", este rosto emocional, que só poderá ser mudado com uma transformação mais radical na alma.
A Bíblia afirma que "como o homem imagina em sua alma, assim ele é" (Pv 23.7). Auto-estima tem a ver com a forma como sentimos a nosso respeito. Se o coração não mudar, as emoções conceituais a nosso respeito continuarão sendo danosas porque elas se constituem no âmago de nossa personalidade. A questão fundamental não é como eu sou, mas como eu penso que sou.
Pessoas de beleza mediana podem ser bem resolvidas, ter um alto grau de aceitação de si mesmas, enquanto outras, muito bonitas, podem se sentir péssimas acerca de seu corpo e da sua imagem. Tenho percebido que muitos em processo de bulimia ou anorexia nervosa possuem uma beleza acima da média e no entanto estão no processo de auto destruição e suicídio inconsciente.
O fato é que não se pode viver bem, se não se percebe bem. Não se pode acreditar na verdade enquanto se acredita em um erro. Auto imagem negativa é uma arma mortífera e altamente destrutiva, porque rouba a criatividade, a espontaneidade e a alegria de ser gente. A personalidade, a sexualidade e os relacionamentos todos são afetados pela nossa auto-percepção. A pessoa que tem uma visão positiva de si mesma é mais saudável em todos os sentidos. Mas a transformação só pode acontecer, se o coração for mudado. O Dr George Herbert Mead, usa o conceito do "eu do espelho". As imagens e conceitos que temos acerca de nós mesmos, têm muito a ver com as imagens e sentimentos que vemos refletidos naqueles que estiveram ao nosso redor e criaram o conceito daquilo que somos agora.
A Bíblia afirma que Deus nos fez para sermos um "poema" dele (Ef 2.10), e este poema tem verso, rima e trova. Cada um de nós possui o seu próprio eidos, usando aqui uma expressão da fenomenologia de Heidegger. Deus nos fez diferente de todos os demais. Padrões de beleza são culturais e transitórios, mudando de acordo com a conveniência de um artista ou da mídia que criam a moda. Por isto, nosso paradigma precisa ser sobrenatural. Trazer esta verdade para nosso coração pode ser altamente libertador.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2005
PAIXÃO PELA VIDA
Sempre nos chocamos quando somos confrontados com cenas de violência. Conheço pessoas que sentem dificuldade em pegar no sono quando tomam conhecimento de tais acontecimentos. Por mais incrível e paradoxal que pareça, guarde este sentimento, ainda que doloroso, como algo valioso em você. Sofrer, amar e se indignar é algo profundamente positiva. O maior problema é quando vemos as cenas mais brutais na televisão e na vida e começamos a banalizá-la e a achar tudo isto normal. Quando achamos que a morte, a dor e a agressão devem ser vistas como coisas normais, porque a apatia tem o poder de tirar nossa alma.
O problema é que quando a violência se torna corriqueira, tendemos a banalizar a vida, e esquecermos que ela é o maior valor que temos. Esquecemos nossa relação com o criador e o alto valor que ele deu ao seres humanos ao afirmar que foram feitos à sua imagem e semelhança. O conceito da Imago Dei tende a se perder quando a vida é menosprezada, valores são saqueados e arromba-se a dignidade de nossa alma.
Jurgen Moltmann, no livro "A paixão pela vida", afirma que o grave problema com a indiferença, é que ela consegue roubar nossa vida. A insensibilidade tende a se aninhar em nós. Vemos o mal e não mais nos assustamos com ele. Experimentamos violência e somos violentados, sem que isto gere em nós tristeza. Acostumamos com a morte. O extraordinário passa a se tornar o comum, e o trágico corriqueiro.
Alguns anos atrás uma socióloga carioca resolveu mergulhar no submundo da mendicância num gueto de catadores de lixos, miseráveis e desvalidos no Rio de Janeiro. Na medida em que se aproxima do grupo, sentiu enorme rejeição. Os mendigos não permitiam que ela pudesse estudar a situação deles, ameaçaram-na e a hostilizaram. Como precisava fazer pesquisa de campo, esta pesquisadora tomou uma decisão radical: resolveu se tornar uma mendiga para entender como funcionava aquela sociedade. No seu excelente e dramático trabalho de doutorado, ela conta quanta violência presenciou entre eles. Policiais extorquiam dinheiro e agrediam pessoas, abusos sexuais eram freqüentes, o conceito de família assumia um significado totalmente diferente que trazemos. Um relato que me atraiu foi o de que o mau cheiro do local onde ela passou a dormir tornou-se o maior incomodo a enfrentar. Era quase impossível respirar ao lado daquele esgoto. Mas ela afirma que, com o passar do tempo, ela se acostumou ao cheiro.
Podemos nos acostumar com o cheiro da desgraça, da desumanização, da agressão e da dor. Quando isto acontece, perdemos a capacidade de nos indignar com a violência, que assume muitas facetas: doméstica, pública, social, sexual, religiosa. Com a miséria, com a exploração da pobreza, com as indústrias e feudos da domesticação de seres humanos. Podemos nos acostumar com a agressão que praticamos e com a que geramos, achando que tudo está correto. O teólogo alemão, Henry Niemüller, foi um dos homens que teve um lugar nas alamedas dos justos por proteger o povo judeu. Próximo ao Museu do Holocausto em Jerusalém, tive o privilégio de ler pessoalmente uma célebre afirmação sua gravada em bronze:
"Primeiro vieram buscar os anarquistas,
mas como eu não sou anarquista, não me preocupei.
Depois vieram buscar os comunistas,
mas como eu não sou comunista, não me importei.
Depois vieram buscar os judeus,
mas como eu não sou judeu, também não me importei".
O problema é que quando a violência se torna corriqueira, tendemos a banalizar a vida, e esquecermos que ela é o maior valor que temos. Esquecemos nossa relação com o criador e o alto valor que ele deu ao seres humanos ao afirmar que foram feitos à sua imagem e semelhança. O conceito da Imago Dei tende a se perder quando a vida é menosprezada, valores são saqueados e arromba-se a dignidade de nossa alma.
Jurgen Moltmann, no livro "A paixão pela vida", afirma que o grave problema com a indiferença, é que ela consegue roubar nossa vida. A insensibilidade tende a se aninhar em nós. Vemos o mal e não mais nos assustamos com ele. Experimentamos violência e somos violentados, sem que isto gere em nós tristeza. Acostumamos com a morte. O extraordinário passa a se tornar o comum, e o trágico corriqueiro.
Alguns anos atrás uma socióloga carioca resolveu mergulhar no submundo da mendicância num gueto de catadores de lixos, miseráveis e desvalidos no Rio de Janeiro. Na medida em que se aproxima do grupo, sentiu enorme rejeição. Os mendigos não permitiam que ela pudesse estudar a situação deles, ameaçaram-na e a hostilizaram. Como precisava fazer pesquisa de campo, esta pesquisadora tomou uma decisão radical: resolveu se tornar uma mendiga para entender como funcionava aquela sociedade. No seu excelente e dramático trabalho de doutorado, ela conta quanta violência presenciou entre eles. Policiais extorquiam dinheiro e agrediam pessoas, abusos sexuais eram freqüentes, o conceito de família assumia um significado totalmente diferente que trazemos. Um relato que me atraiu foi o de que o mau cheiro do local onde ela passou a dormir tornou-se o maior incomodo a enfrentar. Era quase impossível respirar ao lado daquele esgoto. Mas ela afirma que, com o passar do tempo, ela se acostumou ao cheiro.
Podemos nos acostumar com o cheiro da desgraça, da desumanização, da agressão e da dor. Quando isto acontece, perdemos a capacidade de nos indignar com a violência, que assume muitas facetas: doméstica, pública, social, sexual, religiosa. Com a miséria, com a exploração da pobreza, com as indústrias e feudos da domesticação de seres humanos. Podemos nos acostumar com a agressão que praticamos e com a que geramos, achando que tudo está correto. O teólogo alemão, Henry Niemüller, foi um dos homens que teve um lugar nas alamedas dos justos por proteger o povo judeu. Próximo ao Museu do Holocausto em Jerusalém, tive o privilégio de ler pessoalmente uma célebre afirmação sua gravada em bronze:
"Primeiro vieram buscar os anarquistas,
mas como eu não sou anarquista, não me preocupei.
Depois vieram buscar os comunistas,
mas como eu não sou comunista, não me importei.
Depois vieram buscar os judeus,
mas como eu não sou judeu, também não me importei".
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2005
Viva o divórcio
"Os filhos do divórcio" foi o tema do artigo de capa da revista época, edição 349, de 24.01.2005. Obviamente o assunto é de extrema relevância para nossos dias, já que o divórcio tem assumido proporções estatísticas surpreendentes. Em algumas regiões do Brasil, o divórcio já chega a 50%. Isto significa que, de cada 100 casais que hoje assumem o compromisso do casamento, 50% deles divorciarão num futuro breve. Obviamente devemos ser menos preconceituosos e mais preparados para lidar com a questão, já que vidas estão envolvidas neste doloroso processo.
O que me assustou, nesta reportagem, contudo, foi a apologia do divórcio. Ao chegar ao final da reportagem, tive a impressão de que deveria divorciar porque este era o caminho mais saudável, e psicologicamente mais prático para a minha vida e para a vida de meus filhos. Nada pode ser mais enganoso que esta idéia.
Se é certo que devemos cuidar desta geração que cresce sem ambos os pais, e que é nossa responsabilidade ajudar na restauração daqueles que sofrem um desencanto e passam por um processo de divórcio, também é certo que não devemos olhar com romantismo esta situação. Divórcio é um processo extremamente dolorido. Enganam-se aqueles que acreditam que é um processo simples como trocar de carro, ou mudar-se de uma casa para outra.
Estima-se que são necessários cerca de 5 anos, em média, para que os reajustes resultantes do divórcio sejam feitos. Existe o reajuste financeiro, familiar, emocional, espiritual e até mesmo do circulo de amizades. No financeiro, são as contas que precisam ser divididas, dívidas que precisam ser assumidas por uma ou outra parte, a dolorosa partilha de bens. No campo emocional, o processo de ruptura e de-cisão (separo intencionalmente este termo para que se saiba tratar-se de uma cisão). São fotografias que precisam ser desprezadas, histórias que devem ser esquecidas, isto não considerando ainda o fato de que uma das partes ainda esteja apaixonada e não gostaria de ver um desfecho tão dramático deste sonho de uma noite de verão.
O círculo de amizades também é reavaliado. Determinados amigos não conseguem manter relacionamento com os dois, toma-se partido, estabelece-se julgamentos. Além do fato de que programa de família e de casais, via de regra, é diferente de programa de solteiros e descasados.
Existe ainda o problema espiritual: culpas, acusações, a posição da igreja que se participa. Divórcio é um processo criticado pela maioria das religiões e na visão católica assume ainda uma dimensão sacramental. O homem e a mulher de fé precisam lidar com estas realidades.
Apesar da gravidade de todas estas coisas, existe o drama dos filhos. E não me venham dizer, como insinuou a revista época, que filhos de divorciados crescem emocionalmente mais estáveis e seguros que um filho de um lar onde pai e mãe exercem suas funções. Obviamente se se toma exemplos mais drásticos, de lares disfuncionais, neuróticos e psicóticos, obviamente você pode chegar a esta conclusão, mas a maioria dos lares possui espaço para aceitação e crescimento emocional dos filhos. A exceção não pode se tornar a regra.
Apesar de tudo, de ter uma opinião bem crítica quanto ao divórcio, gostaria de concluir com uma palavra de esperança e de misericórdia aos que passaram por esta experiência. Divórcio não é um pecado sem perdão. Existe restauração e cura para situações dramáticas e doloridas. Não olhe o divórcio como ponto final para sua vida e a dos seus filhos. Deus dispôs a natureza com uma maravilhosa capacidade de se refazer e restaurar. Olhe o cerrado que temos à nossa volta: com o fogo torna-se seco e tórrido, mas as primeiras chuvas de verão são capazes de trazer verdor e de nos fazer crer que um novo tempo se aproxima.
O que me assustou, nesta reportagem, contudo, foi a apologia do divórcio. Ao chegar ao final da reportagem, tive a impressão de que deveria divorciar porque este era o caminho mais saudável, e psicologicamente mais prático para a minha vida e para a vida de meus filhos. Nada pode ser mais enganoso que esta idéia.
Se é certo que devemos cuidar desta geração que cresce sem ambos os pais, e que é nossa responsabilidade ajudar na restauração daqueles que sofrem um desencanto e passam por um processo de divórcio, também é certo que não devemos olhar com romantismo esta situação. Divórcio é um processo extremamente dolorido. Enganam-se aqueles que acreditam que é um processo simples como trocar de carro, ou mudar-se de uma casa para outra.
Estima-se que são necessários cerca de 5 anos, em média, para que os reajustes resultantes do divórcio sejam feitos. Existe o reajuste financeiro, familiar, emocional, espiritual e até mesmo do circulo de amizades. No financeiro, são as contas que precisam ser divididas, dívidas que precisam ser assumidas por uma ou outra parte, a dolorosa partilha de bens. No campo emocional, o processo de ruptura e de-cisão (separo intencionalmente este termo para que se saiba tratar-se de uma cisão). São fotografias que precisam ser desprezadas, histórias que devem ser esquecidas, isto não considerando ainda o fato de que uma das partes ainda esteja apaixonada e não gostaria de ver um desfecho tão dramático deste sonho de uma noite de verão.
O círculo de amizades também é reavaliado. Determinados amigos não conseguem manter relacionamento com os dois, toma-se partido, estabelece-se julgamentos. Além do fato de que programa de família e de casais, via de regra, é diferente de programa de solteiros e descasados.
Existe ainda o problema espiritual: culpas, acusações, a posição da igreja que se participa. Divórcio é um processo criticado pela maioria das religiões e na visão católica assume ainda uma dimensão sacramental. O homem e a mulher de fé precisam lidar com estas realidades.
Apesar da gravidade de todas estas coisas, existe o drama dos filhos. E não me venham dizer, como insinuou a revista época, que filhos de divorciados crescem emocionalmente mais estáveis e seguros que um filho de um lar onde pai e mãe exercem suas funções. Obviamente se se toma exemplos mais drásticos, de lares disfuncionais, neuróticos e psicóticos, obviamente você pode chegar a esta conclusão, mas a maioria dos lares possui espaço para aceitação e crescimento emocional dos filhos. A exceção não pode se tornar a regra.
Apesar de tudo, de ter uma opinião bem crítica quanto ao divórcio, gostaria de concluir com uma palavra de esperança e de misericórdia aos que passaram por esta experiência. Divórcio não é um pecado sem perdão. Existe restauração e cura para situações dramáticas e doloridas. Não olhe o divórcio como ponto final para sua vida e a dos seus filhos. Deus dispôs a natureza com uma maravilhosa capacidade de se refazer e restaurar. Olhe o cerrado que temos à nossa volta: com o fogo torna-se seco e tórrido, mas as primeiras chuvas de verão são capazes de trazer verdor e de nos fazer crer que um novo tempo se aproxima.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2005
A festa dos foliões Dn 5
Certamente o cenário, a cultura, a língua e a forma de expressar a euforia eram diferentes, "O rei Belsazar, deu um grande banquete a mil de seus grandes e bebeu vinho na presença dos mil" (Dn 5.1), mas os motivos eram os mesmos do carnaval de hoje.
Foram convidados grandes nomes da "mídia" e política regionais. O evento atraira gente de diversos lugares. Os "carros importados", a luxúria e a riqueza chamara a atenção dos moradores locais. A cidade fora programada para este evento. Uma estrutura milionária e excêntrica fora montada para que nada faltasse ao "sambódromo", real.
Épocas distantes, motivos iguais...
A festa dos foliões estava preparada...
Aquela festa foi marcada por alguns elementos comuns aos nossos tempos:
1. "Beberam o vinho e deram louvores aos deuses de prata, de bronze, de ferro, de madeira e de pedra" (Dn 5.4). Glorificava-se e exaltava-se outros deuses. Não se promovia a glória do Deus todo poderoso. Outros interesses estavam presentes. Era uma festa para os deuses babilônicos, assim como hoje se celebra o deus Baco, deuses da umbanda e do candomblé.
2. "Então, trouxeram os utensílios de ouro, que foram tirados do templo da Casa de Deus que estava em Jerusalém" (Dn 5.3). Outra característica comum daquela festa e a da festa tupiniquim, é que em ambas, se despreza e se ridiculariza as coisas sagradas: valores, princípios, sofrem uma depreciação orquestrada e arquitetada no inferno. "Vamos trazer as coisas sagradas para zombar delas".
3. "Tu, Belsazar, não humilhaste o teu coração, ainda que sabias de tudo isto" (Dn 5.22). Lá e cá, as lições da história foram colocadas no esquecimento. Claro que sabiam de tudo, mas fizeram de conta que não sabiam, este era o momento da fantasia e da ilusão. "O estandarte do sanatório geral vai passar".
4. "Tequel: Pesado foste na balança e achado em falta" (Dn 5.27). A festa dos foliões é avaliada, considerada e julgada por Deus. Deus avalia e pesa na balança o que foi feito. É hora de um balancete. Lamentavelmente o resultado foi negativo.
Que a festa dos foliões seja antes de tudo em nós, a festa da alegria de Deus e do contentamento dele com o que somos.
Foram convidados grandes nomes da "mídia" e política regionais. O evento atraira gente de diversos lugares. Os "carros importados", a luxúria e a riqueza chamara a atenção dos moradores locais. A cidade fora programada para este evento. Uma estrutura milionária e excêntrica fora montada para que nada faltasse ao "sambódromo", real.
Épocas distantes, motivos iguais...
A festa dos foliões estava preparada...
Aquela festa foi marcada por alguns elementos comuns aos nossos tempos:
1. "Beberam o vinho e deram louvores aos deuses de prata, de bronze, de ferro, de madeira e de pedra" (Dn 5.4). Glorificava-se e exaltava-se outros deuses. Não se promovia a glória do Deus todo poderoso. Outros interesses estavam presentes. Era uma festa para os deuses babilônicos, assim como hoje se celebra o deus Baco, deuses da umbanda e do candomblé.
2. "Então, trouxeram os utensílios de ouro, que foram tirados do templo da Casa de Deus que estava em Jerusalém" (Dn 5.3). Outra característica comum daquela festa e a da festa tupiniquim, é que em ambas, se despreza e se ridiculariza as coisas sagradas: valores, princípios, sofrem uma depreciação orquestrada e arquitetada no inferno. "Vamos trazer as coisas sagradas para zombar delas".
3. "Tu, Belsazar, não humilhaste o teu coração, ainda que sabias de tudo isto" (Dn 5.22). Lá e cá, as lições da história foram colocadas no esquecimento. Claro que sabiam de tudo, mas fizeram de conta que não sabiam, este era o momento da fantasia e da ilusão. "O estandarte do sanatório geral vai passar".
4. "Tequel: Pesado foste na balança e achado em falta" (Dn 5.27). A festa dos foliões é avaliada, considerada e julgada por Deus. Deus avalia e pesa na balança o que foi feito. É hora de um balancete. Lamentavelmente o resultado foi negativo.
Que a festa dos foliões seja antes de tudo em nós, a festa da alegria de Deus e do contentamento dele com o que somos.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2005
A festa dos foliões
Harvey Cox, intelectual e professor de Teologia na Harvard University, com quem tive o privilégio de estudar durante um semestre, escreveu um livro chamado "The feast of fools", no qual afirma que, durante a idade Média florescia, em algumas partes da Europa, um festival conhecido como A Festa dos foliões ou a Festa dos Loucos. Nessa manifestação colorida, usualmente promovida a primeiro de janeiro, até líderes religiosos geralmente piedosos e cidadãos ordeiros colocavam mascaras grotescas, cantavam insinuantes modinhas e, numa palavra, mantinham todo mundo em suspenso por suas sátiras e folias. "Durante a Festa dos Foliões, não havia costume nem convenção que não se expusesse ao ridículo, e até as personalidades mais credenciadas da região não conseguiam subtrair-se à sátira".
Lá, como cá, a Festa dos foliões usualmente desembocava em libertinagem descarada, razão pela qual sofria sempre criticas severas da liderança política e eclesiástica.
Carnaval, em nossa cultura, também tem este elemento desagregador e crítico, no qual, os valores culturais se subvertem. Torna-se uma forma de protesto, de crítica e questionamento do status quo. O problema, é que o carnaval facilmente torna-se um meio dos poderosos articularem a fantasia com a realidade para propósitos políticos e ideológicos, como afirma Chico Buarque:
"Meu Deus vem olhar,
vem ver de parte uma cidade a passar,
numa ofegante epidemia,
que se chamava carnaval.
Ah que vida louca Olerê,
Ai que vida louca Olará,
O estandarte do sanatório geral, vai passar".
O resultado: Carnaval se torna um hospício no qual o turismo passa a ser identificado com "mulatas esfregando o bumbum no nariz de estrangeiros". No qual a alegria, zombaria e a contracultura perdem espaço para a permissividade e para a fantasia, para a irresponsabilidade, descaso e descuido. As estatísticas são trágicas: O número de acidentes, as dores deixadas em lares cuja crise relacional se aguça, os relatórios policiais, tornam-se dramáticos. Certo médico afirmou que detesta dar plantão nesta época do ano, por causa das inevitáveis tragédias, brigas e arruaças.
O problema: A vida não é fantasia, nem um faz de conta. Não se pode ser folião para sempre. A folia pode ser também a loucura. A fantasia, quase sempre transforma-se em irrealidade. Não se pode brincar num baile de fantasia, acreditando que ele é permanente. Não se pode brincar com vida, sentimentos, valores morais e religiosos, com Deus, acreditando que este faz de conta nem conta faz, assim como não se resolve a dor da alma afogando a tristeza num copo e nas drogas.
Carnaval pode nos fazer perder a singularidade da alma, a leveza do ser, a alegria de Deus e a unidade familiar. Ray Charles afirmou: "viva cada dia de sua existência como se fosse o último, porque um dia você vai acertar" in Esquire
quinta-feira, 20 de janeiro de 2005
A TIRANIA DOS FILHOS
Uma antiga amiga minha afirmava que estava sempre vivendo na contramão da história: quando pequena, os melhores pedaços de frango no almoço de sua casa eram reservados aos adultos, e hoje, a melhor parte da refeição estava reservada às crianças.
Na verdade, sua afirmação jocosa reflete apenas algo bem mais sério que tem acontecido em nossos dias. Os pedagogos e orientadores têm chamado isto de "a tirania dos filhos". A dificuldade dos pais em estabelecer limites cria uma geração de crianças mimadas, dominadoras e desajustadas socialmente.
A pedagoga Tânia Zagury, da Universidade Federal do Rio de Janeiro escreveu nos idos de 90 uma tese, publicada com o titulo, "Sem padecer no paraíso – em defesa dos pais ou sobre a tirania dos filhos", baseada na entrevista com 160 pessoas da classe média carioca e concluiu que, temendo traumatizar os filhos e não querendo desagradá-los ao impor padrões mais rígidos de educação, os pais passaram a ser comandados pelos filhos. Seu trabalho mostra que os pais não conseguem definir regras triviais em casa e a maioria está confusa sobre seus papéis e confessa que não sabe como agir com eles.
Sua pesquisa demonstra o seguinte:
88% acabam fazendo concessões aos filhos com medo de errar na educação.
88% se sentem culpados em dizer não aos filhos.
76% crêem que a disciplina possa controlar alguns casos de rebeldia, mas teme aplicá-la.
73% são a favor do castigo, embora não estejam muito claro quando e como devem fazê-lo.
70% Acreditam que as mães que trabalham fora não conseguem atender adequadamente as necessidades de seus filhos.
68% fazem o que a criança pede tentando evitar sentimento de culpa.
67% se sentem inseguros quanto às regras da educação.
Como educar filhos no Século XXI?
Esta é uma grande questão para nossos dias. Nosso contexto pós moderno, com ênfase no pluralismo, no relativismo e na tolerância, gerou um vácuo educacional. Nossa sociedade questionou a educação tradicional mas não conseguiu colocar outro modelo em seu lugar. Ninguém aceita as condições de autoritarismo impostas no antigo modelo educacional, mas a situação torna-se ainda mais grave, quando os filhos se tornam mimados, abusados, descontrolados, com uma enorme capacidade de fazerem chantagem e até mesmo agredirem fisicamente, e os pais amedrontados e acuados com a possível reação dos filhos, caso suas necessidades não sejam plenamente atendidas. Surgem assim, verdadeiros "monstrinhos verdes" dentro de casa, vorazes, temperamentais, exigentes e cheios de direitos sem responsabilidade.
O papel da autoridade
Fundamentados num falso psicologismo, os pais se tornaram presas de chavões mal interpretados do tipo "disciplinar pode traumatizar os filhos", "se dissermos não eles podem crescer recalcados", "rebeldia é uma forma de afirmar sua personalidade" e "nunca diga não".
Ora, tanto a visão mais antiga sobre educação, como pesquisas mais modernas sobre o assunto mostram exatamente o contrário.
Salomão, o sábio milenar afirmava que "A criança entregue a si mesma, cairá no mal" (Pv 29.15). Permitir que a criança faça escolhas num momento em que não tem maturidade para isto, e seja voluntariosa em suas atitudes, torna-se na verdade, um enorme peso e desgraça para ela. Esta suposta liberdade pode trazer-lhe graves conseqüências.
Freud, controvertido médico e pai da psicanálise, analisou a estrutura psíquica do ser humano sobre três pilares: Id, Ego e Superego. O Id é intuitivo, impulsivo, busca prazer imediato e não tem regras. Quando ele quer, tem que ser aqui e agora, não importando as conseqüências que tal atitude trará no futuro. O Superego é comparado à consciência social e moral. Está sempre censurando e questionando se uma satisfação pessoal deve ou não ser assumida. E o Ego, faz um papel mediador entre estas duas forças, sendo um fiel da balança, que tenta avaliar as conseqüências, e estabelecer limites e regras que sejam flexíveis o suficiente para que a pessoa não seja frouxa e licenciosa demais para atender o Id, nem repressiva e autoritária demais para se submeter ao domínio do Superego. Quando O Id predomina, temos um descontrole psicológico, a pessoa está entregue aos seus impulsos e quer atendê-lo sempre. Torna-se uma pessoa desajustada socialmente, e em casos mais graves um psicopata. Quando o Superego predomina, a pessoa se torna cheia de recalques, tem dificuldade de tomar decisões, tem medo de tudo e se encolhe. Nem a licenciosidade nem a rigidez interessam à estrutura psicológica saudável.
Içami Tiba, psiquiatra renomado hoje no Brasil pelas suas teses sobre educação infantil afirma que os filhos têm uma enorme necessidade de delimitações. Ao estabelecer limites os filhos aprendem que a sociedade tem regra, e quando os pais, para poupar os filhos não fixam estas normas poderão trazer muitos pesares para eles na fase adulta, porque relacionamentos são normativos. Tiba advoga o princípio de uma disciplina que seja constante, consistente e que ensine as conseqüências aos filhos.
Quando as regras são claras, elas se tornam cercas de proteção psicológica aos filhos. Incoerência e rigidez são traumáticas assim como a falta de parâmetros.
Deus colocou os pais com a tarefa de mentoria sobre os filhos. Nossa sociedade tem muita dificuldade em obedecer autoridades, bem como em exercê-las. Muitos não querem estar em posição decisória, mas é necessário que existam regras, por isto nenhum sistema de governo é anárquico. Filhos criados debaixo de uma autoridade amorosa e sensível, onde existe comunicação e ternura, com limites claros e amenos sentem-se seguras. Eventualmente protestarão, principalmente na fase em que é necessária a afirmação da personalidade, mas saberão que são amados. Nunca vi filhos criados debaixo de uma disciplina amorosa crescerem neuróticos, mas já vi muitos filhos neuróticos por ausência de regras, assim como tantos outros deformados em seu caráter pelo excesso de regras.
A autoridade dos pais é altamente benéfica para a organização do mundo interior dos filhos. E esta autoridade foi dada por Deus. Pais não precisam mendigar autoridade, já que esta lhe foi outorgada, mas precisam exercê-la. Isto os livrará de futuros dissabores no relacionamento com seus filhos, e de transtornos sociais e morais que filhos tiranos podem trazer sobre si mesmos.
Na verdade, sua afirmação jocosa reflete apenas algo bem mais sério que tem acontecido em nossos dias. Os pedagogos e orientadores têm chamado isto de "a tirania dos filhos". A dificuldade dos pais em estabelecer limites cria uma geração de crianças mimadas, dominadoras e desajustadas socialmente.
A pedagoga Tânia Zagury, da Universidade Federal do Rio de Janeiro escreveu nos idos de 90 uma tese, publicada com o titulo, "Sem padecer no paraíso – em defesa dos pais ou sobre a tirania dos filhos", baseada na entrevista com 160 pessoas da classe média carioca e concluiu que, temendo traumatizar os filhos e não querendo desagradá-los ao impor padrões mais rígidos de educação, os pais passaram a ser comandados pelos filhos. Seu trabalho mostra que os pais não conseguem definir regras triviais em casa e a maioria está confusa sobre seus papéis e confessa que não sabe como agir com eles.
Sua pesquisa demonstra o seguinte:
88% acabam fazendo concessões aos filhos com medo de errar na educação.
88% se sentem culpados em dizer não aos filhos.
76% crêem que a disciplina possa controlar alguns casos de rebeldia, mas teme aplicá-la.
73% são a favor do castigo, embora não estejam muito claro quando e como devem fazê-lo.
70% Acreditam que as mães que trabalham fora não conseguem atender adequadamente as necessidades de seus filhos.
68% fazem o que a criança pede tentando evitar sentimento de culpa.
67% se sentem inseguros quanto às regras da educação.
Como educar filhos no Século XXI?
Esta é uma grande questão para nossos dias. Nosso contexto pós moderno, com ênfase no pluralismo, no relativismo e na tolerância, gerou um vácuo educacional. Nossa sociedade questionou a educação tradicional mas não conseguiu colocar outro modelo em seu lugar. Ninguém aceita as condições de autoritarismo impostas no antigo modelo educacional, mas a situação torna-se ainda mais grave, quando os filhos se tornam mimados, abusados, descontrolados, com uma enorme capacidade de fazerem chantagem e até mesmo agredirem fisicamente, e os pais amedrontados e acuados com a possível reação dos filhos, caso suas necessidades não sejam plenamente atendidas. Surgem assim, verdadeiros "monstrinhos verdes" dentro de casa, vorazes, temperamentais, exigentes e cheios de direitos sem responsabilidade.
O papel da autoridade
Fundamentados num falso psicologismo, os pais se tornaram presas de chavões mal interpretados do tipo "disciplinar pode traumatizar os filhos", "se dissermos não eles podem crescer recalcados", "rebeldia é uma forma de afirmar sua personalidade" e "nunca diga não".
Ora, tanto a visão mais antiga sobre educação, como pesquisas mais modernas sobre o assunto mostram exatamente o contrário.
Salomão, o sábio milenar afirmava que "A criança entregue a si mesma, cairá no mal" (Pv 29.15). Permitir que a criança faça escolhas num momento em que não tem maturidade para isto, e seja voluntariosa em suas atitudes, torna-se na verdade, um enorme peso e desgraça para ela. Esta suposta liberdade pode trazer-lhe graves conseqüências.
Freud, controvertido médico e pai da psicanálise, analisou a estrutura psíquica do ser humano sobre três pilares: Id, Ego e Superego. O Id é intuitivo, impulsivo, busca prazer imediato e não tem regras. Quando ele quer, tem que ser aqui e agora, não importando as conseqüências que tal atitude trará no futuro. O Superego é comparado à consciência social e moral. Está sempre censurando e questionando se uma satisfação pessoal deve ou não ser assumida. E o Ego, faz um papel mediador entre estas duas forças, sendo um fiel da balança, que tenta avaliar as conseqüências, e estabelecer limites e regras que sejam flexíveis o suficiente para que a pessoa não seja frouxa e licenciosa demais para atender o Id, nem repressiva e autoritária demais para se submeter ao domínio do Superego. Quando O Id predomina, temos um descontrole psicológico, a pessoa está entregue aos seus impulsos e quer atendê-lo sempre. Torna-se uma pessoa desajustada socialmente, e em casos mais graves um psicopata. Quando o Superego predomina, a pessoa se torna cheia de recalques, tem dificuldade de tomar decisões, tem medo de tudo e se encolhe. Nem a licenciosidade nem a rigidez interessam à estrutura psicológica saudável.
Içami Tiba, psiquiatra renomado hoje no Brasil pelas suas teses sobre educação infantil afirma que os filhos têm uma enorme necessidade de delimitações. Ao estabelecer limites os filhos aprendem que a sociedade tem regra, e quando os pais, para poupar os filhos não fixam estas normas poderão trazer muitos pesares para eles na fase adulta, porque relacionamentos são normativos. Tiba advoga o princípio de uma disciplina que seja constante, consistente e que ensine as conseqüências aos filhos.
Quando as regras são claras, elas se tornam cercas de proteção psicológica aos filhos. Incoerência e rigidez são traumáticas assim como a falta de parâmetros.
Deus colocou os pais com a tarefa de mentoria sobre os filhos. Nossa sociedade tem muita dificuldade em obedecer autoridades, bem como em exercê-las. Muitos não querem estar em posição decisória, mas é necessário que existam regras, por isto nenhum sistema de governo é anárquico. Filhos criados debaixo de uma autoridade amorosa e sensível, onde existe comunicação e ternura, com limites claros e amenos sentem-se seguras. Eventualmente protestarão, principalmente na fase em que é necessária a afirmação da personalidade, mas saberão que são amados. Nunca vi filhos criados debaixo de uma disciplina amorosa crescerem neuróticos, mas já vi muitos filhos neuróticos por ausência de regras, assim como tantos outros deformados em seu caráter pelo excesso de regras.
A autoridade dos pais é altamente benéfica para a organização do mundo interior dos filhos. E esta autoridade foi dada por Deus. Pais não precisam mendigar autoridade, já que esta lhe foi outorgada, mas precisam exercê-la. Isto os livrará de futuros dissabores no relacionamento com seus filhos, e de transtornos sociais e morais que filhos tiranos podem trazer sobre si mesmos.
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