quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Proatividade


No Wikipedia, a palavra proatividade é definida como “o comportamento de antecipação e de responsabilização pelas próprias escolhas e ações frente às situações impostas pelo meio. Segundo Meiry Kamia, o comportamento proativo é definido como sendo um conjunto de comportamentos extrapapel em que o trabalhador busca espontaneamente por mudanças no seu ambiente de trabalho, solucionando e antecipando-se aos problemas, visando a metas de longo prazo que beneficiam a organização. Suas principais características são: (1). Busca ativa por oportunidades de mudança; (2). Planejamento e execução de ideias; (3). Enfrentamento de obstáculos.

Proatividade tem a ver com iniciativa, diligência, vontade de fazer as coisas, determinação. O contrário é indolência, acomodação e negligência. A Bíblia diz que “pela muita preguiça desaba o teto e pela frouxidão das mãos goteja a casa”.

Não é nada fácil trabalhar com pessoas que só fazem as coisas se forem mandadas ou forçadas. Elas não querem fazer ou não sabem fazer. Certa mulher ao entrevistar candidatas à doméstica em sua casa, tinha o hábito de colocar uma vassoura caída no chão na entrada da cozinha, onde ela faria a entrevista. Se a pessoa pulasse a vassoura e não se importasse em pegá-la e colocá-la num lugar mais adequado, não servia para a função.

O proativo se antecipa, percebe as necessidades, vai além da sua função, faz as coisas acontecerem.

Existe a conhecida charada de três sapos que estavam agarrados a um tronco no meio do rio. Um deles decidiu pular na água, então, quantos ficaram no tronco? Pense bem antes de responder, porque a resposta não é tão fácil quanto parece. Ficaram três, porque um apenas decidiu pular, mas não o fez. Ele apenas pensou em fazer, mas não o fez.

Esta é a realidade de muitos que decidem assumir determinadas posições, mas não o fazem. “O inferno está cheio de gente de boa intenção”, pessoas que queriam fazer mas não fizeram.  A maior parte dos erros não se dá por escolhas erradas, mas por procrastinação, indecisão, omissão e medo de errar que nos leva a não adir da condição que nos encontramos.

Provérbios 14.4 declara: “Não havendo bois, o celeiro fica limpo, mas pelo mexer dos bois há abundância de cereais”. Sem bois não há movimento, nem desordem, mas também não há produção, colheita e fartura. Um boi dá muito trabalho, mas gera riqueza, produção e colheita.
A pessoa proativa realiza, se movimenta, age. Não fica apenas observando o vento. “Quem apenas observa o vento, nunca colherá”. É necessário agir. Muito fracasso na vida advém do não tomar atitude, de não ir atrás das coisas, de não ser proativo.


Você é proativo ou está sempre procurando fazer o mínimo? Levar vantagem sem sacrifício, e ter sucesso sem trabalho? Apenas pessoas diligentes na vida são capazes de prosperar. Só colhe quem planta, e só se colhe aquilo que se plantou.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Co-dependência





Não era a primeira vez que ele apresentava estranhos comportamentos que deixavam toda a família em desequilíbrio. Ele sabia como controlar o humor da casa. Sua reação violenta aconteceu depois dos pais lhe negarem o pedido para ir a uma festa que seus pais julgaram inadequada para sua idade. Ele saiu de casa aos berros, empurrando a cadeira para o lado, entrou no seu quarto reclamando e bateu a porta, trancando-se num típico e conhecido comportamento já manifesto.

Todos sabiam que este dia e talvez os próximos dias seriam insuportáveis naquela casa. Toda vez que isto acontecia a casa ficava completamente desestabilizada, ele sabia como manipular estranhos sentimentos de culpa e raiva e os pais não sabiam como agir nestas situações. Ele era o termômetro da família.

Este é um conhecido ambiente controlado pela co-dependência.

Este termo é usado em psiquiatria para lares dominados por um membro que não apenas enfrenta uma situação de tensão, mas que afeta diretamente todo seu contexto. Pode ser alguém drogado, viciado em álcool, gênio explosivo ou amargurado, forte depressão ou tendência suicida, ou até mesmo por causa de uma longa enfermidade como uma doença crônica que exige muito tempo, atenção e cuidado. Uma pessoa com síndrome de down ou doença degenerativa pode deixar toda a família em suspense, se os demais membros não souberem como agir e não se prepararem para lidar adequadamente com os cuidados necessários em tais situações. Por isto é que em psiquiatria, quando uma pessoa é trazida para ser tratada, algumas clínicas preferem usar o termo “paciente identificado”, ao invés de colocar meramente o título “paciente”, porque eventualmente a doença é sistêmica, tem a ver com a hostilidade do ecossistema e o suposto paciente é apenas a ponta do iceberg, ele reflete toda a conflitividade da família.

“Sempre que uma criança é trazida para tratamento psiquiátrico, é habitual refere-se a ela ou ele como o “paciente identificado”. Por esse termo nós, os psicoterapeutas, queremos dizer que os pais – ou outros identificadores – rotularam a criança como o paciente – isto é, alguém que tem algo de errado e tem necessidade de tratamento. A razão de usarmos esse termos é havermos aprendidos a sermos céticos quanto à validade desse processo de identificação. Com mais frequência que não, à medida que prosseguimos com a avaliação do problema, descobrimos que a origem do problema não está na criança, mas sim em seus pais, família, escola ou sociedade. Colocando em termos mais simples, em geral descobrimos que a criança não é tão doente quanto seus pais. Embora os pais tenham identificado a criança como a pessoa necessitando de corretivo, em geral são eles, os identificadores, que tem, maior necessidade de reforma. São eles que deveriam ser os pacientes” (Peck, M. Scott – O Povo da Mentira, Rio de Janeiro, Ed. Imago, 1983, pg 68)

Por isto, co-dependência é normalmente associada a pessoas que são compulsivamente dependentes de outros ou dependentes de alguma coisa (drogas, alimentação, pornografia, álcool). É sistêmico, porque relaciona-se com todo o ambiente do qual a pessoa participa.

A família do co-dependente precisa se adaptar de diferentes formas para equilibrar o comportamento embaraçoso de membros da família que apresentando disfuncionalidade ou graves neuroses. Cria-se uma espécie de acordo macabro para proteger a reputação da família perfeita. Na Bíblia temos o caso dos irmãos de José, que o venderam como escravo aos mercadores midianitas, e por anos, criaram uma farsa e um acordo impedindo que o pai soubesse da verdade – que eles eram responsáveis pelo desaparecimento do seu irmão.

Muitas vezes, na tentativa de proteger a família de escândalos, cria-se um código não falado, mas compreendido, no qual a pessoa não pode chorar, desabafar, confessar a dor para qualquer outra pessoa fora do círculo restrito em que vive, criando assim um código de regras restritas, impedindo que a pessoa possa fale de forma aberta e honesta de suas emoções, gerando repressão emocional que causa grande stress para toda casa, ou adoecendo outros. Fala-se de co-dependência também quando uma pessoa não fumante, por conviver com o fumante, passa a desenvolver doenças típicas do tabagismo, porque inalou e absorveu a nicotina e o alcatrão da pessoa ao lado.

As forças da co-dependência são fortíssimas. Uma definição possível para esta atitude é "Um comportamento emocional e espiritual que impossibilita a pessoa de expressar seus sentimentos de forma aberta, bem como de discutir seus problemas pessoais e interpessoais[1]

Muitos grupos espirituais podem desenvolver tais atitudes. Por exemplo, não se pode confessar e discutir tentações como luxúria, dúvida ou medo dentro de certas comunidades porque tais coisas são próprias de gente espiritualmente fraca. Isto traz como resultado um sentimento constante de fracasso e de vergonha oculta. As pessoas passam pela crise, mas não podem tocar nestas áreas proibidas. O conceito de tabu normalmente associa-se a atitudes como estas. Todos são proibidos de falar do tema.

Co dependentes tendem a reagir mais que tomar iniciativa. Reagem a comportamentos de pessoas dependentes, a dores, problemas e comportamento de outros, num esforço para equilibrar o sistema familiar, acobertar comportamentos e manter paz nos relacionamentos. Ainda que esta paz seja fictícia e apenas de aparência.

Co-dependentes assumem responsabilidade pela ação e emoção dos outros, frequentemente culpando a si mesmos pelo comportamento inapropriado que alguém da sua comunidade ou família venha a emitir, e frequentemente tendem a ter enorme tolerância pelo comportamento bizarro dos outros desde que isto mantenha a aparência do grupo com o qual encontra-se vinculado. Eles podem até se ferir no processo, desde que não firam outros ou que outros se firam. Encontram ainda grande dificuldade em confrontação e querem sempre ser pacificadores. Como resultado tornam-se depositários de ira reprimida e frustração.

Por exemplo: Se uma pessoa pede ajuda, mesmo que ela não possa atender irá dizer sim, e depois ficará irada consigo mesma por não ter dito não e ter aceitado a tarefa de auxiliar aquele que o procurou. Preocupam-se excessivamente com o sentimento dos outros até o ponto de se tornarem enfermas e se sacrificarem, trazendo prejuízos a si mesmos, e quando encontram alguma pessoa que consegue expressar ira, não conseguem entender como alguém pode ter o direito de ficar irado.

O exemplo fictício relatado acima demonstra como famílias podem adoecer por causa deste mecanismo patológico. Assim, quando o filho dá um espirro, a família contrai uma pneumonia ou tuberculose. A doença de um filho, ou sua atitude não convencional ou contraventora, passa a ser de toda família, que não consegue olhar o comportamento como da responsabilidade daquele que cometeu o ato. A ordem doméstica é alterada por causa da variação de humor de um de seus membros. Se ele está feliz, todo o ambiente é bom – se está deprimido, toda a casa entra em colapso.

Como lidar com conflitos desta natureza?

Para se livrar da co-dependência, é imprescindível aprender a ver o problema “de fora” e não como parte problema.

Para exemplificar isto, uso o exemplo de uma criança brincando num parque infantil e que sofre um acidente: um corte, um braço quebrado, e exige cuidados e atendimento. Se a mãe está ao lado, ela é peça fundamental para cuidar da criança e confortá-la, mas se a mãe é neurótica ou histérica, pode desmaiar, chorar ou entrar num colapso nervoso tão grande que eventualmente serão necessárias duas equipes para resolver o problema: Uma para socorrer a criança, outra para lidar com a mãe, que deixa de ser parte da solução para se tornar parte do problema.

Geralmente não existem filhos problemas, mas pais problemas. Comportamentos disfuncionais de filhos geralmente revelam a falta de estrutura emocional da casa. Em algum momento a autoridade se perdeu ou talvez nunca tenha existido. Faltou o elemento moderador para o ambiente. Isto acontece muitas vezes em casas nas quais os pais decidem se tornar psicólogo de seus filhos. Na verdade, filhos não precisam de psicólogos, mas de pais; mas na ausência efetiva do presença paterna, em geral se contrata psicólogo.

Na co-dependência, o problema se amplia. No caso da criança acidentada a mãe é um problema a mais que se insere numa situação de urgência. Ela se torna um problema adicional, porque suas emoções se “co-fundiram” (esta divisão do termo é intencional) com a dos filhos. O problema primário, o acidente da criança, pode até tornar-se menor, dependendo do grau de histeria e reação da mãe. Temos aqui aquilo que Erich Fromm chama de “simbiose incestuosa”, um dos três componentes da “síndrome do declínio”, ou tipo de caráter maligno.

 Betty e Mike

Betty Lee Esses fala de uma situação análoga a esta, experimentada em sua família[2].

Seu marido, Mike, era um pastor temperamental e exigente. Por ser sua esposa, durante muito tempo entendia que deveria poupar e protegê-lo nas suas frequentes manifestações de mau humor e ira. Ela entendia que isto era sua responsabilidade e viveu escravizada por este sentimento durante anos. Para ser efetiva na sua ajuda, leu artigos que falavam do assunto, conversou com conselheiros tentando encontrar a fórmula certa, leu manuais de casamento e respondeu a todos os questionários que encontrava, tentando ajudar seu marido.

Usou ainda todas as manobras psicológicas possíveis e mudava frequentemente a abordagem para alcançar sucesso na sua tarefa. Nada acontecia. Lia textos em revistas que falava da ira, gritaria e raiva e deixava em lugares onde ela esperava que ele tivesse acesso, porque sabia que se indicasse a leitura ele se recusaria a fazê-la, mas seu esforço era inútil, só a ajudou a perceber que geralmente os maridos são defensivos ou alheios demais ao que sua esposa espera dele ou faz.

Durante muitos anos ele vivia como se fosse um urso pardo com um espinho na pata, ou um animal acuado, e apesar de ser cristão, seu gênio era incontrolável, instável e agressivo. Ela estudou muitas teorias sobre como libertar seu marido destas trevas emocionais, mas nada funcionava. Ia à igreja, orava por ele, jejuava, mas ao voltar para casa a vida continuava como antes. Ela realmente achava que era sua responsabilidade fazer alguma coisa para resgatar seu marido.

Certa noite Mike deveria dar uma palestra numa cidade vizinha e insistiu com Betty para que fosse com ele. Ela então contratou a babá para ficar com a criança e pediu que ela chegasse meia hora antes, porque seu marido ficava furioso quando não cumpria o horário, e ela não queria correr o risco de qualquer atraso.

Apesar da recomendação, a babá não aparecia e os nervos foram ficando à flor da pele, e quando ela chegou, pediu desculpa afirmando que tivera um problema com seu carro. Betty afirma que na medida em que a babá não chegava, tanto ela quanto seu marido ficaram extremamente tensos. Ele porque não queria atrasar, e ela porque sabia como ele estava, e que a estas alturas já estava emocionalmente alterado, o seu motor emocional já havia explodido e o piloto estava girando em órbita, sem o foguete. Ele não apenas estava irritado, mas começou a verbalizar em voz alta, como era seu costume, sem nenhuma ambiguidade e educação, para que todos soubessem o que ele sentia. Você já esteve numa situação como esta?

Vendo o ambiente tenso, ela sugeriu que ele fosse embora e a deixasse. Tentou justificar-se com ele e falar com muito cuidado e serenidade, porque sabia que ele estava irado com ela, embora ela não tivesse feito nada de errado. Betty tentava trazer um pouco de razão ao marido nervoso, disse que não sabia o que havia acontecido com a babá, que tudo estava devidamente acertado, mas nada funcionava. Sua irritação só aumentava e os impropérios proferidos.

Mais uma vez tentou convencê-lo a seguir para seu compromisso, tentando ser o mais amável possível, mas ele decidira que seria assim, e assim seria, não importando com o que pudesse acontecer.

Finalmente a babá chegou, e enquanto ela dava as últimas instruções para apressadamente sair, Mike já estava com o carro ligado, acelerando impacientemente e nem sequer quis saber se a babá tinha ou não uma desculpa legítima. Betty tentava proteger seu marido para a babá, diante da sua deselegância e grosseria, mas realmente não havia como justificar seu comportamento agressivo e infantil. Ela afirma que, naquela hora, daria tudo para que Mike fosse seu filho e ela pudesse colocá-lo no colo e dar-lhe uma surra bem dada pela birra que estava fazendo.

Finalmente saíram, e ele passou a dirigir sem cuidado, rápida e agressivamente, ultrapassando irritadamente os outros carros e por um triz não se acidentaram, e naquele momento tão tenso, por mais estranho que pudesse parecer, ela começou a sentir uma enorme calma se apossar de seu coração.

Foi então que resolver quebrar o paradigma de sua dependência afetiva e decidiu “soltá-lo”, e entregá-lo realmente a Deus. Compreendeu que não precisava aceitar a responsabilidade pelo seu comportamento e não precisava tentar mudá-lo. Ele agia como um garoto mal educado e estragado, e isto nada tinha a ver com ela. Ela não tinha que responder por ele, e nem era culpada. Percebeu que nem mesmo precisava estar ao seu lado e assistir sua atitude desprezível.

Ao se aproximar de um cruzamento, tiveram que parar no sinal vermelho, e ela, calmamente saiu do carro, se despediu do marido e lhe disse: “O Senhor está me dizendo que eu não preciso mais ouvir seus impropérios e nem participar de seu mau humor, e ele quer que eu volte para casa. Boa viagem. Até logo!”, não houve alteração de voz, nem estava irada, apenas tomou esta decisão de forma consciente. E começou a andar de volta para casa.

Ela afirma que noutros tempos, se tivesse que tomar uma atitude como esta, e se conseguisse a coragem para sair do carro, teria andando atônita e às cegas pelas ruas, chorando e se sentindo miserável, porém, não naquela hora. Ela entendia que o problema do Mike era dele, e ele, e não ela, teria de resolvê-lo. Ela não era responsável pelo seu chilique e birra.

Voltou para casa rindo da bizarra situação mas sentindo-se absolutamente livre. Estava radiante por não ter que ficar encolhida, sentindo-se ameaçada e se justificando. Não sentia necessidade de acalmá-lo nem de tentar dar alguma racionalidade para suas alteradas emoções. Ele não era, em última instância, sua responsabilidade. Ela não sabia o que ele faria, se ainda continuaria sendo seu marido, ou se voltaria para casa aquela noite, e se voltasse, que reações teria, mas no fundo, ela não se importava. Não era sua responsabilidade.

Quando chegou em casa, as crianças preocupadas ficaram ao seu lado, porque notaram como o pai estava nervoso ao sair de casa, mas ela os acalmou dizendo que Deus iria cuidar dele, e os convidou a ajoelharem e orarem por ele.

Mais tarde, ao deitar-se, começou a se perguntar se ele voltaria para casa. Afinal, ele já estava nervoso antes dela sair do carro, e com sua atitude as coisas poderiam ter ficado ainda pior, mas pela primeira vez acalmou-se e entendeu que não era sua responsabilidade. Se ele voltaria ou não era problema dele e de Deus.

Sentia que estava livre da co-dependência e que Mike também estava livre. Ela se libertara de ser uma esposa/mãe, tentando criar um homem, e ele estava livre de ser um marido/filho, que podia dar birras toda vez que sofria irritações ou frustrações. Entendeu realmente, pela primeira vez, que Deus seria capaz de lidar com ele.
Ela acordou no meio da noite, quando ele deitou-se ao seu lado, com um sorriso meio constrangido. Perguntou-lhe como fora a reunião, e depois de seu pequeno relato, ele lhe perguntou porque ela havia saído do carro, e ela calmamente respondeu: Deus libertou as minhas mãos das suas, e de hoje em diante não serei mais negativa para você. Jesus me mostrou que sua reação na noite de ontem não era de minha conta, mas um assunto entre você e Deus. O único direito que eu tinha era de orar por você. Torná-lo bom ou ter comportamentos certos era responsabilidade de Deus.  

Aprendera que quando não tentamos controlar, ameaçar, justificar ou manipular os outros, nos tornamos livres e transferimos estas coisas para Deus.  


Liderança co-dependente

Durante muito tempo sofri no ministério por causa de comportamentos pecaminosos e escândalo de membros da minha comunidade. Sempre que havia um adultério, ou um casal se divorciava, ou fazia mau uso do dinheiro, era rebeldia ou se envolvia com drogas, álcool, ou uma jovem que se engravidava antes do casamento, ou era necessário intervir por saber de algum quadro de violência doméstica meu mundo se desmoronava. Cada vez que isto acontecia eu me revolvia na cama perguntando em que havia falhado como pastor, se não deveria ter sido mais atento, acompanhar aquela pessoa mais de perto, orado mais por aquela família. Sempre me sentia culpado pelo erro dos outros.

Ultimamente penso de forma diferente: Não sou parte do problema. Se possível, quero ser parte da solução. (Eventualmente nem para isto me chamam, ou porque acham que não precisam de ajuda, ou porque se sentem envergonhados de fazer confissões). Nestes casos, não é minha tarefa ser juiz ou policial tentando investigar a vida dos outros. Tenho considerado a afirmação coerente e Mário Quintana: "O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isto". 

Alguns anos atrás vi um casal idoso, massacrado pelo bizarro comportamento do filho que era líder na sua igreja local, e aos 42 anos se envolveu num escândalo público, que atingiu toda família e se tornou um conhecido na comunidade. Ao ver a tristeza dos pais, sentindo-se culpado pela atitude do filho, tentando entender o porquê de sua atitude e pecado, fiquei me perguntando se era justo que fossem tão atingidos pela sua “reputação”, mesmo sendo seu filho um homem formado e responsável por si mesmo. Até onde deveriam assumir a responsabilidade do filho? Éntendo ser natural a tristeza diante destas situações, mas sentir-se responsável pelo seu fracasso não seria uma forma “respeitável” de co-dependência?

Por que um co-dependente assume liderança? Essencialmente para cuidar dos outros. Infelizmente tal pessoa sentirá grande frustração no ministério, porque, como pastor é difícil manter sempre a paz, e algumas vezes nossas atitudes alienarão pessoas. A confrontação se torna necessária quando existe um comportamento pecaminoso, as pessoas cometem deslizes e fazem tolices e o medo de ferir e perder a aprovação dos outros pode ser demoníaco, assim como é sentir-se culpado pelo que a comunidade fez. Um co-dependente sempre se julgará errado do mal comportamento e atitudes erradas dos amigos e membros da família. Quando uma pessoa decide sair da igreja e se mudar para outra comunidade ou cai em pecado um líder co-dependete se sentirá extremamente culpado. No entanto, talvez seja esta a melhor decisão para sua vida e para a comunidade. Um colega meu chegou a falar estranhamente da "benção da exclusão". Andy Stanley afirma que determinadas pessoas são tóxicas para a comunidade, e é importante que elas saiam para que acha saúde no corpo. Um líder co-dependente vai morrer de angústia com tal pensamento. 

A tendência de sempre querer ser agradável não é também uma forma de co-dependência? Qual é a causa de nossa dor? Não seria isto uma forma patológica de dirigir uma comunidade ou de se relacionar com as pessoas?

Conclusão

Uma forma saudável de lidar com pressões é aprender a ver o problema do outro como algo que ele precisa tratar. Pais podem ajudar muito a seus filhos no caso de birras e irritabilidade. A atitude saudável ajuda aquele que erra ou precisa de cuidado, sem ter que se tornar parte do problema e adoecer com ele. Isto me parece uma forma muito positiva de ajuda-lo a superar a manipulação e enfraquecer comportamentos inadequados.

Estar perto, oferecer suporte, aconselhar, quando convidado e se necessário, é sempre uma atitude positiva. Se tornar parte do problema e adoecer juntos é neurótico. Assumir a responsabilidade pelo erro do outro revela o quanto estamos mal resolvidos enquanto seres humanos. É um grande alivio quando nos vemos não como responsáveis e parte do problema, mas agentes externos que podem ajudar aqueles que insistem em viver na sua doença e insistem em transformar todo o agradável ambiente de alegria de uma casa em um funeral.



[1] McIntosh, Gary L., & Rima, Samuel D. - Overcoming the Darkside of leadership - Grand Rapids, MI, Bakerbooks, 1997-
[2] Esses, Betty Lee – Se eu posso, tu podes. Miami, Ed. Vida, 1974, Whitaker House, pg. 21-33.



segunda-feira, 27 de julho de 2015

Teologia da Cidade



Por muito tempo a igreja se silenciou acerca da cidade. Questões modernas como infra estrutura, violência, saúde, economia pareciam habitar outro andar, com o qual a espiritualidade não se comunicava. No entanto, de 40 anos para cá, muitos autores se propuseram a pensar a cidade a partir da Bíblia. Será que as Escrituras falam deste assunto? A igreja tem algo a dizer sobre isto?   
Um teólogo católico, José Comblin levantou uma interessante questão: “O que está por detrás do silêncio teológico?” E a partir desta pergunta tentou fazer o que chama de Teologia da Cidade. Uma das respostas que encontrou é que a Igreja seguiu uma hermenêutica rural, e não soube interpretar os fenômenos modernos. Para Comblin “A igreja é chamada a assumir a sociedade urbana não por oportunismo religioso, mas por vocação (…) Seu papel consiste em criar o povo de Deus a partir do povo da cidade”.

O problema é que temos vivido na cidade com sociologia e ferramentas urbanas, mas com uma teologia rural e temos o desafio de refletir uma teologia tão grande quanto a própria cidade, tão urbana quanto a sociologia.

Por que fazer uma teologia da cidade? Janice Perlman, urbanista americana afirmou que a vida do campo é uma utopia e que as metrópoles são fundamentais para o avanço da civilização, porque este ambiente, é propício à criatividade e torna as metrópoles fascinantes. Mais do que nunca torna-se necessário traduzir o cristianismo para a cidade. O homem da cidade é secularizado, favorecendo um movimento espontâneo de politeísmo e de personalismo religioso. Estudar a Bíblia pensando na cidade, capacita-nos a ler de forma correta o mundo contemporâneo que na sua origem é urbana.

Pela primeira vez na história, a população da cidade é maior que da zona rural; 94% da população do Canadá e dos EUA vivem nas cidades; 82% da população dos Europeus vivem nas cidades, e entre 1975/2000, o crescimento urbano foi de 216%, na América Latina.

Os problemas mais comuns são a falta de infra-estrutura. Para se ter uma ideia, a cidade do México estava crescendo a uma taxa anual de 0.5 milhões. Como pensar em rede de esgoto, escolas, pavimentação e saúde para um contingente tão grande de migração humana? A Igreja precisa se envolver no acolhimento dos pobres e na discussão sobre meio ambiente, sustentabilidade e emprego.

Um outro aspecto que surpreendeu os estudiosos foi a constatação de que a Bíblia é um livro urbano já que há uma presença marcante das cidades. Ur dos caldeus, onde nasceu Abrão, tinha 250 mil habitantes. Em Éfeso havia iluminação pública na famosa Rua Arcádia; Nos tempos bíblicos, Roma tinha mais de um milhão de habitantes, congestionamento de tráfico, carros foram proibidos de andar durante o dia; ricos viviam em mansões isoladas e a classe média em sofisticados apartamentos de até 10 andares de altura. Já pensaram nisto?

Onde moravam os personagens bíblicos? Davi e Isaías em Jerusalém; Daniel, na Babilônia; Paulo exerceu sua atividade missionária em grandes cidades como Corinto, Filipos, Éfeso e Roma.  No entanto, as principais formulações teológicas se deram, na Zona rural. Quando Calvino escreveu as institutas, Genebra tinha apenas 16 mil habitantes. Tomás de Aquino viveu em cidade pequena, com grave distorção da distribuição de renda, mas como poucos desafios modernos como os que enfrentamos.

A cidade precisa estar presente na nossa reflexão, porque apesar de ser o objeto do amor de Deus, como Jesus expressou por Jerusalém, ela tem a capacidade de abrigar a maldade revelada em realidades como a desumanização (política de opressão); exploração dos pobres; rejeição a Deus, deificação do poder e da riqueza. Ao refletir sobre a questão urbana, a igreja busca atenuar estas manifestações das trevas e minimizar o sofrimento humano, dando sinais da graça de Deus e de sua presença entre os homens. 

Por isto, a função da cidade é, em primeiro lugar, de ordem profética, ou melhor, de ordem mística. A política prepara e executa projetos; administra e impõe os projetos. Mas a profecia desperta as almas, inspira os chefes e convence as massas. É a profecia que move as energias humanas, obriga os homens a superar-se de certo modo a si mesmos. A igreja precisa refletir sobre a cidade para abençoá-la. Onde houver sinais dos reino de Deus, a igreja de Cristo deve ser a primeira a estar presente.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Plutão deixou de ser planeta

Quem tem mais de 20 anos, aprendeu nos bancos de escolas, que Plutão era um dos planetas do sistema solar. Pois bem, se você aprendeu assim, pode “desaprender”. O planeta Plutão foi descoberto em 1930, pelo astrônomo norte-americano Clyde Tombaugh e ficou conhecido como o menor, mais frio e distante planeta do Sol. Por causa de uma reclassificação da União Astronômica Internacional (UAI), no dia 24 de Agosto de 2006, este planeta perdeu seu status anterior, e se tornou um “planeta-anão”. De acordo com as novas regras, um planeta deve satisfazer três critérios: deve orbitar o sol, deve ser grande o suficiente para a gravidade moldá-lo dentro da forma de uma bola e sua vizinhança orbital deve estar livre de outros objetos. Plutão não atende a estes requisitos.

Outro dado interessante é que depois de nove anos de viagem à velocidade de 52.800 mil km/hora, a espaçonave New Horizons, da Nasa, chegou a Plutão e fará observações científicas precisas nas proximidades desse gélido planeta-anão. Plutão é muito frio e sua menor temperatura pode chegar a menos 230 graus Celsius. A gravidade nesse planeta-anão equivale a 1/15 da gravidade terrestre, por isto, um ser humano que pese 100 kg na Terra pesará apenas 6,66 kg em Plutão.

Na verdade, Plutão não deixou de ser o que sempre foi, ele apenas recebeu da parte dos pesquisadores, outra nomenclatura. Ele continua sendo o que era, mas deixou de ser aquilo que diziam dele. Esta constatação científica não mudou sua essência, mas alterou sua definição, aquilo que falavam dele.

Creio que isto se parece com a humanidade. Não somos aquilo que falam de nós, mas aquilo que somos de fato. Alguém afirmou que reputação é o que dizem a nosso respeito; caráter é aquilo que de fato somos. A melhor maneira de saber a verdadeira natureza de homem é quando a luz se apaga, e ninguém o observa. Caráter é o que somos na vida privada, sem holofotes.

Nesta semana li um artigo que dizia: “Ultimamente estou igual plutão, frio, distante e solitário.” Certamente o autor não elaborou uma boa definição acerca de si mesmo, mas esta auto percepção pode refletir o estado de alma ou um momento de vida. Certa pessoa com o estado de humor alterado, afirmou que estava ficando velho e se tornando cínico, cético e grosso.

Envelhecer ranzinza conduz inexoravelmente para a síndrome de plutão. É fácil se isolar, se tornar insensível, sentir-se alijado e discriminado, não ter amigos, enfrentar o frio na alma e a solidão de espírito. Mas viver assim é uma decisão, ou, quem sabe, a decisão de não decidir por uma vida de doação, aproximação, calor e amizade. Afinal, nossa decisão determina o estilo de vida que teremos, e o que somos e fazemos. Talvez seja melhor afirmar como o poeta: “Medo, eu não te escuto mais, aonde tenha sol, é prá lá que eu vou!” 

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Impressões do Araguaia


No final do mês de junho, ao lado de um casal querido dos Estados Unidos e minha esposa, fomos para a pousada Água Branca, no município de Formoso do Araguaia, e às margens deste rio encantador, passamos três dias de descanso, pescaria, boa comida e risadas.

A estrada está num excelente estado de manutenção, e mesmo os 50 KM, de estrada de terra, estavam muito bem conservadas, até o porto Fio de Velasco, de onde subimos mais uma hora e meia de barco para a pousada.

O Rio Araguaia continua exuberante. E para minha surpresa, muito bem mantido. Vi pouca sujeira nas suas margens, a natureza está muito em preservada, a pescaria esportiva é praticada, e os pirangueiros, que nos levavam para pescar, cuidavam muito bem dos peixes apanhados, lutando pela sua preservação, e o lixo produzido dentro dos barcos, como papéis, plásticos, latas e garrafas de refrigerante eram cuidadosamente guardado e colocados em lugar adequado.

Da parte dos pescadores e turistas, há também um grande cuidado em não estragar nada, em preservar a natureza. Por força de lei, no Estado de Goiás, até o final de 2016, nenhum pescado pode ser trazido, podendo apenas ser consumido na beira do rio, e isto amplia grandemente a chance de termos peixe em grande abundância na região, nos próximos anos. Com o Estado e os cidadãos cuidando, haverá sempre um equilíbrio sustentável para a região.

Quando contemplo a natureza, e olho a beleza daquilo que Deus criou, lembro-me da ordem dada por Deus no Éden, ao dar instrução ao homem e à mulher para que guardassem, cuidassem e mantivessem o jardim. Portanto, trata-se de um mandato cultural e ecológico, que faz parte da ordem e design da criação. Deus se preocupa com sua criação e orienta o homem a agir de forma responsável no contato com a natureza. Quebrar este princípio é ferir, no seu fundamento, o propósito dado por Deus ao ser humano.

Ecologia não é modismo, faz parte do projeto da criação. Igreja, sociedade e família devem ensinar isto à próxima geração, e nós, os mais velhos, precisamos dar exemplo de cuidado. Acredito que a nova geração, felizmente, possua uma consciência mais clara do que nós mesmos, em relação ao cuidado e proteção da natureza. É conhecido de todos que boa parte dos que se dirigiam ao Araguaia e seus afluentes, alguns anos atrás, traziam quantidades imensas de peixes, eram implacáveis e destrutivos com as matas e cerrados, não cuidavam bem do lixo que produziam, mas hoje é possível perceber uma nova consciência de cidadania que tem mudado sensivelmente esta tendência destrutiva.


Cuidar da natureza, antes de ser um ato cívico e moral, ou um ato de cidadania, precisa se tornar uma questão teológica, ligada à fé e a espiritualidade. Deus criou a natureza para ser preservada. Quatro ordens relacionadas à natureza foram dadas por Deus ao homem, no livro de Gênesis: (a)- O homem deveria sujeitar a terra; (b)- Deveria dominá-la; (c)- deveria cultivá-la; (d)- Deveria guardá-la (Gn 1.28; Gn 2.15). A ordem de sujeitar e dominar a terra, não pode ser dissociada das outras duas ordens dadas: De cultivá-la e guardá-la. Deixar de cuidar da natureza não é apenas um crime, mas quebra de um princípio de Deus. 

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Correndo, porém mortos


O conferencista Wayne Cordeiro relatou que fazia sua rotina semanal de atividades físicas correndo no parque, quando de repente foi tomado por uma estranha sensação de morte e angústia, sentou-se no meio fio com taquicardia e sudorese, e descontrolado começou a chorar. Algumas pessoas pararam para ajudá-lo, pensando se tratar de um ataque cardíaco, ele foi levado de ambulância para o pronto socorro, e o médico diagnosticou um “ataque de ansiedade”.

O médico explicou-lhe que isto acontece quando os níveis de serotonina (endorfina), hormônios do prazer e da alegria, são substituídos pela adrenalina, que gera excitação e medo, e que provoca três problemas, que são gradativos e atuam quando o corpo está em estresse. O primeiro, é o ataque de ansiedade; o segundo, as emoções entram em frangalho; a terceira, colapso nervoso.

Tentando ajudá-lo o médico ainda demonstrou que existe uma espécie de “tanque emocional”, que muitas vezes se esvazia, sem que percebamos. Há fatores que enchem este tanque, dão sensação de bem estar e são restauradores, mas existem outros fatores que esvaziam. É necessário identificar aquilo que pode nos ajudar a encher e evitar aquilo que esvazia.

Um caminho para identificar estes fatores, é fazer uma lista daquilo que restaura as emoções. Pegue uma folha de papel e escreva algumas coisas que trazem equilíbrio. Pode ser o tempo de lazer com os filhos ou amigos, ir ao cinema, fazer trilhas, caminhar, ler um livro, ouvir uma boa música, meditação e oração, ir à igreja... Pergunte a si mesmo o que ajuda a restabelecer o seu nível de serotonina?


Em seguida, enumere aquilo que “esvazia” seu tanque emocional. O que tem levado você ao estresse? Dá para fugir destes fatores ou evitá-los? Enumere alguns destes aspectos que podem estar roubando sua energia e alegria: excesso de atividades, desavenças em casa, relacionamentos prejudicados no trabalho, exigências sociais? Estes e muitos outros fatores podem estar prejudicando seu desenvolvimento psicológico e esvaziando seu coração de alegria.

Um grupo de amigos resolveu visitar um missionário que trabalhava na selva. Para fazer a longa trilha de 4 dias de caminhada, contrataram um guia e carregadores. No primeiro e segundo dia, puderam desenvolver muito bem a jornada, mas no terceiro dia, os carregadores se recusavam a levantar. O guia então explicou que eles tinham andado depressa demais nos dois primeiros dias, e que estavam esperando a alma que tinha ficado para trás.

Esta é uma boa ilustração de como podemos estar perdendo nossa alma na agitação do coração, na correria atrás de futilidades, desesperado por reconhecimento, aclamação pública, apreciação, e mesmo quando percebemos a alma e o tanque emocional vazios, ao invés de refletirmos sobre a triste situação, queremos continuar correndo, ainda que espiritual e emocionalmente estejamos morrendo.
Alguém definiu o fanático como sendo uma pessoa que vendo-se perdido, imprime ainda maior velocidade. Lamentavelmente corremos demais, estamos agitados demais, e precisamos ouvir Jesus dizendo o mesmo que falou a Marta. “Andas inquieta e agitada demais com muita coisa, Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada”. O que sua irmã Maria havia escolhido? Assentar-se aos seus pés, descansar a alma, recompor o tanque emocional, resgatar a vida.


E você? 
Agitado e correndo demais, mas com o tanque vazio e a alma sendo deixada para trás?

Impressões de Tucuruí


A convite do Luciano Gomes (zooflora), estive uma semana no Pará, na cidade de Marabá, visitando a fazenda, e depois, indo para Jacundá-PA e dali para a beira da Represa Tucuruí, na Vila de Santa Rosa que fica a de 30 KM da cidade. Ficamos na Toca do Tucunaré, uma belíssima estrutura encravada numa ilha, e que faria jus ao nome, se a pescaria na região não fosse tão predatória. Por dois dias, jogando linhada durante o período da manhã, conseguimos pegar apenas 2 piranhas e 1 tucunaré. Os moradores locais afirmam que infelizmente os próprios pescadores, que dependem do dinheiro da pescaria, praticam indiscriminadamente a pesca, inclusive em épocas de piracema, quando os peixes estão desovando. O resultado é catastrófico a médio prazo, e o número de peixe tem caído sistematicamente pela ausência de consciência dos ribeirinhos, falta de fiscalização ou a corrupção dos fiscais. 

Foi bom conviver com pessoas simples, conversar com elas, ouvir suas histórias.
Tive oportunidade de conversar longamente com uma viúva, mãe de 8 filhos, que perdeu seu marido oito meses atrás. Ela anda muito triste desde então, seus filhos dependem da pesca, que não anda bem, e ela vive no barco com eles, repartindo o pequeno espaço com as noras que também passaram a viver no barco. A saudade do marido que morreu em seus braços tem sido muito grande e a vida se tornou muito pesada desde então. Apesar de estar com 57 anos, parece ter 70. Tive oportunidade de encorajar sua vida, estimular e animá-la um pouco.

Uma coisa surpreendente para mim foi a quantidade de orquídeas e bromélias que se alojam no tronco seco das árvores onde outrora era a selva amazônica e agora é o lago. As árvores secas se parecem um cemitério da floresta, e de fato esta é a realidade. No entanto, passarinhos levam as sementes que brotam naqueles tocos e revelam o poder da vida naquele cenário de morte. É a natureza insistindo em viver, a despeito de agressão e violência sofrida. É surpreendente a quantidade e diversidade destas orquídeas, algumas com lindas flores desabrochando. A natureza se renova, dentro de suas possibilidades.


Tive oportunidade de tirar foto ao lado de árvores que precisam de 8 homens de braços abertos para abraçá-las. Descansar e pescar em rios de águas correntes e límpidas, comer carnes especiais e muito peixe. Rir e orar bastante, considerar uma porção de coisas que só somos capazes de refletir quando paramos o relógio sem termos a adrenalina da agenda, sem sofrer a crise de abstinência da internet. 

Por isto, o Lago de Tucuruí, neste recanto silencioso e inóspito em que estive, me trouxe lembranças perenes, dos mergulhos nestas águas mornas do lado de baixo do Equador e de gente amiga com quem convivi, e dos novos amigos que encontrei.