quarta-feira, 8 de abril de 2015

Babilônia



A imprensa tem notificado nos últimos dias a queda na audiência da Rede Globo na nova novela das 21, cujo título é Babilônia. A UOL TV fez a seguinte declaração no dia 29.03.2015: “A Globo lançou neste final de semana uma operação de salvamento de Babilônia. Rejeitada por parte do público e boicotada por evangélicos, a nova novela das nove derrubou a audiência do horário nobre da emissora em 19% e, se não reagir, poderá entrar para a história como o mais baixo ibope das 21h. Desde ontem, para recuperar o público que migrou para SBT e Record, a Globo exibe chamadas introduzindo didaticamente as tramas da novela, em uma ação chamada de "relançamento". Mudou também a abertura e a apresentação da logomarca”.
O nome Babilônia significa “porta dos deuses”. Havia nesta antiga cidade 53 templos pagãos onde perdurava o sincretismo. Babilônia é na Bíblia, a figura da mãe das fornicações e da devassidão moral e por isto é chamada de “A mãe de todas as prostitutas e de todas as pessoas imorais do mundo” (Ap 17.5). Todos se embriagavam com sua luxúria e bebiam o “sangue dos santos” (Ap 17.6). O apóstolo João afirma que quando a viu, admirou-se com grande espanto pela sua maldade (Ap 17.6). O significado completo da cidade é escatológico. Babilônia personificava a maldade humana. Trata-se portanto, de uma figura muito mais ampla que a mera descrição de uma cidade particular.
Fala-se em “boicote dos evangélicos”, mas outras igrejas também, inclusive boa parte dos católicos, estão preocupadas com a perda de valores morais, e a propaganda sistemática pela quebra de valores, entre eles, a família.
Li recentemente a seriíssima declaração do Pe. Dudu (Pe. Eduardo Braga), veja suas palavras:
“(Babilônia) faz referência à prostituição, entendida com seus crimes e pecados cometidos contra Deus e seus filhos. O que dizer de duas senhoras de oitenta e seis anos se beijando? Babilônia! Cenas casuais de sexo e assassinato? Babilônia! Golpe do baú e traição? Babilônia! Triangulo amoroso e prostituta de luxo? Babilônia! Em um momento tão crítico da história deste país, Babilônia e Big Brother não podem nos trazer luz, paz e esperança. Desperta povo! Deus destruiu Babilônia! Não permita que ela seja levantada com o material e mão de obra do Brasil! Não precisamos de Babilônia! Queremos Jerusalém! Queremos ordem e progresso! Queremos Deus e os valores autênticos e imortais! Queremos o amor e a paz! Queremos a segurança, o respeito e a prosperidade completa!”
Minha esperança é que nós, brasileiros, entendamos a força dos movimentos sociais. Existem momentos na história de um povo que é necessário que exista pressão de grupos, para que a voz seja ouvida. Governos corruptos só se assustam com manifestações. A Globo não precisa repensar sua filosofia, ela pode continuar fazendo o que sempre quis fazer, é uma escolha editorial e a imprensa felizmente, é livre no Brasil. Mas a população também é livre para dizer: Não queremos. Viram como um clic faz toda diferença?
Ah! E se as outras mídias, o governo e agências seculares, quiserem defender causas que consideramos anti-cristãs ou anti quaisquer outros valores, devemos fazer uso de manifestações, votos, imprensa, e mídias sociais para com ousadia dizer não. Afinal, como afirmou M. Luther King Jr. “Deus vai julgar, não apenas os atos dos maus, mas o silencio dos justos!”



Não sofra mais... que o necessário


Sofrimentos são inevitáveis. Apesar das modernas pesquisas médicas que trouxeram alívio a muitas enfermidades: analgésicos, antibióticos, anestesias, a fragilidade humana utiliza outras faces e nos adoecem. São relacionamentos tóxicos, aflições de alma, tribulação, angústias, tristeza e ansiedade.
A experiência mostra, contudo, que sofreríamos menos se, pelo menos, aprendêssemos a lidar com três simples princípios:
1.   Não sofrer por problemas irreais;
2.   Não superdimensionar a dor
3.   Não sofrer demais por aquilo que não é importante.
O primeiro deles pode ser analisado da seguinte forma: Nos angustiamos demais por anteciparmos sofrimentos. A ansiedade é a forma mais visível deste problema. Preocupação é uma preocupação antecipada. Estatisticamente falando, 80% dos problemas que antecipamos, nunca acontecerão. Imaginamos o pior, fazemos previsões equivocadas, nos ocupamos antecipadamente com medos que nunca se concretizam.
O segundo é a desproporcionalidade do sofrimento. Certa pessoa, ao perder sua mãe de 90 anos, disse que estava devastada. O luto é sempre dolorido, mas quanto tempo você acha que seus queridos vão viver? Precisamos entender que as pessoas não durarão para sempre e nos preparar para esta. Podemos nos entristecer, mas não ficar devastado? São raros os que chegam a esta marca histórica. Devemos nos preparar para perdas. Infelizmente superdimensionamos a dor. Esquecemo-nos que outras pessoas também sofrem ao nosso redor. Portanto, dê à dor o seu exato lugar. Não sofrer num luto pode ser tão danoso quanto se desesperar ou não sair do luto. Não devemos negar a dor, mas nunca exagerá-la. Muitos fazem isto por causa do forte egoísmo, achando que têm a prerrogativa de nunca sofrer, ou por auto-comiseração. Cuidado com estes mecanismos psicológicos.
Terceiro, sofra por aquilo que é necessário sofrer. Às vezes, uma perda mínima gera sofrimento máximo, porque não avaliamos corretamente a perda, ou lhe damos valor exagerado. Curiosamente somos sensíveis a determinados fatos que tangem nosso narcisismo ou arrogância e achamos que não podemos perder nunca. Mas não temos sensibilidade com aquilo que move o coração de Deus.
William Booth, fundador do Exército da Salvação, uma organização cujas redes protegem pessoas desamparadas no mundo inteiro tinha o seguinte lema: “Nada do que move o coração de Deus pode deixar de mover o meu coração”. 
Curiosamente somos sensíveis a coisas pequenas, mas não com aquilo que realmente deveria mover o nosso coração. O profeta Jonas irou-se com Deus por causa de uma planta que foi devorada por um verme, porque não teve mais sombra, no entanto, não estava preocupado com 120 mil ninivitas que não sabiam discernir entre a mão direita e a esquerda. Deus o censura pelo seu choro egoísta, mas Jonas continuou achando que tinha razão.
Eventualmente entramos em luto e depressão pela perda de um pequeno animal de estimação. (Todos sabemos como é duro perder um “pet”, não há nada errado nisto), mas não temos a mínima sensibilidade pela dor humana, pelas crianças e mulheres que sofrem violência, por gente que luta para colocar comida à mesa dos filhos, por tragédias humanas que diariamente presenciamos. Nossas preocupações estão deslocadas. Não estou dizendo que não devemos ter sensibilidade com tais perdas, mas existem valores, princípios, ideais, que nunca nos moveram.
O sofrimento é universal, real e presente. Mas devemos repensar sua intensidade. Jesus disse: “No mundo passais por aflição, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo”. Não há dor que não passe. “O choro pode durar a noite inteira, mas a alegria vem pelo amanhecer”.

Sofra, mas não mais que o necessário...  

terça-feira, 24 de março de 2015

Onde estão os pais?


Com a fragmentação familiar e a competitividade do mercado de trabalho, a figura do pai está se tornando cada vez mais ausente e distante. Faltam pais no mercado! Gente comprometida em ser mentor e guia de seus filhos. Faltam referências familiares, e os filhos tem sofrido de forma lastimável esta ausência paterna.
Mãe possui uma relação uterina com o filho, mas ele não pode ser chamado sempre de “menininho da mamãe!”, ou “que gracinha!”. Pais precisam assumir seu papel e afirmar a masculinidade do filho. Feminilidade não transmite masculinidade.
Pouco se tem falado hoje dos riscos da ausência paterna ou alienação parental. No entanto, a pergunta mais essencial no coração de um menino só pode ser respondida pelo pai: “Tenho algum valor?” Filhos querem saber o que o pai pensa deles e anseiam pela companhia paterna. O momento mais feliz de um filho na tenra infância é a hora que o pai chega do trabalho. O afastamento intencional ou não pode se tornar um grande problema na personalidade da criança.  
Chuck Colson foi assessor do Presidente Richard Nixon e o pivô do escândalo Watergate. Julgado e na prisão teve um encontro pessoal com Jesus. Durante estes anos, viu o sofrimento dos presos, distanciados de seus familiares e criou a ONG Prison Fellowship, que procura dar apoio aos presos e familiares, para uma população carcerária que somente nos EUA Unidos chega a quase 2 milhões de pessoas.
Alguns anos atrás esta ONG providenciou papéis, envelopes e selos para os presos que quisessem enviar cartões no dia das mães. O resultado foi um sucesso. Milhares de presos mandaram cartas e cartões e por isto resolveram ampliar a idéia para o Dia dos Pais. No entanto, o resultado foi um fracasso. Raros foram os presos que decidiram enviar cartas para seus pais.
Isto revelou o fato que há um sentimento vago, ambíguo e até mesmo hostil entre pais e filhos. A grande maioria dos presos não tinha uma idéia clara de paternidade. Havia uma ausência paterna. A cadeia é um destino comum para quem nunca teve pai.
Historicamente, a maneira tradicional de criar filhos, sempre foi ensinando-os a mesma profissão, andando ao lado, conversando, fazendo flechas, caçando e pescando. O Pai levava consigo os filhos em sua companhia. Havia mentoria.
A ferida mais profunda no coração de um filho é infligida pela ausência emocional ou geográfica dos pais ou nas palavras que são ditas (ou não ditas). Tais feridas são recebidas de forma ativa ou agressiva, e nem sempre podem ser percebidas de forma imediata, tornando-se com um câncer que se desenvolve de forma lenta. Bly afirma: “Um pai ausente, indiferente ou distante, que só pensa em trabalhar, é uma ferida”.
Alguns pais ferem pelo silêncio. Estão fisicamente presentes, mas emocionalmente ausentes. O silêncio é ensurdecedor. No caso de pais silenciosos os filhos estão perguntando: “Quem sou eu?”; “eu significo algo?”. O silêncio é também ambíguo: “Não sei, talvez sim...” A dor mais profunda surge nas palavras ou atitudes, que dizem sem dizer: “Incapaz, burro, incompetente, mocinha”. Excesso de trabalho, culpa e abandono roubam a identidade positiva. Meninas também precisam de afirmação. Muitas garotas correm para o braço de outros homens, buscando a afirmação que lhes foi negada em casa, na busca do abraço masculino inexistente em casa. Filhas amadas aprendem a se esquivar e a fazerem boas escolhas para o casamento, porque aprenderam um sadio modelo de masculinidade em sua casa.

Filhos precisam de pais!

Viver é perigoso!


Não é fácil manter a vida num nível satisfatório de realização pessoal. Não raramente somos consumidos por ansiedade e insegurança, porque a vida possui esta capacidade de ser dinâmica, de desinstalar, de mudar a rota e a rotina. Por isto Guimarães Rosa afirmou: “Viver é perigoso!”
Desânimo, depressão, incertezas, dúvidas, angústias, medos reais e imaginários, estão sempre ao redor, e não é preciso nenhuma teoria conspiratória para explicar isto. Não raramente temos sensação de abandono, de solidão, de rejeição, de não sermos amados, de que vão nos trair. O que difere a situação anormal da normal nestes casos, é apenas a intensidade.
Manter a vida num nível satisfatório é complexo.
Jesus, dialeticamente, levanta uma questão: “Se o grão de trigo não morrer, fica ele só; quem quiser preservar a sua vida, perdê-la-á, mas quem perder a sua vida por amor do meu nome, achá-la-á”. Para Jesus o segredo não estava na capacidade de controle que temos sobre a vida, mas na capacidade de descansar. A onipotência mostra-se insuficiente e frágil. Quem luta para ter o controle, segue em direção à confusão e o engano.
Não temos condições de articular o futuro nem de impedir que males nos sobrevenham. Naturalmente precisamos ser cuidadosos e sábios. “prudência e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém”, mas a verdade é que a luta para manter todas as coisas debaixo do controle mostra-se inútil, transformando-se em angústia, ansiedade, neurose fóbica e obsessão.
Jesus tenta ensinar isto aos discípulos: “Por isto vos digo: Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber, nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais que o alimento e o corpo mais que as vestes? Observai as aves dos céu: Não semeiam, nem colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura não valeis vós muito mais que as aves? Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso de sua vida?”. Estas palavras parecem soar como descaso com a vida, mas não é esta a proposta de Cristo. Ele quer que coloquemos nossa confiança não na nossa capacidade de controle e onipotência, mas na provisão e cuidado de Deus.
Os discípulos naqueles dias também tinham suas preocupações e estavam cheios de incertezas. As pessoas morriam cedo, qualquer infecção mais grave sem antibiótico, poderia ser fatal. Não havia sistema de aposentadoria nem leis trabalhistas. Pessoas idosas e sem saúde enfrentavam muitas dificuldades. No entanto, Jesus insiste em que elas ponham sua confiança no sustento que vem de Deus.

Onipotentes e controladores, tentamos manter todas as coisas sob nosso controle, mas a verdade é que nenhuma garantia temos sobre o amanhã, a saúde, finanças ou a vida. Seu seguro de vida não segura sua vida nem o protege. Precisamos descansar, confiar no Pai Eterno, que cuidou de nós até hoje e vai continuar cuidando.

Estabilidade


Não é fácil falar de estabilidade numa sociedade instável e incerta. Dentre os conhecidos votos monásticos, os candidatos à reclusão tinham que fazer quatro votos: Pobreza voluntária, castidade, obediência e estabilidade. Todos estes votos parecem tão estranhos à nossa realidade. A pobreza voluntária é confrontada com a ambição e o espírito capitalista. Castidade parece mais um palavrão que uma virtude; a obediência é confrontada com a insubmissão e a autonomia que parece valores tão caros hoje em dia. Estabilidade? Alguém sabe o que é isto???
Cabe dentre os conceitos modernos a palavra fluidez, agilidade, transitoriedade, movimento, liquidez – estabilidade nunca. Não é sem razão que os empregos são tão instáveis, famílias são tão transitórias, o amor tão liquido... o que ninguém considera é quanto a instabilidade pode ser danosa para nossas emoções.
Considere o trabalhador. São poucos os que permanecem longo tempo e fazem carreira dentro de uma empresa. Eles não acreditam que a empresa tenha preocupação com eles, e eles também não se preocupam com a empresa.
Em relação aos afetos, vivemos dias de amor líquido. Um amor plasmático, transitório. “Ficamos” para não ter que realmente ficar. Criamos contratos para não fazer alianças. Contratos possuem cláusulas de vantagens e riscos calculados. Quem se arrisca a entrar num relacionamento sem que as regras, as normas, as alíneas não estejam claras? Alianças possuem sacralidade, conceito de Eterno, presença de Deus, compromisso.
Filhos vão ficando pelo caminho, sem entender as mudanças, por mais que se convencione estar tudo dentro da normalidade. Hoje estão com o pai e a mãe; amanhã com o pai e a amante; noutro dia com a mãe e o novo companheiro, e quando os pais não se acertam ainda existe a possibilidade da casa do avô e da avó. Esta transitoriedade pode ser perniciosa porque quebra os fundamentos essenciais da psiquê que precisam de rituais e convenções. Recentemente um casal de amigos queria levar o filho de 3 anos para a Disney. Considerei que a quebra de rituais é muito boa pessoas adultas de férias, mas que crianças precisam de horário, e para esta idade, a não ser o fato de que os pais se distanciam por 12 dias, estar na casa do avô com comida no horário certo, brincando na piscina de plástico com os priminhos, é mais agradável do que o burburinho e agitação de uma viagem.

A instabilidade gera stress. Eventualmente as coisas sairão do controle e teremos que lidar com elas, mas não ter regras nem valores, noções de tempo e espaço, regularidade, rituais, hábitos corriqueiros e certa disciplina de horário e alimentação podem trazer graves distúrbios de ansiedade, angústia e até depressão. 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Tomando as decisões corretas


Decisões tem o poder de mudar nossa vida. Para sempre. Seja para o pior ou para o melhor. O problema é que nem sempre consideramos isto quando as tomamos.
Somos livres para fazer o que queremos, mas fundamentalmente nos transformamos naquilo que escolhemos. Você não pode fazer uma opção por x e se tornar z; não pode plantar abacaxi e colher manga, ou como afirmou Jean-Paul Sartre: “Eu sou a minha decisão”. Quando tomamos uma posição, a menos que decidamos posteriormente fazer outra coisa, seremos o que escolhemos ser. Infelizmente nem sempre podemos mudar o itinerário. Algumas decisões são irreversíveis. Uma vida tirada por uma imperícia, violência, por um acidente, não pode ser restaurada. A morte é inflexível.
No Canadá existe uma rodovia, construída numa região montanhosa e de difícil acesso, com muito pouco movimento numa região quase inabitável. Bem antes de entrar nela existe muita sinalização advertindo os motoristas: “Cuidado antes de entrar nesta rodovia, porque só existe retorno daqui a 40 Kms”. 
A famosa música do Eagles, Hotel Califórnia, parece falar desta complexa situação dos hóspedes de pessoas que fazem uso daquela hospedaria, ao mesmo tempo tão atraente e tão sinistra, que muitos afirmam ser uma referência às drogas:

Espelhos no teto, a champagne rosa no gelo
E ela disse: "Nós todos somos apenas prisioneiros aqui
Do nosso próprio ardil"
E nas salas dos chefes
Eles reuniam-se para o banquete
Eles apunhalam com suas facas de aço
Mas simplesmente não conseguem matar a fera

A última coisa que me lembro, eu estava
Fugindo para a porta
Eu tinha de encontrar a passagem de volta
Ao lugar onde estava antes
"Relaxe", disse o homem da noite
"Nós estamos programados para hospedar
Você pode desocupar o quarto a qualquer hora que desejar
Mas você nunca pode ir embora! "


As decisões de hoje impactam a história, a vida de amigos, sua espiritualidade, finanças, familiares, filhos. Por isto é necessário ter cautela e prudência. A Bíblia afirma que “ o simples vê o perigo e se esquiva, mas o simples passa adiante e sofre a pena”.

Antes de andar pelas rotas sinuosas que você pretende entrar, considere os riscos. Nem todo ganho é ganho, nem toda perda é perda. Nem tudo o que reluz é ouro. Todas as maças do diabo são bonitas, mas todas têm bicho.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Como reagir a situações provocativas?




Tereza me procurou porque não sabia o que fazer com as coisas que estavam acontecendo em sua casa, especialmente no relacionamento com sua mãe, fortemente dominadora e controladora, que não gostava de ser contrariada, mas não hesitava em fazer os comentários mais diretos e ferinos em quaisquer situações.

O marido de Tereza criou ojeriza à sua mãe, e já não queria mais frequentar sua casa. As coisas ainda ficaram mais tensas porque um dia, no meio de uma discussão acalorada da família, da qual o marido sempre fugia e não participava, a mãe de Tereza se aproximou dele e lhe disse que ele deveria dizer determinadas coisas para sua esposa, e ele respondeu secamente: “as coisas que tenho que dizer para minha esposa eu digo pessoalmente e não em público”. Isto foi o suficiente para sua mãe se afastar de sua casa, e romper o relacionamento afirmando que só voltaria a conversar com ele se lhe pedisse perdão. E ele não sente que deveria fazer isto...

Sua mãe, após a morte de seu pai na mocidade, tornou-se a pessoa responsável pela casa. Ela provia, buscava recursos, orientava a vida doméstica, se tornou-se uma pessoa forte, abriu empresas com sua irmã, que era um desastre em todo empreendimento, e casou-se com um homem que decidiu, para não viver brigando, não contestar a temperamental esposa. Mas, agora, aproximando-se dos 70 anos, ela percebe que está perdendo o poder, e se tornou, segundo a linguagem de Tereza, uma mulher “má”. Ela parece fazer as coisas sem se preocupar se vai ou não ofender as pessoas. Todos os sábados ela e suas irmãs se reúnem, e as altercações são muito comuns, mas a mãe de Tereza precisa ter sempre a razão. Para não brigar, as pessoas se calam e evitam confronto.

Chegamos à conclusão de que sua mãe estava reagindo ao fato de perceber não ter mais o controle como tinha anterior. A idade estava impondo limitações. Ela queria dar tudo aos filhos, mas tendo o privilegio de coordenar suas vidas. Ela aprendeu a ser provedora, mas com isto, surgiu a variável do controle. Gostava de dar coisas à família, para assumir o domínio, e se a recompensa não vinha, assumia comportamento de vítima. Afirmava que as pessoas não a entendiam e eram ingratas, porque apesar de ter dado isto e aquilo, a família a tratava “desta forma”. Agora, próxima aos 70 anos, ela percebe que seus genros e noras, e mesmo os filhos, não se subordinavam mais ao seu jeito controlador, e na medida em que os anos passavam, ia perdendo, lentamente a força e o controle que sempre teve. Tal condição, certamente a deixava muito vulnerável, porque seu valor estava na eficiência e trabalho, que a idade estava tirando no ciclo natural da existência. Ela não estava encontrando outro valor em que se firmar. Não tinha religião, os filhos estavam se esquivando dela, seu marido criou mecanismos de defesa e  durante as discussões familiares, fingia “tirar uma soneca”, já que, próximo aos 80 anos de idade esta saída era politicamente correta. Apenas suas irmãs, ainda andavam ao seu redor, mas reclamavam constantemente da atitude da irmã, como é próprio de mecanismos e relacionamentos familiares neuróticos.

A filha não estava suportando mais a situação gostaria de ver mudanças.

Na conversa que tivemos, entendemos que ela não deveria esperar muito, porque provavelmente não veria esta transformação desejada.

Um dos grandes problemas que enfrentamos na vida é esperar que o outro mude. Em geral as pessoas não mudam. Mudanças ocorrem somente em eventos dramáticos como acidentes, tragédias, lutos, ou conversões espirituais. Fora disto, as pessoas continuam sendo as mesmas. Mudanças nem sempre são fáceis. Precisamos aprender que se alguma coisa deve ser mudada, deve ser a hermenêutica que faço dos eventos que me acontecem. Fora disto, não há muita esperança.

Na conversa, chegamos à conclusão de que quem deveria mudar era ela mesma. Tereza precisava ter outras percepções, fazer novas leituras e diferentes abordagens – diante do mesmo quadro.

Uma sugestão foi de que ela aprendesse a não se sentir ofendida pelo comportamento da mãe. Ela não poderia mais se surpreender com sua atitude grosseira, que fazia parte do cotidiano. Em outras palavras, não poderia se surpreender com o óbvio. Precisava reagir de forma diferente às atitudes da mãe. Emitir novos comportamentos e reagir de diferentes formas. Ela admitiu que foi isto que seu irmão fez para não entrar na neurose da mãe e ficar digladiando com ela.

Discutimos que o melhor tratamento em situações como esta é aquele que atinge profundamente o coração, traz arrependimento e mudança de vida, mas se isto não acontece, precisamos agir com técnicas behavioristas, na base do reforço positivo e negativo. Ela não quer se distanciar de sua família, mas está se tornando difícil porque todas as vezes surge conflito, as conversas sempre terminam em divergências, e daí em diante todos gritam e as altercações são comuns.Sugerimos que ela aprenda a fugir das situações tensas. Ela já percebeu que seu pai, foge das discussões, ora saindo para colher goiabas, mangas e laranjas na chácara, ora indo para a rede para tirar um cochilo. Pensamos que uma boa sugestão poderia ser a de seguir o exemplo de seu pai. Quando ele estivesse saindo “à francesa”, ela procurasse segui-lo. “Pai, vou contigo”. Desta forma não se distanciaria da família e tiraria proveito daquilo que de bom poderia surgir destes turbulentos encontros familiares.

Normalmente Tereza evita debates e confrontos. Muitas vezes ela vai até o limite emocional, e quando isto acontece ela perde as estribeiras e também começa a gritar e altercar no mesmo nível de sua mãe. O bate-boca torna-se inevitável. Consideramos a possibilidade dela não esperar as coisas chegarem ao extremo, mas que, se tivesse que dizer alguma coisa, respirasse fundo, medisse bem as palavras, antes de estar no limite da agressividade e se tornasse assertiva. Quando sua mãe começasse a gritar e falar alto, ela continuaria dizendo verdades, mas trazendo sua voz não para a gritaria, mas para um semitom, forçando-a a ter que prestar atenção quando ela falava. Ela nunca conseguiria disputar e agir da forma agressiva de sua mãe.

E quanto ao seu marido?

Considerei que ela seria cobrada dele não estar presente às reuniões familiares, mas que ela dissesse que as diferenças entre ele e a mãe, deveriam ser resolvida entre os dois. Que ela amava seu marido e amava sua mãe, e não gostaria de ficar entre duas pessoas amadas numa disputa de atenção. Se existiam diferenças, elas deveriam ser resolvidas com maturidade, entre eles.

Terminei reforçando o princípio:

Sua mãe não vai mudar. Você pode mudar.

Em geral, quando mudamos comportamentos, isto mudança atitudes do outro. Se exigimos mudança, o outro vai se defender ainda mais e endurecer sua posição. Se mudarmos, poderemos ter  ganhos significativos. Mesmo que o outro não mude... aprendemos a lidar com as situações que estão presentes. A verdade é que, na maioria das vezes, não podemos mudar a forma como os outros agem, nem o que fazem conosco, mas podemos determinar que o comportamento do outro não me obrigará a fazer do jeito que ele quer. “não podemos mudar a forma como as pessoas agem, mas não podemos permitir que suas atitudes determinem o que vamos fazer com aquilo que fizeram”.