sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Casamento pode dar certo!



Na semana passada escrevi que “casamento não foi feito para dar certo” e para justificar, enumerei cinco razões: 1. As diferenças latentes entre a alma masculina e feminina; 2. A diferença de gênio e temperamento; 3. O background familiar e histórico; 4. As histórias pessoais de condicionamentos e dores; 5. O egoísmo e narcisismo. Casamento é uma união complexa e possui todos ingredientes para não dar certo.

Neste artigo quero fazer outra afirmação: Casamento pode dar certo! Se você entrar num casamento achando que se ele não der certo vai se separar, é questão de anos, talvez meses, para que você descubra que não deu realmente certo.

Quero me atrever a dar duas sugestões, uma de natureza psicológica, outra espiritual.

Natureza psicológica. 
Entre no casamento, querendo lutar pela sua preservação. Se você se atreve a compartilhar a vida com alguém, seja radical: Invista prá valer! Se entrar pensando que não vai dar não vai durar. Para isto é necessário investir não apenas 50% de seu sonho, mas 100%.
A palavra chave é compromisso. Você vai estranhar o que vou dizer agora, mas o que mantém um casamento não é amor (no sentido de emoção e paixão), mas compromisso. Quando você o assume, isto implica entrar prá valer, decidir lutar, na saúde e na enfermidade, na alegria e na tristeza. Decidir amar e investir, sem suspeita e reservas, não fazer as coisas pela metade. Não é uma barganha ou troca, não se trata de negociação ou vantagem. Você sempre achará que dá mais que o outro, isto é uma conseqüência natural do narcisismo, mas ainda assim continue na entrega. Entre querendo fazer o outro feliz. Casamento não dá certo automaticamente, é necessário querer que ele dê certo!

O segundo aspecto é de natureza espiritual. 
Isto é mais complexo, porque adentramos a dimensão sacral, o universo místico, uma área densa, misteriosa e igualmente importante. O grande segredo é levar Deus para morar em sua casa.

Assim foi o primeiro milagre de Jesus que se deu numa festa de casamento. Sabiam disto? Ele fez tantos milagres impressionantes: Curou cegos, paralíticos, surdos, ressuscitou mortos, mas o primeiro milagre foi numa vila da Galiléia, com cerca de 300 habitantes. Ele foi feito no fundo de casa, escondido de todo mundo, inclusive do mestre de cerimônia. Sabemos que todos os milagres de Jesus possuíam  intencionalidade, havia um motivo presente. O registro bíblico afirma: “Houve um casamento e Jesus também foi convidado” (Jo 2.1-2). Convidados são pessoas apreciadas e consideradas. O casal queria que Jesus estivesse ali, ele não foi à festa como penetra. Era alguém que os donos da festa queriam que estivesse presente.

Casamento não foi feito para dar certo... Nós precisamos fazê-lo dar certo. Mas nem sempre somos capazes de agir de forma correta, precisamos do poder e da graça de Deus. Muitos lares precisam de milagre, de uma intervenção sobrenatural, porque o vinho já acabou, não há mais alegria ou celebração, e o vinho traz textura, paladar, sabor e alegria. Jesus é capaz de trazer um vinho novo. Detalhe importante: O vinho novo é melhor!



segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Casamento não foi feito para dar certo!



                                               
Que me perdoem os românticos, mas casamento não foi feito para dar certo...
Stephen Kanitz no seu artigo “o segredo do casamento”, faz uma paródia sobre o casamento dizendo que não dá para viver a vida inteira com a mesma pessoa, ouvindo as mesmas piadas, freqüentando os mesmos lugares, usando as mesmas roupas e perfumes e com os mesmos hábitos. O segredo é “divorciar” desta mulher, mas casar novamente com ela...
A verdade é que casamento não foi feito para dar certo... Nós precisamos fazê-lo dar certo. Deixe-me enumerar alguns pontos que levam o casamento a não dar certo.
Primeiro, questão de Gênero. Homens e mulheres são diferentes. Larry Crabb afirma que devemos celebrar as diferenças, mas as diferenças, na maioria das vezes, são fonte de irritação. Homem é mais racional, dedutivo, lógico e genérico, a mulher, mais intuitiva, visceral, especifica. Mulher nunca vai entender cabeça de homem, nem homem vai entender cabeça de mulher.
Segundo, temperamento.  As pessoas são muito diferentes, na forma como lidam com a vida, como agem e reagem. Dizem que os opostos se atraem, mas no casamento, opostos tendem a se tornar fonte de irritabilidade. Já ouviram falar de incompatibilidade de gênios? É exatamente do que estou falando. Somos incompatíveis! Se quiser usar esta desculpa para o divórcio, ela se aplica a qualquer relacionamento. Ninguém é compatível de gênio. Pense na sua mulher (ou marido). Existe compatibilidade de gênio entre vocês? “incompatibilidade de gênios é uma frase de grande efeito criada por pequenos juristas, para justificar o divórcio” (Paul Tournier).
Terceiro, formação e educação. As pessoas trazem backgrounds culturais e familiares distintos. Uma vem de herança européia, outra latina; uma do catolicismo, outra do protestantismo; uma é grega, outra é troiana; uma é bahiana, outra goiana; aquela tem formação rígida, inflexível, a outra vem de um lar liberal, frouxo. Numa sociedade plural, nossa procedência é geralmente distinta, cultural, religiosa, educacional. Aí resolvemos nos casar. Estão percebendo como é difícil?
Quarto, experiências e histórias – Ao chegarmos no casamento, já temos uma história de vida marcada por traições, enganos, amores, doenças emocionais. Não somos uma “tábua rasa”. Temos o “infinito particular”, já levamos pancadas, batemos, apanhamos. Aprendemos a criar mecanismos de defesa: reação, introjeção, projeção, deslocamentos. Sabemos acusar e defender, atacar e proteger.
Por último, o narcisismo e egocentrismo.  Achamos que o outro tem de nos fazer feliz, e que deve estar ao nosso dispor. Não entendemos que existe uma solidão na alma, que nenhuma outra pessoa pode resolver e culpamos o outro pelo nosso fracasso. A depressão e mau humor que historicamente nos acompanham a vida inteira afloram no casamento com muita força. Nos frustramos nos relacionamentos porque somos auto enamorados. A síndrome de narciso está presente, olhamos no espelho e acreditamos que “não existe ninguém mais belo do que eu”, e ninguém merece maior consideração...
Por isto precisamos considerar que casamento não foi feito para dar certo... ele tem todos os ingredientes necessários para dar errado. Precisamos fazê-lo dar certo.

Isto envolve vontade pessoal e graça de Deus. Disponha a fazer o seu casamento dar certo. Peça graça de Deus para que você seja capaz de lutar para que ele dê certo!

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A utopia da Primavera



Vem chegando novamente a primavera, estação das chuvas e das flores. Poucas coisas são tão desejadas por nós que vivemos estes dias secos todos os anos, que vão de Maio a Agosto. As árvores, a grama e toda natureza, também anseiam por esta bendita chuva.

Nesta expectativa da primavera, passando pelas ruas de Anápolis, fico criando sonhos, elaborando utopias, imaginando possibilidades. Nossa cidade é realmente privilegiada pelo clima e povo que possui, mas é historicamente mal cuidada, não apenas pelos poderes públicos, mas pelos seus próprios cidadãos. E no meio destes desajustes, fico criando utopias. Eis algumas delas:

Já imaginaram o Rio das Antas, totalmente urbanizado, com pistas de caminhada nas suas margens, onde as crianças pudessem brincar e as pessoas andassem, sem ter que se deparar com lixos que se amontoam nas suas margens? Fico pensando ainda na margem do riacho que sai do Lago JK, cortando a cidade, se todo ele tivesse gramas e quiosques, tocados pela iniciativa privada, que gerariam impostos para a cidade, lucro para seus comerciantes e lazer para seus cidadãos, ao invés de restos de construção? 

Fico imaginando uma cidade na qual os proprietários dos lotes e casas, teriam a obrigação de construir uma calçada padronizada pela cidade, permitindo que os transeuntes caminhassem em segurança nas suas ruas, sem medo de atropelamento, e que os lotes baldios teriam muros de 80 cm de altura e calçadas, como já existem em várias cidades do interior de Minas Gerais, e que os donos seriam responsáveis pela sua limpeza por força de lei?

O que aconteceria se, nesta utopia, os arquitetos projetassem suas obras, não com grandes muros em frente às casas, mas com grades e modernos vidros que demonstrassem a beleza dos jardins escondidos por detrás de nossas casas?

Chico Buarque, na música “Pedro Pedreiro” descreve a luta diária de um operário carregado de esperança que as coisas possam melhorar, e na sua esperança, aguarda em vão, uma sorte, um norte, um bilhete premiado da loteria, algo maior que o mar, mas sua utopia nunca se concretiza, afinal, “prá que sonhar se dá o desespero de esperar demais?”

Prefiro, então, refletir filosoficamente na utopia como a descreveu Rubem Alves. Utopia é um não-topos, isto é, algo que não possui uma geografia definida, que ainda não é encontrado, e não necessariamente o que não pode acontecer. Profetas, filósofos, artistas, músicos e poetas não negam a realidade bruta da vida, mas desejam imaginar uma nova realidade, ainda não presente, mas que pode ser estabelecida.

Pregadores também falam de novos céus e nova terra, falam de uma vida nova em Cristo, anunciam esperança aos perdidos, consolo aos cansados, restauração aos quebrados, possibilidades no caos. Eles precisam “crer contra a esperança”. A utopia dos céus e das promessas de Deus, me fazem sonhar com esta cidade possível, onde lotes baldios se transformem em jardins, logradouros em lugar de descanso, beiras dos rios em lugar de lazer.
A primavera me desafia à utopia.


Sacralização do profano



No artigo anterior analisamos os riscos da dessacralização do Sagrado, agora queremos considerar o inverso: o risco de sacralizar o profano.

Sacralizar o profano é considerar divino o que não é. É chamar bem de mal, mal de bem; amargo de doce e doce de amargo; fazer da escuridão, luz e da luz, escuridão como advertiu o profeta Isaias. Nada pode ser tão pós-moderno que esta dialética perversa. O relativismo moral e espiritual insiste em ser o que não é, e não ser o que é, desembocando inexoravelmente na perversa síntese hegeliana e malthusiana.

Deus disse a Pedro. “Não consideres impuro aquilo que eu já purifiquei”. Hoje o alerta precisa ser inverso: Não sacralize aquilo que é errado, não encontre nomes bonitos para coisas feias, não transforme o não-natural naquilo que é natural, não confunda Deus com o diabo, nem tente tratar o diabo como Deus.
O marketing tem facilidade para distorcer percepções e valorizar o que é inútil. Transformar conceitos verdadeiros em mentiras é uma prerrogativa luciférica. É assim desde o Éden. “É certo que não morrereis. Deus não está bem intencionado, Ele mente. Ele sabe que, no dia em que comerem do fruto, sereis como ele, conhecedores do bem e do mal. Podem pecar que não há conseqüência”. Satanás engana. Faz parecer bom o que é mal, inverte valores e desvirtua a pureza. Não sacralize atos perversos e nem tente dar uma roupagem divina ao diabo. Não transforme a ética depravada em comportamento amoroso e legítimo.

Não só pessoas seculares fazem isto. Religiosos tem mania e obsessão por esta inversão. Dão caráter santo ao que não é santo. Tentam vender o poder de Deus envasado em invólucros de águas bentas, águas sagradas do Rio Jordão ou lencinhos ungidos de auto denominados apóstolos. Transformam madeiras envelhecidas em relíquias terapêuticas, associam eventos comuns a realidades sobrenaturais, sacralizam locais e estruturas dando um caráter santo àquilo que é essencialmente neutro. Fazem romarias para transformar lugares comuns em templos sagrados e lugares da presença e manifestação de Deus, iludindo e confundindo sinceros, desesperados e ingênuos fiéis com maquiagens e roupagens eclesiásticas.

Atribuir caráter místico e esotérico àquilo que é comum é tão vazio e sem efeito como tentar transformar uma pessoa em monge porque vestiu o hábito. Não adianta atribuir sacralidade na esperança de que Deus aprove o gesto. Arão, irmão de Moisés, pediu ouro das pessoas que vieram do Egito para fazer um bezerro de ouro, e declarou que aquele objeto sagrado agora era divino. Não funcionou. O bezerro de ouro era um ídolo, e Moisés o destruiu ao descer da montanha onde recebeu as tábuas da Lei.

Não se sacraliza o profano. Uma ética profana, uma conduta inadequada, um gesto espiritualizado, ainda que venha numa justificativa filosófica e sofismática não muda a realidade daquilo que é essencialmente mal. Pessoas incautas e ingênuas podem até se render a esta roupagem supostamente divina e reverenciá-la, mas atribuir beleza e sacralidade ao mal, nunca foi sensato.




Dessacralização do Sagrado



É fácil dessacralizar o Sagrado.

Vários personagens na Bíblia fizeram isto. O mais conhecido de todos foi Nadabe e Abiú, sacerdotes que trouxeram fogo estranho diante de Deus e por isto morreram. Eles brincaram ou menosprezaram a seriedade do ato que realizavam, estavam diante do Deus Todo-Poderoso, mas não levaram a sério seu oficio. Profanaram elementos sagrados.

Caim é outro personagem cuja história podemos relembrar. Ele e seu irmão Abel saíram para oferecer um sacrifício a Yahweh, era desta forma que prestavam cultos no Antigo Testamento, mas o coração dele estava cheio de ira, e enciumado do irmão, participou do ato religioso, mas ao sair dali, convidou Abel para ir ao campo onde o matou. Estava na igreja, mas seu coração estava com ódio e raiva. Seu culto não valeu nada e ele não teve qualquer escrúpulo em arquitetar um plano de matar o irmão, estando ainda no solene momento de adoração.

Um antigo professor nos advertia como estudantes de teologia: “Tome cuidado para não dessacralizar o Sagrado”. Hoje entendo melhor o que ele nos falou naqueles dias. Podemos participar de um culto ou missa com motivações ímpias e perversas; podemos ler a Bíblia não para aprender dela, mas para questioná-la; podemos transformar nossa espiritualidade em instrumento de dominação e abuso, e nos tornarmos religiosos cruéis justificando atitudes em nome de Deus, usando a religião e a fé como instrumento de manipulação, e assim, o Sagrado perde o seu efeito em nós.

Podemos zombar da fé, das coisas de Deus, dos elementos sagrados, mas podemos ainda, ter aparência de sacralidade, como lobos em pele de ovelhas. A espiritualidade se torna uma camuflagem da malícia. Transformamos Deus em álibi da pouca vergonha, da imoralidade e da preguiça intelectual e/ou moral, justificamos atos em nome de Deus, e a divindade se transforma em subterfúgio de atitudes insanas e perversas.

Quem assistiu seriados como “Os Bórgias” ou “Os pilares da terra”, deve ter se escandalizado e revoltado com as manipulações de homens religiosos. Não é sem razão que muitos se rebelam contra Deus. Muito do nosso ateísmo está ligado, não a Deus, propriamente, mas às representações de divindades que encontramos. São pessoas que deveriam ser sensatas no ofício mas que apenas fazem mimetismos de sacralidade. Deus se torna um simulacro, uma representação. O Sagrado perde o efeito. Dessacraliza-se o Sagrado!

Jesus criticou muitos fariseus com tais atitudes. “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque devorais as casas das viúvas e, para o justificar, fazeis longas orações; por isso, sofrereis juízo muito mais severo! Ai de vós escribas e fariseus, hipócritas, porque rodeais o mar e a terra para fazer um prosélito; e, uma vez feito, o tornais filho do inferno duas vezes mais do que vós!” (Mt 23.14,15). Este é um discurso duro.

Não esvazie as coisas sagradas do coração. Nunca perca a capacidade de ter “assombro” e estar maravilhado diante das coisas sobrenaturais. Não considere profano aquilo que é Sagrado. O falso não anula o verdadeiro.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Os intocáveis



Khaled Hosseini, romancista e médico afegão, em seu livro “Caçador de pipas”, fala dos horrores vividos pelo seu país, Afeganistão, regido pelos Talibãs, um grupo de fanáticos religiosos de extrema direita, que impunha lei marcial, e se considerava além de qualquer julgamento moral ou legal, pois se auto-intitulavam “os guardiões da lei e da moralidade”. Com medo de perder a própria vida, mesmo diante dos flagrantes abusos morais, pedofilia, corrupção e julgamentos de exceção, ninguém podia falar nada.

Em Brasília, são famosas as “carteiradas”, de líderes políticos ou magistrados, do tipo “você sabe com quem está falando?”, cujo objetivo claro é o de constranger policias que procuram manter a ordem do trânsito ou postura em lugares públicos. Mesmo pessoas ligadas a embaixadas, portanto vindos de outros países dominados por sistemas autoritários, chegavam ao extremo de se julgar além do bem e do mal, e acreditar, de fato, que não precisavam se sujeitar à lei. São os intocáveis!

Em Anápolis, manifestações de grupos minoritários parecem estar procedendo da mesma forma. Ao falar deste tema, precisamos lembrar que não devemos julgar o todo pelas partes, Na última passeata gay, um rapaz ligado ao movimento, resolveu que tinha o direito de andar nu, sem qualquer constrangimento, pelas ruas da cidade. No último sábado, dois rapazes se julgaram no direito de trocar caricias, um sobre o outro, no Parque Ipiranga, beijando-se, talvez para demonstrar que tem direito de se expressar, sem considerar que estavam num local público. Apesar do constrangimento generalizado, todos temiam dizer qualquer coisa, com medo de serem acusados de homofobia. São pessoas que se julgam intocáveis.

Religiosos, políticos, ricos e pobres, indígenas ou qualquer outro grupo não pode estar acima da lei. A justiça não isenta nem mesmo aqueles que aplicam a lei: policiais, fiscais, inspetores, promotores, juízes, padres e pastores, adolescentes. Todos estão debaixo do mesmo código de postura e bom senso. Afinal, prudência e caldo de galinha, discrição e bom senso, nunca fizeram mal a ninguém.


“A lei abre os olhos, a lei tem pudor, e inspeta seu próprio inspetor” (Chico Buarque). Não é o rei que é a lei, é a lei que é o rei (Knox). A justiça é auto-aplicável e precisa ser assim exercida. Qualquer grupo que decida radicalizar suas posturas e ultrapassar a fronteira do bem comum e da civilidade, deve ser enquadrado. Isto se aplica a heterossexuais ou homossexuais. Se um rapaz e uma moça querem ter carícias intimas, precisam encontrar lugar apropriado para a intimidade. Que isto fique bem claro!

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Medo da liberdade





Na semana passada o trágico caso Suzane Von Richthofen teve mais um dramático lance. Após ser beneficiada pela progressão ao semi-aberto, por ter cumprido 1/3 de sua pena, e por ter bom comportamento, ela disse que não queria deixar a Penitenciária Feminina 1 de Tremembé (SP), onde cumpre pena de 39 anos e 6 meses, em regime fechado, pelo assassinato dos pais, no ano de 2002.
Em carta enviada à direção do presídio, Suzane disse que pretende esperar a instalação de uma ala de semi-aberto no local, o que só deve ocorrer em seis meses, e que é sua intenção continuar trabalhando na Funap, pois necessita da remissão de pena (de um dia de pena para cada dois trabalhados) e do salário das atividades.
Diante disto tudo, fica a pergunta: O que, realmente, a levou a rejeitar o beneficio que lhe daria certa liberdade?
Várias razões podem estar envolvidas, desde uma estratégia legal planejada pelo advogado, até motivos emocionais.
Suzane pode ter recusado a sair com medo de revanche ou vingança, temendo represálias familiares ou sociais. Pode ter se recusado ainda, porque depois de 12 anos na cadeia, sente-se insegura e sem o treinamento adequado para lutar pelo seu salário fora da cela, ter que trabalhar e garantir sua própria sobrevivência, ainda mais tendo que superar o enorme estigma de ter sido cúmplice no assassinato de seus próprios pais.
Existe ainda outra possibilidade. Suzane pode estar com medo da liberdade em si. No filme, “O sonho da liberdade”, estrelado por Morgan Freeman, um dos presos se recusa a sair da prisão depois de cumprir a pena. Ele declara que não conseguiria mais viver do lado de fora pois estava bem adaptado à prisão, e por já ter se tornado “vítima da instituição, não queria a liberdade que lhe era oferecida. Ser livre era mais angustiante que viver como preso o resto de sua vida.
Nem sempre as pessoas querem ou sabem lidar com a liberdade, alguns de fato a temem, encontram dificuldade em serem pessoas livres. A liberdade torna-se ameaçadora. Por isto preferem a prisão e se submetem aos seus algozes. É muito comum encontrar prisioneiros das drogas, de sistemas religiosos escravizantes, de governos totalitários e de entidades espirituais que se sentem ameaçados quando pensam em se libertar. Acham que não podem viver sem esta estrutura de poder e tirania.
Por isto é bom considerar que existe um tipo de prisão muito mais sério que uma cadeia. Ela encarcera psicologicamente as pessoas, deixando-a submissas e indulgentes aos abusadores, não são capazes de esboçar qualquer reação. Um caso extremo é a Síndrome de Estocolmo, no qual pessoas seqüestradas se apaixonam por seus algozes.
Na sociedade moderna é possível encontrar mulheres abusadas por maridos inescrupulosos, filhas e filhos tiranizados que sofrem abusos e que não conseguem romper os grilhões Alguns dependentes das drogas, pornografia e do álcool, não conseguem imaginar como seria viver livre, porque a possibilidade da liberdade, em si, já é uma tortura.
Outros optam pelo auto-encarceramento, por causa da culpa. É um mecanismo de auto punição. Sentem-se culpadas e incapazes de viverem em liberdade. São almas cativas de seus exatores e tiranos, aprisionadas pela culpa.

Esta certamente é uma das vertentes possíveis da afirmação que Jesus fez aos judeus escravizados pela sua própria religiosidade: “Examinais as Escrituras porque julgais ter nelas a vida eterna, e fazeis bem, porque elas testificam de mim, contudo, não quereis vir a mim para terdes vida”. Eles recusavam a vida que Cristo lhes prometia. Ter acesso à liberdade, nem sempre é suficiente para nos tirar da prisão.