quinta-feira, 1 de março de 2012

Contentamento

Estudiosos do comportamento humano chegaram à conclusão de que o apóstolo Paulo teria sido o homem mais feliz da terra, por causa de uma declaração que fez sobre seu estado de espírito: “Aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Viver com quase nada ou tendo tudo” (Fp 4.11-12).
Não é fácil viver com contentamento no coração. São muitos os dissabores da vida, muitas situações conflitivas e facilmente nos tornamos murmuradores, descontentes ou amargos. Já vi muitos que não sabem lidar com a abundância. Quando começam a prosperar, tornam-se competitivos, agressivos e ansiosos pelos bens que possuem e quase não tem condições emocionais de desfrutar da prosperidade que alcança. Não é raro vermos pessoas que podem trocar o carro todo ano, fazerem as viagens que quiserem, irem a caros restaurantes, mas são desprovidas de alegria interior. São capazes de voltar de um suntuoso cruzeiro e estarem com suas almas em frangalhos, vivendo num “desespero silencioso”(Thoreau).
Muitos não sabem encontrar contentamento quando enfrentam situações de pobreza ou escassez, ou quando atravessam períodos difíceis da vida. Não estou falando de ficar feliz com a dor em si, mas no meio da tristeza, encontrar significados e valores maiores. Por não conseguirem lidar com a perda, a doença e a dor, começam a blasfemar e a maldizer. Não conseguem viver contentes.
O Segredo
Só existe um meio de experimentar contentamento: Nossa alegria deve ser encontrada em Deus. Se dependermos das circunstâncias ou situações agradáveis ou negativas, seremos escravizados pelo vaivém das próprias condições da vida. Paulo afirma que “aprendeu a viver contente”. Não diz que viver desta forma era algo natural, que ele trouxera no seu DNA ou no seu temperamento, pelo contrário, afirma ter aprendido a viver assim.
Seu contentamento estava em Deus. Aprendeu a viver acima das circunstâncias porque orientava sua vida em alguém que vivia acima das variações humanas. Ao entender que sua vida estava nas mãos de Deus, aprendeu a descansar. Por isto declarou: “Tudo posso naquele que me fortalece”.

O desafio de cuidar da cidade

A presença das cidades é marcante na Bíblia. Apenas nos livros de Lucas e Atos, as palavras relacionadas a “cidade” aparecem nada menos que 43 vezes: Polis (5); Polin (14); Póleo (10); Pólei (9) e Poleon (1). Isto nos mostra quanto necessitamos de uma teologia da cidade, e um pensar sobre a cidade na qual habitamos.
Um dos princípios mais claros é que precisamos assumir um compromisso constante de oração a seu favor. A Bíblia recomenda que oremos pela nossa cidade – "Orai pela cidade, porque na sua paz tereis paz" (Jr 29.7). A Bíblia recomenda que oremos pelas autoridades – "Antes de tudo, pois, exorto que se use a pratica de suplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito" (1 Tm 2.1-2). Orar deve ser algo que ocupe um item fundamental na nossa agenda, já que ele afirma, "antes de tudo".
Outro princípio é que, precisamos olhar para nossa cidade, não tentando descobrir quanto ela pode nos dar, mas quanto podemos dar-lhe –Muitos cidadãos poluem as ruas, jogam papéis no chão, depredam bens públicos, desvalorizam o que é feito pelo governo. Outros tantos exercem mal sua cidadania, não protegendo sua cidade. O cristão deveria ter o melhor jardim de sua casa, cuidar bem do lixo que coloca na porta, ser um guardião do bem público, e não se aproximar como alguém a quem a prefeitura precisa lhe dar. Muitos acham que prefeitos e secretários são obrigados a arranjar-lhe trabalho, mas esta aproximação é viciosa e prejudicial para o bem público. Se ocuparmos algum cargo, sejamos benfeitores de tal função. Não há nenhum problema em sermos contratados, mas quando formos chamados para tal vocação deveremos exercê-la com integridade e inteireza.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Instituição ou Relação?

Não é raro encontramos casais vivendo juntos longos anos, tendo vida compartilhada, finanças em conjunto, criando filhos, mas que deliberadamente decide não se casar ou estabelecer qualquer vínculo oficial, seja ele civil ou religioso. Li até um comentário que dizia: “Vivemos juntos e felizes por 25 anos, e depois nos separamos”. E o interlocutor pergunta: “Por que se separaram?”. A resposta foi: “Decidimos nos casar!”
Muitos insistem em não se casar porque acreditam que o casamento, enquanto instituição, é muito complicado. O que a maioria não entende, é que viver juntos, cria vínculos legais e de direito, gera envolvimentos afetivos e compromissos emocionais, quer queiramos ou quer saibamos ou não destes fatos. Numa eventual separação, existem indenizações e compensações claramente previstas pela lei, e dores emocionais.
Por outro lado, ao contrário do pensamos, o problema não é a instituição, mas a relação. Um casamento não é mais nem menos complicado que a relação de amasiado. O problema não é o casamento em si, e as coisas não se tornam difíceis porque se tem um papel, mas porque é realmente difícil viver junto... Isto se dá por causa de nossa complexa natureza e pela tendência que temos em exacerbar nosso narcisismo, egocentrismo e individualismo. O grande desafio tem a ver com aquilo que somos, o nosso jeito de agir e pensar, isto complica grandemente a caminhada a dois. Duas pessoas vivendo juntas, com ou sem a formalidade da instituição, tem o grande desafio da abnegação, entrega e liberalidade, afinal, possuem formação social e cultural diferentes, personalidades e hábitos distintos, o que é um grande potencial de desagregação. Manter um relacionamento funcionando a contento exige disposição diária de perdão e diálogo.
Dan Doriani afirma que “a tendência para desapaixonar é tão forte, que os psicólogos dizem que devemos ver uma boda de ouro como veríamos um cachorro andando com duas pernas. Não devemos avaliar se foi bem feito, mas nos admirar que tenha sido feito”.
Ao contrário do que podemos pensar, não é a instituição que dificulta a caminhada de um homem com uma mulher, mas a indisposição em querer cultivar tal relacionamento. A ruptura de um vínculo de casal, oficialmente casado ou não, é sempre complexa porque envolve quebra de sonhos, desmantelamento de projetos, rompimento quase sempre dolorido para uma das partes, e em alguns casos, para ambas as partes.
Por que tememos a institucionalização? Que mensagem ou que motivos nos levam a tal posição? O que ou a quem tememos? O que nos assusta? Talvez se encarássemos de forma honesta e profunda estas questões, sem acharmos de que trata de um discurso moralista ou legalista, poderíamos até continuar amasiados, mas responderíamos num nível mais profundo angústias e complexidades que precisam ser tratadas, e que se não forem, certamente vão aflorar na caminhada a dois.

Que vida Besta!




Meu pai tinha um hobbie que foi cultivado e transmitido para dois de seus filhos. Ele amava caçar, infelizmente (ou felizmente), eu fui o filho que nunca compartilhou de seu lazer, apesar de ter aprendido com ele aquele que meu hobbie preferido: pesca.

Meu pai costumava se embrenhar em matas, às vezes ficando acampado por lá até atingir o seu alvo. Em muitas destas viagens, meus irmãos o acompanharam. 

O irmão mais novo, sempre foi muito entusiasmado com estas viagens, e numa de suas primeiras experiências, ficou suspenso numa rede amarrada entre árvores, esperando que o animal viesse comer as frutinhas que caiam da árvore. Naquela noite, nenhum animal apareceu, exceto um tatu que passou longe de onde se encontravam. Ao voltar para casa, meu irmão perguntou que animal era aquele e recebeu a seguinte explicação: 

-“Quando chega a noite, alguns animais saem para comer. O tatu sai de sua toca, come e volta novamente para sua casinha”. 

Meu irmão, ainda um menino, pensou um pouco e disse: “Eles fazem isto toda noite?” 

Diante da afirmativa de meu pai ele respondeu: 
-“Que vida Besta!” 

Mais tarde descobri que esta reflexão era um veio filosófico do meu irmão, porque Carlos Drummond de Andrade fez a mesma afirmação no seu poema, Cidadezinha qualquer. 

Casas entre bananeiras 
 mulheres entre laranjeiras 
 pomar amor cantar. Um homem vai devagar. 
 Um cachorro vai devagar. 
 Um burro vai devagar. 
 Devagar... as janelas olham. 
 Êta vida besta, meu Deus. 
 De Alguma poesia (1930) 

Acho que esta visão sobre a vida revela o sentimento de milhões de pessoas que apenas trabalham para comer, comem para trabalhar, vestir e dormir; dormem para trabalhar, e vestem para comer e novamente dormem, num ciclo quase infindável de idas e vindas, cuja existência vai desembocar num túmulo frio e ridículo onde cessam todos os sonhos, desejos e frustrações. Uma vida besta, sem sentido e propósito! 

Entretanto, a vida é bem mais que comer, dormir, trabalhar. A vida adquire sentido quando encontra um Norte como referência para sua história. 

Jesus percebeu isto nos seus discípulos, e fez uma afirmação extremamente importante: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância”. Existe alguém que pode transformar esta experiência tola de existir em uma vida plena de significado. 

Jesus afirmou: “Quem crê em mim, do seu interior fluirão rios de água viva!”. 

Não é exatamente para esta direção que nosso coração tão ansiosamente anseia caminhar?

Jogando o lixo fora

Assim como colocamos de lado a velha agenda do ano que se passou e passamos a usar uma nova, seria interessante que, ao começar um novo ano, pudéssemos jogar no lixo papéis e objetos sem importância. Nossas gavetas precisam ser esvaziadas, o guarda roupa precisa de mudanças, existem coisas que foram muito importantes, mas que agora já não interessam mais.
Simplificar, esvaziar, reorganizar, nem sempre é muito comum no espírito capitalista cuja lei principal é: “tenha lucros, acumule, ajunte!”. Esvaziar gavetas, reorganizar armários pode ser uma atitude agradável e deve ser praticada.
Esta atitude, porém, aponta para um aspecto simbólico ainda mais importante: precisamos esvaziar sentimentos recalcados, experiências podres e doloridas, ressentimentos, que são sentimentos antigos. Tirar coisas do velho armário pode apontar para a necessidade de doarmos, sermos generosos, repartir.
Por causa do meu trabalho já fiz várias mudanças de domicílios. Uma destas situações, porém, foi inusitada. Fazia muito frio e nevava no dia em que estávamos carregando o caminhão de mudança. Amigos vieram nos ajudar a colocar móveis, sacolas e caixas dentro do baú. A nova cidade ficava cerca de 500 kms de distância, e pretendíamos entregar o caminhão ainda no outro dia.
Chegamos cansados ao novo endereço, acompanhados de um amigo especial da família que resolveu nos acompanhar e nos dar apoio. Ele era uma pessoa muito querida e deixá-lo para trás foi uma das coisas difíceis naquele momento de nossa vida. Ao chegarmos ali, mesmo cansados, resolvemos descarregar o caminhão, e começamos a rir de um cômico fato que estava acontecendo. Como muitas pessoas nos ajudaram a carregar o caminhão, alguns sacos de lixos e caixas que deveriam ser descartadas, vieram juntos na mudança. Mudamos para uma nova casa, mas trouxemos o lixo da antiga. Levamos conosco aqueles indesejáveis sacos de lixo.
Penso que esta é uma boa alegoria da vida. Queremos mudança, mas não abrimos mão do lixo de nossa história, de nossos arquivos mortos, de memórias improdutivas, de traumas vivenciados. Os anos mudam, a gente muda, mas a mente e o coração continua azedo e mal resolvido, culpando amigos, a vida e o próprio Deus. Fernando Pessoa afirma: “Ser feliz é deixar de ser vítima das pessoas e ser senhor da sua própria história”.
Que neste ano, os indesejados sacos de lixo de memórias imprestáveis, de relacionamentos depressivos, possam ser jogados fora. Aproveite para limpar seu guarda roupa, esvaziar as gavetas entulhadas de parafusos, fios e papéis absolutamente desnecessários. Jogue fora o lixo, mas dê um pouco do muito que você tem recebido. Você vai entender então, o significado do que Jesus ensinou: “Mais bem aventurado é dar que receber”.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A Hora da Verdade

Nesta semana, os jornais noticiaram mais um lance complicado do australiano Julian Assange, criador do wikileaks, que conseguiu ter acesso a documentos secretos de governos e corpo diplomáticos, expondo-os na internet. O problema se tornou mais grave agora, porque com a exposição do nome de pessoas e informantes em todo mundo, colocou em risco suas vidas. Num comentário sobre esta notícia, um articulista concluiu: “Uma prova de que verdade demais, às vezes, atrapalha”.
Transita também no Congresso Nacional um projeto de lei sobre a criação da “Comissão da Verdade”, que procura desvendar os descaminhos de um triste capítulo de nossa história durante a ditadura militar, e a busca de respostas e informações sobre presos políticos que foram julgados, torturados e executados, sem que tivessem direito a um tribunal ou defesa, prerrogativas próprias de governos democráticos.
Diante da possibilidade da abertura desta caixa de pandora, muitos estão amedrontados. A verdade, nem sempre é recebida com alegria. Muitos vivem angustiados com seus segredos, temendo que aspectos negros de sua história, se tornem conhecidos. Conta-se a história de um homem que enviou 10 telegramas anônimos para diferentes empresários da sua cidade afirmando: “Já sabemos de tudo!”, e no outro dia, todos eles fizeram uma “viagem de urgência” e desapareceram.
Jesus, no entanto declarou: “Pois nada está oculto, senão para ser manifesto; e nada se faz escondido, senão para ser revelado”. Por isto a Bíblia sempre menciona esta “hora da verdade”, quando todos compareceremos diante do justo juiz, que julgará vivos e mortos, e, diante do qual, não se esconde nada de bom ou de ruim. Ele não julgará apenas atos, mas motivos e intenções. Não aspectos objetivos, mas também os subjetivos.
O caminho que Deus propõe para nossa vida é sempre o da confissão, e nunca o do acobertamento. “O que encobre suas transgressões, jamais prosperará, mas o que confessa e deixa, alcançará misericórdia”.
Jaqueline, uma mística cristã da idade Média afirma que “Confissão é a antecipação do juízo”. Como todos teremos que prestar contas a Deus, então é melhor que não aguardemos para o dia do juízo, mas que resolvamos logo nossa pendência. Quando lançamos luz no mal que tememos, afugentamos as sombras de nosso coração, nos livramos da acusação, culpa e condenação, e somos libertos para voltar a viver. Boa parte de nossas doenças psiquiátricas se devem a algum mecanismo de culpa e medo, real ou imaginário. Viver se escondendo a vida inteira gera tormento e martírio.
A hora da verdade não deve ser adiada. Nada a temer senão a farsa, os artifícios, os esquemas e as sombras – A luz traz claridade, aquece e lança fora mofos e fungos, que como o mal, crescem melhor na penumbra e nos porões de nosso inconsciente. A Bíblia nos convida, não a fugirmos, mas a nos aproximarmos do “Pai das luzes”. Isto pode parecer ameaçador, mas é terapêutico!

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A incurável Dor

Aos 27 anos, Amy Winehouse foi encontrada morta, assim como outros famosos e mitológicos artistas que morreram ainda na juventude: Jimmy Hendrix e Kurt Kobain, se foram com a mesma idade, e provavelmente pela mesma razão - overdose. Todos estes pop stars tiveram características similares: Vidas atribuladas, escândalos, internações, fama, riqueza, popularidade e muito vazio existencial.
Creio que a característica comum em todos eles é o quadro definido psiquiatricamente como “angústia primal”, que gera um vazio enorme na alma e uma dor sem cura. A ausência de significado, associada ao uso da droga é quase sempre uma mistura fatal. O que leva pessoas tão celebradas a seguirem este caminho da auto destruição nas drogas e no alcoolismo?
Algum tempo atrás, o ex-presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, Fez uma declaração estranha: "Bobagem essa coisa que inventaram que os pobres vão ganhar o reino dos céus. Nós queremos o reino agora, aqui na Terra. Para nós inventaram um slogan que tudo tá no futuro. É mais fácil um camelo passar no fundo de uma agulha do que um rico ir para o céu. O rico já está no céu, aqui. Porque um cara que levanta de manhã todo o dia, come do bom e do melhor, viaja para onde quer, janta do bom e do melhor, passeia, esse já está no céu".
Ao acompanharmos a trajetória de Winehouse, podemos ver que Lula está equivocado: Riquezas, conforto e popularidade não são capazes de resolver a dor de um coração insatisfeito. “Mais de nada, leva-nos a lugar algum”... Blaise Pascal, matemático e filósofo, afirmou que “o homem tem um vazio em forma de Deus”.
É com compaixão e tristeza que vemos mais uma pessoa talentosa como Winehouse, perder a batalha da vida, porque não encontrou resposta para sua dor incurável, sua solidão e angústia. A droga que ela consumia e que a consumiu é apenas a ponta do iceberg da sua incurável dor, assim como de milhares de outros que também caminham entre nós, com este “pesado e vazio” sentimento de que lhes falta algo.
Fico pensando se não foi por esta razão que Jesus fez aquele convite conhecido: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve" (Mateus 11:28-30).
Riqueza, fama e popularidade não conseguem nos levar até o céu e nem impedem que o inferno adentrem nosso coração. O inferno não está ausente na vida das celebridades e do homem comum. Inferno, antes de ser um lugar, é um estado de alma.