Nesta semana iniciaremos uma série de artigos sobre o Decálogo. Durante séculos estas Leis se tornaram referência normativa para grandes nações, inspirando pensadores, legisladores e reis.
Os Dez Mandamentos foram entregues a Moisés, por volta do ano 1250 a.C., nos dias de Ramsés II, logo depois que o povo de Israel se libertou do cativeiro egípcio, ao qual esteve subordinado por 430 anos. O povo encontrava-se aos pés do Monte Sinai, e as leis foram dadas para prover regras sobre relacionamentos dos homens com Deus e homens com homens.
Antes de entregar os mandamentos, Deus “justificou” ou “explicou” a necessidade de tais leis, por isto hoje, vamos analisar estas “razões”. Este prólogo clarifica os motivos pelos quais devemos atentar para estes preceitos.
Duas razões foram apresentadas:
1. “Eu sou o Senhor” – (Ex 20.1) Nesta afirmação Deus revela quem Ele é. O povo vivera em meio a muitos deuses pagãos da cultura egípcia que adorava entre tantos o Rio Nilo e o deus Ápis, representado por um touro. Quando Moisés é enviado para libertar aquele povo, parece que não conhecia intimamente o Deus verdadeiro, porque lhe pergunta: “Quando os filhos de Israel me indagarem qual o teu nome, que resposta lhes darei?” E Deus lhe responde enigmaticamente: “Eu Sou o que Sou”. Neste prólogo aos Dez Mandamentos, Deus faz questão de apresentar sua identidade, de entregar seu cartão de visita.
2. “...Que te tirou da casa da servidão” (Ex 20.1) Curiosamente Deus não se revela como o Deus criador, juiz, ou legislador, mas sim libertador; com isto demonstra o tipo de relacionamento que ele queria ter com o povo. Deus queria que o povo o reconhecesse como alguém que o chamava para ser livre, que nunca mais se submetesse novamente ao jugo de escravidão moral ou físico. Não queria que o povo estivesse cativo, mas que vivesse em liberdade, justiça e fraternidade com todos os homens.
Os Dez Mandamentos são divididos em dois blocos: Os primeiros orientam sobre a atitude dos homens para com Deus, os seis últimos sobre os relacionamentos humanos. São normas para conduta humana, prescrições morais. Muitos vêem a Lei como instrumento de opressão, e temos que reconhecer que muitas vezes ela foi usada com tal objetivo, mas na verdade as leis existem para libertar, tornando-se indicadores que nos ajudam a esquivar de erros que nos afastam do projeto de Deus para nossas vidas.
Alguns imaginam os Dez Mandamentos como tradições fossilizadas, afirmando que ainda os adotamos devido à nossa necessidade de símbolos, já que gastamos os primeiros dez ou vinte anos das nossas vidas aprendendo os símbolos culturais (palavras, números e imagens) e por isto confundimos símbolos com a realidade. Este argumento é fácil de ser destruído. Imagine uma cultura na qual a quebra destes mandamentos se tornasse comum: Que o falso testemunho, o adultério, o assassinato, e a quebra dos demais, fosse considerada normativa. Seria esta uma sociedade viável?
Os mandamentos são dados para a vida. Não servem como instrumentos de punição, mas para organização de uma sociedade para que a vida seja celebrada. Para isto servem os Dez Mandamentos.
segunda-feira, 16 de outubro de 2006
segunda-feira, 2 de outubro de 2006
Educação Política
Recentemente me chegou às mãos um interessante livro sobre educação financeira: “Pai rico, pai pobre”. O autor defende a idéia de que a maioria das pessoas não possui capacidade de ganhar dinheiro porque não tem uma mente educada para isto, e então sugere que as escolas tenham uma matéria chamada “educação financeira”, onde as crianças aprenderiam desde cedo a entender a lógica do sistema, a viver dentro de um orçamento e fazer projetos nesta área.
No início dos anos 70, Harvey Cox falava de uma “teologia da política”. Ele entendia que era importante discutir e orientar as pessoas para que pudessem se envolver no processo da construção de uma sociedade. Por isto estou proponho uma nova matéria nas escolas: A Educação Política.
Obviamente muitos irão questionar a validade da proposta. Uma das grandes dificuldades seria encontrar professores habilitados para educar as próximas gerações, mas certamente temos que começar de algum ponto, e este é um momento mais que apropriado para esta discussão, considerando a falta de capacidade crítica que nos cerca.
Por causa dos constantes escândalos e abusos do poder, a tentativa imediata de muitos é o abandono do compromisso democrático. Até mesmo gente bem preparada academicamente está pensando em votar nulo ou branco. Isto mostra quão pouco entendemos política.
O mundo político tem sido demonizado por determinados setores, como se a única coisa que pudesse sobreviver neste pântano fossem as cobras e grandes crocodilos. A ausência de uma consciência política impede a reflexão e a articulação madura sobre as questões públicas e sociais.
A participação política do ser humano tem um papel pedagógico, e o capacita a sair da situação de mero expectador da história, levando-o a superar o seu processo de alienação e a assumir plenamente sua politicidade. É também uma ferramenta apropriada para a crítica e a elaboração de leis que beneficiem a comunidade como um todo, não apenas certos setores socialmente privilegiados. Ajudaria ainda a exercer não apenas um papel de denúncia, mas a buscar soluções práticas e efetivas.
O pessimismo, o cinismo, a falta de esperança são fatores que conspiram contra a mobilização social. Samuel Escobar afirma: “no passado nos disseram para não nos preocuparmos em mudar a sociedade, porque precisamos mesmo é mudar os homens. Homens novos mudarão a sociedade. Mas quando os homens novos começam a se interessar em mudar a sociedade são avisados para não se preocuparem, que o mundo sempre foi mau, que esperamos novos céus e nova terra”.
O Evangelista Charles Finney afirmou: “impedem-se os reavivamentos quando igrejas assumem posições erradas com respeito aos direitos humanos”. Uma Educação política, seria portanto, de enorme valia para a futuras gerações.
A educação política poderia ser de enorme valia para corrigir não apenas a deformação metodológica de extremistas do MST, de políticos oportunistas da direita, de malandragens de políticos fisiologistas, mas abriria a mente das futuras gerações para aprender a julgar e a interpretar melhor os eventos históricos do presente.
No início dos anos 70, Harvey Cox falava de uma “teologia da política”. Ele entendia que era importante discutir e orientar as pessoas para que pudessem se envolver no processo da construção de uma sociedade. Por isto estou proponho uma nova matéria nas escolas: A Educação Política.
Obviamente muitos irão questionar a validade da proposta. Uma das grandes dificuldades seria encontrar professores habilitados para educar as próximas gerações, mas certamente temos que começar de algum ponto, e este é um momento mais que apropriado para esta discussão, considerando a falta de capacidade crítica que nos cerca.
Por causa dos constantes escândalos e abusos do poder, a tentativa imediata de muitos é o abandono do compromisso democrático. Até mesmo gente bem preparada academicamente está pensando em votar nulo ou branco. Isto mostra quão pouco entendemos política.
O mundo político tem sido demonizado por determinados setores, como se a única coisa que pudesse sobreviver neste pântano fossem as cobras e grandes crocodilos. A ausência de uma consciência política impede a reflexão e a articulação madura sobre as questões públicas e sociais.
A participação política do ser humano tem um papel pedagógico, e o capacita a sair da situação de mero expectador da história, levando-o a superar o seu processo de alienação e a assumir plenamente sua politicidade. É também uma ferramenta apropriada para a crítica e a elaboração de leis que beneficiem a comunidade como um todo, não apenas certos setores socialmente privilegiados. Ajudaria ainda a exercer não apenas um papel de denúncia, mas a buscar soluções práticas e efetivas.
O pessimismo, o cinismo, a falta de esperança são fatores que conspiram contra a mobilização social. Samuel Escobar afirma: “no passado nos disseram para não nos preocuparmos em mudar a sociedade, porque precisamos mesmo é mudar os homens. Homens novos mudarão a sociedade. Mas quando os homens novos começam a se interessar em mudar a sociedade são avisados para não se preocuparem, que o mundo sempre foi mau, que esperamos novos céus e nova terra”.
O Evangelista Charles Finney afirmou: “impedem-se os reavivamentos quando igrejas assumem posições erradas com respeito aos direitos humanos”. Uma Educação política, seria portanto, de enorme valia para a futuras gerações.
A educação política poderia ser de enorme valia para corrigir não apenas a deformação metodológica de extremistas do MST, de políticos oportunistas da direita, de malandragens de políticos fisiologistas, mas abriria a mente das futuras gerações para aprender a julgar e a interpretar melhor os eventos históricos do presente.
segunda-feira, 25 de setembro de 2006
Deformação metodológica
Hesitei em escrever este artigo antes das eleições. As idéias já estavam claras na minha mente mas considerei que poderiam dar idéia de propósitos eleitoreiros. Como não estou defendendo a bandeira de nenhum partido, senti-me livre para fazer uma análise sobre o principal programa do governo Lula, que se tornou em seu grande trunfo eleitoral: O Bolsa-Família.
Qual é o problema de qualquer programa assistencialista?
Já em 1969, Paulo Freire escrevia com grande lucidez sobre este assunto em Educação como prática da Liberdade (Rio, Paz e Terra). Sua abordagem pedagógica é impressionante.
Para Freire, os programas assistencialistas roubam dos pobres o seu maior valor que é a dignidade, privando-os de uma inserção comunitária. Como não são convidados a refletir sobre suas possibilidades, não conseguem “fazer-se críticos e, por isso, (...) se tornam criticamente otimistas” (op. cit. 54)
Com tal compreensão, Freire demonstra que ao deixarem de ser passivas e tornarem-se agentes de sua história, “a desesperança das sociedades alienadas passa a ser substituída por esperança, quando começam a se ver com os próprios olhos e se tornam capazes de projetar (...) na medida em que vão se integrando com o seu tempo e o seu espaço” (id. Pg.54).
Os programas assistencialistas inibem a participação do povo nos processos decisórios, criando uma relação de dependência/dominação. Não sendo capaz de se envolver politicamente através do trabalho construtivo e da discussão de sua própria história, perdem o sentido da esperança. O impotente, que sequer pode trabalhar, está morto. “Quem se julga acabado está morto. Não descobre sequer sua indigência” (Id. pg 53).
O assistencialismo contradiz a vocação natural da pessoa e “faz de quem recebe a assistência um objeto passivo, sem possibilidade de participação do processo de sua própria recuperação” (id. Pg. 57). Freire vê nisto uma forma de agressão: “Violência do seu antidiálogo, que, impondo ao homem mutismo e passividade não lhe oferece condições especiais para o desenvolvimento ou a “abertura” de sua consciência (id. Pg.57). Este é o resultado didático do ócio remunerado ou da esmola oficial.
Luiz Gonzaga, antes destas reflexões de Freire, disse com muita propriedade:
“Mas doutor uma esmola,
A um homem que é são,
Ou lhe mata de vergonha,
Ou vicia o cidadão”.
(Vozes da seca, Zé Dantas e Luiz Gonzaga, 1953).
Jesus, ao encontrar um paralítico, disse-lhe: “Levanta-te,toma o teu leito e anda”. Interessante esta forma didática de ensinar. Jesus inspira fé e capacita o ser humano a andar com suas próprias pernas e a não depender de outro para carregar o seu próprio leito. Poderia apenas lhe dizer que estava curado, mas resolve capacitá-lo a romper o círculo de dependência que sempre caracterizara sua vida.
A prática da liberdade envolve este processo de capacitação do ser humano. Ninguém será livre, se a dignidade, o valor próprio e a esperança não lhe for entregue.
Qual é o problema de qualquer programa assistencialista?
Já em 1969, Paulo Freire escrevia com grande lucidez sobre este assunto em Educação como prática da Liberdade (Rio, Paz e Terra). Sua abordagem pedagógica é impressionante.
Para Freire, os programas assistencialistas roubam dos pobres o seu maior valor que é a dignidade, privando-os de uma inserção comunitária. Como não são convidados a refletir sobre suas possibilidades, não conseguem “fazer-se críticos e, por isso, (...) se tornam criticamente otimistas” (op. cit. 54)
Com tal compreensão, Freire demonstra que ao deixarem de ser passivas e tornarem-se agentes de sua história, “a desesperança das sociedades alienadas passa a ser substituída por esperança, quando começam a se ver com os próprios olhos e se tornam capazes de projetar (...) na medida em que vão se integrando com o seu tempo e o seu espaço” (id. Pg.54).
Os programas assistencialistas inibem a participação do povo nos processos decisórios, criando uma relação de dependência/dominação. Não sendo capaz de se envolver politicamente através do trabalho construtivo e da discussão de sua própria história, perdem o sentido da esperança. O impotente, que sequer pode trabalhar, está morto. “Quem se julga acabado está morto. Não descobre sequer sua indigência” (Id. pg 53).
O assistencialismo contradiz a vocação natural da pessoa e “faz de quem recebe a assistência um objeto passivo, sem possibilidade de participação do processo de sua própria recuperação” (id. Pg. 57). Freire vê nisto uma forma de agressão: “Violência do seu antidiálogo, que, impondo ao homem mutismo e passividade não lhe oferece condições especiais para o desenvolvimento ou a “abertura” de sua consciência (id. Pg.57). Este é o resultado didático do ócio remunerado ou da esmola oficial.
Luiz Gonzaga, antes destas reflexões de Freire, disse com muita propriedade:
“Mas doutor uma esmola,
A um homem que é são,
Ou lhe mata de vergonha,
Ou vicia o cidadão”.
(Vozes da seca, Zé Dantas e Luiz Gonzaga, 1953).
Jesus, ao encontrar um paralítico, disse-lhe: “Levanta-te,toma o teu leito e anda”. Interessante esta forma didática de ensinar. Jesus inspira fé e capacita o ser humano a andar com suas próprias pernas e a não depender de outro para carregar o seu próprio leito. Poderia apenas lhe dizer que estava curado, mas resolve capacitá-lo a romper o círculo de dependência que sempre caracterizara sua vida.
A prática da liberdade envolve este processo de capacitação do ser humano. Ninguém será livre, se a dignidade, o valor próprio e a esperança não lhe for entregue.
quarta-feira, 30 de agosto de 2006
Ganância, Ambição e Ética
Émerson afirmou: “A ganância e o monopólio reduzem a potência física e mental do povo. O povo afunda-se e corrompe-se na luta para subir” Pensamento vivo de Émerson, pg. 5.
Ganância e Ambição são termos correlatos. São vizinhos na literatura e compatíveis na lingüística e semântica. Contudo, pode-se estabelecer uma boa diferença entre estes termos. Ganância é o desejo desmesurado de ter mais, parece-se muito com a inveja, e por isto facilmente se torna voraz e mórbida. A literatura judaica afirma "tal é a sorte de todo ganancioso, e o espírito de ganância tira a vida de quem o possui" (Pv 1.19). Ganância revela sempre a sombra da alma, o lado escuro do desejo, por isto é algo sempre negativo.
Ambição, contudo, possui uma ambivalência, isto é, pode ser percebida no seu aspecto positivo e também no seu aspecto negativo. Uma boa ambição gera um desejo de estudar com diligência, trabalhar com esmero e com seriedade, subir na vida, se tornar um bom profissional, de estudar para se alcançar um fim, de ser alguém com dignidade. Na verdade, a ausência de ambição pode revelar a preguiça da alma, uma síndrome de Jeca tatu que olha para a vida e acha que tanto faz, para cima para baixo, para a direita ou esquerda, e vai deixando o pagode reger a minha vida: "deixa a vida me levar, vida leva eu..." Falta de ambição pode ser uma deformidade da alma e do caráter, revelar a preguiça e o desatino de quem nunca sonhou, nunca aspirou e nunca vai realizar nada, porque na mente destas pessoas a vida funciona pela lei da inércia, do acaso e do sortilégio.
Por ter o seu aspecto positivo, pode ser um grande fator motivador de sonhos e utopias. Com ambição se busca incansavelmente a cura da Aids, pessoas se articulam numa campanha pela moralidade e pelo bem, se mobilizam para minorar a causa do pobre e do esquecido. Tenho encontrado gente assim, que se gasta e se deixa gastar por um desejo ambicioso de ver a vida se tornando mais digna de ser vivida. Gente inconformada com a dor e a miséria.
A ética vai estabelecer os limites para que a Ambição trilhe no caminho da vida. É fácil ocorrer desvios nas nossas motivações. Stephen Kanitz, que foi o inspirador deste artigo, afirma: "Definir cedo o comportamento ético pode ser a tarefa mais importante da vida(...) Nunca me esqueço de um almoço, há 25 anos, com um importante empresário do setor eletrônico. Ele começou a chorar no meio do almoço, algo incomum entre empresários, e eu não conseguia imaginar o que eu havia dito de errado. O caso, na realidade, era pessoal: sua filha se casaria no dia seguinte, e ele se dera conta de que não a conhecia, praticamente. Aquele choro me marcou profundamente e se tornou logo cedo parte da ética na minha vida: nunca colocar minha ambição na frente da minha família".
Kanitz conclui dizendo: "Defina sua ética quanto antes possível. A ambição não pode antecedê-la, é ela que tem de preceder à sua ambição". Veja, 1684 ano 34 no 3 de 24 de janeiro de 2001
Ganância e Ambição são termos correlatos. São vizinhos na literatura e compatíveis na lingüística e semântica. Contudo, pode-se estabelecer uma boa diferença entre estes termos. Ganância é o desejo desmesurado de ter mais, parece-se muito com a inveja, e por isto facilmente se torna voraz e mórbida. A literatura judaica afirma "tal é a sorte de todo ganancioso, e o espírito de ganância tira a vida de quem o possui" (Pv 1.19). Ganância revela sempre a sombra da alma, o lado escuro do desejo, por isto é algo sempre negativo.
Ambição, contudo, possui uma ambivalência, isto é, pode ser percebida no seu aspecto positivo e também no seu aspecto negativo. Uma boa ambição gera um desejo de estudar com diligência, trabalhar com esmero e com seriedade, subir na vida, se tornar um bom profissional, de estudar para se alcançar um fim, de ser alguém com dignidade. Na verdade, a ausência de ambição pode revelar a preguiça da alma, uma síndrome de Jeca tatu que olha para a vida e acha que tanto faz, para cima para baixo, para a direita ou esquerda, e vai deixando o pagode reger a minha vida: "deixa a vida me levar, vida leva eu..." Falta de ambição pode ser uma deformidade da alma e do caráter, revelar a preguiça e o desatino de quem nunca sonhou, nunca aspirou e nunca vai realizar nada, porque na mente destas pessoas a vida funciona pela lei da inércia, do acaso e do sortilégio.
Por ter o seu aspecto positivo, pode ser um grande fator motivador de sonhos e utopias. Com ambição se busca incansavelmente a cura da Aids, pessoas se articulam numa campanha pela moralidade e pelo bem, se mobilizam para minorar a causa do pobre e do esquecido. Tenho encontrado gente assim, que se gasta e se deixa gastar por um desejo ambicioso de ver a vida se tornando mais digna de ser vivida. Gente inconformada com a dor e a miséria.
A ética vai estabelecer os limites para que a Ambição trilhe no caminho da vida. É fácil ocorrer desvios nas nossas motivações. Stephen Kanitz, que foi o inspirador deste artigo, afirma: "Definir cedo o comportamento ético pode ser a tarefa mais importante da vida(...) Nunca me esqueço de um almoço, há 25 anos, com um importante empresário do setor eletrônico. Ele começou a chorar no meio do almoço, algo incomum entre empresários, e eu não conseguia imaginar o que eu havia dito de errado. O caso, na realidade, era pessoal: sua filha se casaria no dia seguinte, e ele se dera conta de que não a conhecia, praticamente. Aquele choro me marcou profundamente e se tornou logo cedo parte da ética na minha vida: nunca colocar minha ambição na frente da minha família".
Kanitz conclui dizendo: "Defina sua ética quanto antes possível. A ambição não pode antecedê-la, é ela que tem de preceder à sua ambição". Veja, 1684 ano 34 no 3 de 24 de janeiro de 2001
quarta-feira, 21 de junho de 2006
A PRESSÃO DA EFICIÊNCIA
Até o segundo jogo do Brasil nesta copa, uma palavra parece expressar o sentimento dos apaixonados torcedores: Frustração! Honestamente eu acho isto até positivo: O clima de já ganhou nunca foi bom, posto que ninguém ganha o jogo na véspera.
Afinal, o que aconteceu com o celebrado quarteto mágico, que pode ter de tudo e até mesmo ser quadrado, mas até agora sem nenhuma magia que gere encantamento? Onde está o aguardado encanto de Ronaldinho, que até agora deu apenas dois chutes a gols contra a Croácia e nenhum contra a Austrália, além de, literalmente, pisar na bola neste ultimo jogo?
Apesar de minha crítica, quero fazer uma defesa desta situação. Eu não gostaria de viver a pressão da eficiência que estes jogadores tem vivido. A cobrança que pesa sobre para se ter uma boa performance, ser eficiente todo tempo e atender sempre a expectativas de milhares de pessoas, ser genial, criativo e produtivo, é uma das maiores fontes de estresse.
Todos nós precisamos de espaço para o ordinário, para o comum, para vulnerabilidade e limitação, de não ter que provar nada. Creio que a tirania do sucesso é uma das mais fortes imposições sociais e uma das mais cruéis neste universo competitivo. Isto nos faz pensar que nossos filhos precisam ser competentes em todas as áreas: esporte, música, línguas, exatas, e assim, sair-se bem em todas as matérias. Por causa desta pressão, impomos uma agenda sobrecarregada de atividades sobre eles para que os mesmos alcancem eficiência e se tornem ícones. Assim fazendo, roubamos-lhes a vida e o direito de serem crianças, e isto os acompanha durante toda a vida. Entram na faculdade sob pressão e seguem assim ao disputar vaga no mercado de trabalho, sob enorme angústia em serem homens e mulheres de sucesso, acertar sempre e nunca fracassar.
Não percebemos quanto estresse isto gera neles e em nós, e quanto vazio isto provoca no coração, na mente e nos relacionamentos. Perdemos nossa própria vida, tentando achá-la.
Às vezes fico a pensar no significado das palavras de Jesus: “quem ama a sua vida, perde-a, mas aquele que odeia a sua vida neste mundo, preserva-la-á para a vida eterna” (Jo 12.25) O que isto quer dizer?
Creio que deixar de ser uma máquina de eficiência, ou um ser ”performático”, tem tudo a ver com este pensamento de Jesus, afinal, o grande alvo da vida não é eficiência, mas realização; não conquistas, mas doação; não aprendizado, mas plenificação, nem sucesso, mas significado, e isto se acha não no desespero louco do sucesso, mas no encontro de nossa alma inquieta e agitada com o centro maior de seu significado que é a relação com o seu criador.
Talvez se estivéssemos menos obcecados pelo sucesso, poderíamos amar mais, viver mais, comer melhor, desfrutar melhor as amizades, fazer sexo de melhor qualidade, adorar a Deus com maior disposição e disponibilizar tempo para servir aos outros com maior alegria. No entanto, estamos preocupados demais em termos e sermos sucesso, sem entender que nesta louca tensão, temos fracassado em nosso objetivo de ser gente.
Afinal, o que aconteceu com o celebrado quarteto mágico, que pode ter de tudo e até mesmo ser quadrado, mas até agora sem nenhuma magia que gere encantamento? Onde está o aguardado encanto de Ronaldinho, que até agora deu apenas dois chutes a gols contra a Croácia e nenhum contra a Austrália, além de, literalmente, pisar na bola neste ultimo jogo?
Apesar de minha crítica, quero fazer uma defesa desta situação. Eu não gostaria de viver a pressão da eficiência que estes jogadores tem vivido. A cobrança que pesa sobre para se ter uma boa performance, ser eficiente todo tempo e atender sempre a expectativas de milhares de pessoas, ser genial, criativo e produtivo, é uma das maiores fontes de estresse.
Todos nós precisamos de espaço para o ordinário, para o comum, para vulnerabilidade e limitação, de não ter que provar nada. Creio que a tirania do sucesso é uma das mais fortes imposições sociais e uma das mais cruéis neste universo competitivo. Isto nos faz pensar que nossos filhos precisam ser competentes em todas as áreas: esporte, música, línguas, exatas, e assim, sair-se bem em todas as matérias. Por causa desta pressão, impomos uma agenda sobrecarregada de atividades sobre eles para que os mesmos alcancem eficiência e se tornem ícones. Assim fazendo, roubamos-lhes a vida e o direito de serem crianças, e isto os acompanha durante toda a vida. Entram na faculdade sob pressão e seguem assim ao disputar vaga no mercado de trabalho, sob enorme angústia em serem homens e mulheres de sucesso, acertar sempre e nunca fracassar.
Não percebemos quanto estresse isto gera neles e em nós, e quanto vazio isto provoca no coração, na mente e nos relacionamentos. Perdemos nossa própria vida, tentando achá-la.
Às vezes fico a pensar no significado das palavras de Jesus: “quem ama a sua vida, perde-a, mas aquele que odeia a sua vida neste mundo, preserva-la-á para a vida eterna” (Jo 12.25) O que isto quer dizer?
Creio que deixar de ser uma máquina de eficiência, ou um ser ”performático”, tem tudo a ver com este pensamento de Jesus, afinal, o grande alvo da vida não é eficiência, mas realização; não conquistas, mas doação; não aprendizado, mas plenificação, nem sucesso, mas significado, e isto se acha não no desespero louco do sucesso, mas no encontro de nossa alma inquieta e agitada com o centro maior de seu significado que é a relação com o seu criador.
Talvez se estivéssemos menos obcecados pelo sucesso, poderíamos amar mais, viver mais, comer melhor, desfrutar melhor as amizades, fazer sexo de melhor qualidade, adorar a Deus com maior disposição e disponibilizar tempo para servir aos outros com maior alegria. No entanto, estamos preocupados demais em termos e sermos sucesso, sem entender que nesta louca tensão, temos fracassado em nosso objetivo de ser gente.
quarta-feira, 14 de junho de 2006
Esporte e Cultura
Sempre vi o esporte como uma expressão da arte de um povo. Cultura e esporte estão sempre muito próximos um do outro. Com muita propriedade alguém já afirmou que o esporte não forma o caráter, apenas o revela.
Quando morei fora do Brasil fiquei impressionado com algumas características do esporte na cultura americana, e talvez, a partir desta leitura, tenha compreendido um pouco do pensamento americano e brasileiro.
Já viram quais são os esportes com maior poder de penetração na cultura americana? Sempre me impressionei com o wrestling, ou luta livre. Os estádios lotados, ingressos vendidos antecipadamente, canais de TV por assinatura transmitindo os eventos e milhares de americanos simplesmente apaixonados com aquela luta simulada. Se você disser que a luta livre é simulada, eles contestarão você. Afinal de contas, é uma luta. Todos sabem que os lances são treinados cuidadosamente e que, apesar da força daquele esporte, trata-se de uma luta simulada. Não para muitos americanos que crêem tratar-se de algo de vida e morte.
Não seria isto uma revelação da hipocrisia americana? A experiência parece dizer que sim. Pense num exemplo simples: Você pode beber uma cerveja na rua, desde que sua garrafa esteja dentro de uma sacola que não revela o rótulo. Se você resolver retirar a garrafa da sacola, pode ser abordado por um policial, mas se você bebê-la sem estampar o que tem dentro dela, tudo estará bem. Neste caso, esporte e cultura não estariam ai se mesclando?
Pense noutro esporte americano: O Football, ou como simplesmente chamamos de futebol americano: Um esporte de força e rapidez. Isto não revelaria um pouco da cultura que gosta de ser troglodita, trombar e lutar? Não estaria aí a gênese da sede de domínio, e a intrepidez para brigar, características estas marcantes na cultura americana?
Pense ainda no basquete, esporte no qual eles possuem a supremacia sobre outras nações. Sem dúvida, não há competidor para o nível de técnica que eles possuem. Sua habilidade técnica e precisão é algo surpreendente. Não seria isto um traço do povo americano? Uma forma de pensar e agir? De construir grandes impérios, empresas e administrar a vida?
Bem, como estou aqui tentando escrever um ensaio um tanto quanto filosófico, deixe-me arriscar alguns palpites sobre o Brasil e sua relação de paixão com o futebol. Por que ele é tão popular entre nós? Porque o mundo fica tão embasbacado com a qualidade técnica de nossos jogadores? O futebol não revelaria um elemento também cultural?
Creio que sim. O que diferencia o futebol é sua ginga, sua malandragem, seu passo desconcertante, o jeito inesperado e diferente de fazer as coisas. É o jeitinho brasileiro, de sempre querer fazer que vai mas não vai, dar a impressão de que é mas não é? Lamento informar mas os nossos gordos congressistas parecem demonstrar toda esta habilidade para o drible, para a malandragem, para a ginga. Embora não o possam fazer isto fisicamente por causa de sua característica marcantemente obesa, o fazem com galhardia no que diz respeito à dignidade e ao bem público.
Quando morei fora do Brasil fiquei impressionado com algumas características do esporte na cultura americana, e talvez, a partir desta leitura, tenha compreendido um pouco do pensamento americano e brasileiro.
Já viram quais são os esportes com maior poder de penetração na cultura americana? Sempre me impressionei com o wrestling, ou luta livre. Os estádios lotados, ingressos vendidos antecipadamente, canais de TV por assinatura transmitindo os eventos e milhares de americanos simplesmente apaixonados com aquela luta simulada. Se você disser que a luta livre é simulada, eles contestarão você. Afinal de contas, é uma luta. Todos sabem que os lances são treinados cuidadosamente e que, apesar da força daquele esporte, trata-se de uma luta simulada. Não para muitos americanos que crêem tratar-se de algo de vida e morte.
Não seria isto uma revelação da hipocrisia americana? A experiência parece dizer que sim. Pense num exemplo simples: Você pode beber uma cerveja na rua, desde que sua garrafa esteja dentro de uma sacola que não revela o rótulo. Se você resolver retirar a garrafa da sacola, pode ser abordado por um policial, mas se você bebê-la sem estampar o que tem dentro dela, tudo estará bem. Neste caso, esporte e cultura não estariam ai se mesclando?
Pense noutro esporte americano: O Football, ou como simplesmente chamamos de futebol americano: Um esporte de força e rapidez. Isto não revelaria um pouco da cultura que gosta de ser troglodita, trombar e lutar? Não estaria aí a gênese da sede de domínio, e a intrepidez para brigar, características estas marcantes na cultura americana?
Pense ainda no basquete, esporte no qual eles possuem a supremacia sobre outras nações. Sem dúvida, não há competidor para o nível de técnica que eles possuem. Sua habilidade técnica e precisão é algo surpreendente. Não seria isto um traço do povo americano? Uma forma de pensar e agir? De construir grandes impérios, empresas e administrar a vida?
Bem, como estou aqui tentando escrever um ensaio um tanto quanto filosófico, deixe-me arriscar alguns palpites sobre o Brasil e sua relação de paixão com o futebol. Por que ele é tão popular entre nós? Porque o mundo fica tão embasbacado com a qualidade técnica de nossos jogadores? O futebol não revelaria um elemento também cultural?
Creio que sim. O que diferencia o futebol é sua ginga, sua malandragem, seu passo desconcertante, o jeito inesperado e diferente de fazer as coisas. É o jeitinho brasileiro, de sempre querer fazer que vai mas não vai, dar a impressão de que é mas não é? Lamento informar mas os nossos gordos congressistas parecem demonstrar toda esta habilidade para o drible, para a malandragem, para a ginga. Embora não o possam fazer isto fisicamente por causa de sua característica marcantemente obesa, o fazem com galhardia no que diz respeito à dignidade e ao bem público.
sexta-feira, 2 de junho de 2006
Violência e sociedade
Violência tem etiologia. Não surge num vácuo histórico, nem acontece do nada. Violência tem raiz, origem, umas averiguáveis, outras não claramente distinguíveis.
Rollo May trabalha este tema de forma muito madura em seu clássico livro “Eros e violência”, afirmando que a agressividade em geral está relacionada à impotência animal, quando estes se sentem desprotegidos, tornam-se agressivos. Assim, é que um animal acuado, encurralado ou em sofrimento, pode ter reações absolutamente estranhas. O filme “O Patriota” traça este perfil, na pele de um homem pacato que vendo seu filho sendo friamente executado, torna-se um monstro, e revela uma violência que ele mesmo desconhecia.
Leonardo Boff ainda articula um conceito amplamente discutido no campo comportamental que é a “violência dos violentados”. Para ele, esta seria a violência como resposta ou a violência reativa, que brota de ambientes hostis, e muitas vezes trata-se de uma questão até mesmo de sobrevivência para aqueles que a praticam.
Arnaldo Jabor em sua análise sobre o hediondo e lamentável incidente ocorrido em Brasília na invasão que o MLST fez ao Congresso Nacional no dia 06/06/2006, foi muito feliz na sua observação afirmando que o Legislativo violentou a nação absolvendo pessoas com práticas ilegais e suspendeu sanções sobre pessoas comprovadamente corruptas; o Judiciário zombou do povo ao permitir que reconhecidos criminosos tivessem o direito de “não responder” numa Comissão Parlamentar de Inquérito, e que o Executivo tratou com descaso os sucessivos escândalos engendrados na cozinha do Palácio fazendo de conta que isto não era com eles. Esta violência dos poderosos se materializa agora na violência dos impotentes e dos partidos marginais que articulam esta nova Guerra dos Farrapos.
Tudo isto nos ajuda a ler a história, fazer hermenêutica da violência, mas precisamos lembrar que a agressão, a balbúrdia e o caos precisam ser rigorosa e exemplarmente julgados. Explicar não é justificar. Se o país mais uma vez tratar com indulgência cenas de bandidagem vamos precisar explicar outra vez, num futuro breve, novas cenas de selvageria pública que eclodirão neste país de tanta violência social.
Esperamos ainda que não sejam julgados apenas aqueles que praticaram estes recentes atos de selvageria recentes em Brasília, mas em nome da justiça e em nome de Deus, que os crimes de colarinho brancos também levem para a cadeia aqueles que tem sistematizado, “pandemizado” e “endemizado” a corrupção, outra forma de violência tão conhecida em nosso país.
Rollo May trabalha este tema de forma muito madura em seu clássico livro “Eros e violência”, afirmando que a agressividade em geral está relacionada à impotência animal, quando estes se sentem desprotegidos, tornam-se agressivos. Assim, é que um animal acuado, encurralado ou em sofrimento, pode ter reações absolutamente estranhas. O filme “O Patriota” traça este perfil, na pele de um homem pacato que vendo seu filho sendo friamente executado, torna-se um monstro, e revela uma violência que ele mesmo desconhecia.
Leonardo Boff ainda articula um conceito amplamente discutido no campo comportamental que é a “violência dos violentados”. Para ele, esta seria a violência como resposta ou a violência reativa, que brota de ambientes hostis, e muitas vezes trata-se de uma questão até mesmo de sobrevivência para aqueles que a praticam.
Arnaldo Jabor em sua análise sobre o hediondo e lamentável incidente ocorrido em Brasília na invasão que o MLST fez ao Congresso Nacional no dia 06/06/2006, foi muito feliz na sua observação afirmando que o Legislativo violentou a nação absolvendo pessoas com práticas ilegais e suspendeu sanções sobre pessoas comprovadamente corruptas; o Judiciário zombou do povo ao permitir que reconhecidos criminosos tivessem o direito de “não responder” numa Comissão Parlamentar de Inquérito, e que o Executivo tratou com descaso os sucessivos escândalos engendrados na cozinha do Palácio fazendo de conta que isto não era com eles. Esta violência dos poderosos se materializa agora na violência dos impotentes e dos partidos marginais que articulam esta nova Guerra dos Farrapos.
Tudo isto nos ajuda a ler a história, fazer hermenêutica da violência, mas precisamos lembrar que a agressão, a balbúrdia e o caos precisam ser rigorosa e exemplarmente julgados. Explicar não é justificar. Se o país mais uma vez tratar com indulgência cenas de bandidagem vamos precisar explicar outra vez, num futuro breve, novas cenas de selvageria pública que eclodirão neste país de tanta violência social.
Esperamos ainda que não sejam julgados apenas aqueles que praticaram estes recentes atos de selvageria recentes em Brasília, mas em nome da justiça e em nome de Deus, que os crimes de colarinho brancos também levem para a cadeia aqueles que tem sistematizado, “pandemizado” e “endemizado” a corrupção, outra forma de violência tão conhecida em nosso país.
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