terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Dúvidas


Todos temos dúvidas sobre alguma coisa. Algumas são essenciais, outras secundárias. Dúvida faz parte essencial da alma humana. Do ponto de vista da ciência, a dúvida metodológica é altamente produtiva. Ela capacita novas hipóteses e teorias que abrem campos de pesquisa. Viver eternamente em dúvida e angústia, entretanto, pode ser um inferno. Não precisamos ter certeza sobre tudo, mas é importante ter convicções em algumas – Não é pré-conceito (intencionalmente separo estas palavras), mas conceito.

Jesus afirmou que “entre os nascidos de mulher, nenhum apareceu maior que João Batista” (Mt 11.11). Receber uma apreciação destas do Senhor Jesus é altamente positivo, já que ele não se engana com as aparências. João, contudo, enfrentou sérias crises teológicas, a ponto de enviar dois dos seus discípulos para indagar: “És tu o Messias que estava para vir, ou devemos esperar outro?” (Mt 11.3). Na masmorra, com privação de tudo, separado de amigos e família, teve dúvidas.

Moisés revelou muitas reservas e questionou os motivos de Deus. Deus tirou dele a sua missão por causa disto e o enviou para casa? Pelo contrário, Diariamente ia lapidando sua vida, e dando provas de sua presença constante.
Jó teve muitas lutas e crises. Chegou ao ponto de afirmar que Deus estava sendo injusto em não permitir que houvesse um tribunal onde ele se defenderia. Acusou Deus de usar de sua prerrogativa da soberania e controle das coisas. Em 16 ocasiões, levantou a clássica pergunta: “Porquê”, sem obter qualquer resposta. Deus o abandonou ou o castigou por isto? Não! No final de tudo, Jó reconhece o mistério e a graça de Deus, apesar de ter passado por muitas dúvidas.

Habacuque, outro profeta menos conhecido, questionou diretamente a Deus: “Tu és tão puro de olhos que não podes contemplar o mal; por que, pois, toleras a existência dos homens maus?” Jeremias, num momento particularmente complicado de sua vida, sofrendo rejeição abandono, e humilhação, indagou: “Serias tu, para mim, como um ilusório ribeiro de águas; como águas que enganam”? Nestas ocasiões Deus deixou de caminhar com ele? De amá-lo?

Entre todos os discípulos, Dídimo encarna melhor o protótipo da dubiedade e claudicância. Mesmo tendo Jesus falado de sua ressurreição, e diante do testemunho dos demais apóstolos, continuou recusando a crer. Jesus se aproxima dele, individualmente, e diz: “Não sejas incrédulo, creia somente!” E só assim, ele se rendeu às evidências.

Deus nunca abandona um coração sincero. Duras questões não blindam o seu coração.

Nunca se esqueça:


Deus nunca despreza um coração sincero, que faz perguntas honestas em buscas de respostas essenciais. Talvez não responda suas questões da forma como você queira, como no caso de Jó, mas ao se encontrar com Deus, você terá segurança em reconhecer: “Eu sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos, pode ser frustrado”. Afinal, “Deus não joga dados” (Einstein).

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Amargura


Poucos sentimentos são tão letais para o ser humano quanto a amargura, e não é difícil encontrar pessoas vivendo miseravelmente por causa de ofensas, comentários, acusações ou injustiças sofridas. A amargura pode durar a vida inteira e nos arrasar. Muitos, em quadro de depressão, encontram-se assim por causa de abusos. Certo oncologista famoso costuma indagar aos seus pacientes: “Por que você precisa deste câncer?”. Para ele, câncer é amargura. Naturalmente não sou expert no assunto e nem preciso concordar com sua afirmação na totalidade, mas a verdade é que a amargura causa muitos males.

Mesmo as experiências de sucesso, conquistas, reconhecimento posteriores à injúria, eventualmente são insuficientes para a libertação deste sentimento. Se continuamos a lutar com ofensas de muitos anos atrás, isto significa que ainda estamos aprisionados.

A amargura gera preconceito, leva-nos a uma língua ferina, comportamentos reativos e provocativos. A incapacidade de perdoar torna-se um tormento que se recusa a ser curado e tratado. A Bíblia afirma que mesmo uma raiz de amargura, pode perturbar, contaminar e ferir a muitos. A raiz da amargura produz frutos de amargura. Não é possível escondê-la, é pesado viver com ela, impossível suportá-la. Lenta e inexoravelmente, a ferida aberta brotará na superfície em formas de sintomas ou comportamentos.

Jesus afirmou que pessoas que não conseguem perdoar, estão entregues a atormentadores, torturadores (Mt 18.21-35) Estas figuras são muito fortes! Nutrir ressentimento é o mesmo que estar num campo de concentração na mão de homens carregados de ódio.

É importante perceber que Jesus estava falando estas coisas para seus discípulos, e não para descrentes. Um cristão pode ser um candidato a uma prisão solitária ou a um campo de concentração, e ter sua alma encarcerada, passando por sofrimentos indescritíveis, a menos que perdoe completamente... mesmo quando aquele que feriu esteja errado.

A Bíblia ensina: “Longe de vós toda amargura, e cólera, e ira, e gritaria, e blasfêmias, e bem assim toda malícia. Antes, sede uns para com os outros, benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou” (Ef 4.31,32).


Se você acha difícil perdoar, considere o preço de não perdoar. Se ainda assim não consegue perdoar, peça o socorro de Deus. E se você, ainda assim, não quer perdoar, porque seu coração não sente nenhum desejo de perdoar, talvez pudesse fazer uma oração mais profunda a Deus: “Senhor, eu não quero perdoar, mas eu preciso perdoar; portanto, me ajude a querer, querer”. Perdão é uma  capacitação divina. Quase nunca é fácil – perdão é aumentativo de perda - Perdoar é ficar no prejuízo – mas paradoxalmente, ter grande ganho. 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Insatisfação



Uma das características desta geração é a incapacidade de sentir-se plena. Os homens fizeram grandes avanços tecnológicos e científicos, as distâncias encurtaram, há mais acesso a bens de consumo, mais conforto, mas continua o senso de vacuidade. Falta-nos algo intrínseco, profundo... vivemos insatisfeitos com a vida e conosco mesmos.

Alguns teólogos falam que é a saudade do paraíso perdido. O Éden desapareceu da raça humana. No pensamento Jungiano, seria um arquétipo humano, um déjavu, uma saudade de algo que nem sabemos definir. Perdemos a essência, a natureza intrínseca do projeto original de Deus para a vida, construída no Éden, e desejamos algo vago que preencha este anseio por senso estético, existencial e moral que se perdeu – buscamos uma resposta filosófica.

O poeta T.S. Elliot se expressou da seguinte forma: “Onde está a vida que perdi tentando encontrá-la?”

Um dos perigos é que projetamos a insatisfação no outro. Numa tentativa de resolver o vazio, achamos mais fácil identificar e, algo ou alguém fora de nós, a razão da falta de sentido da alma. Culpamos a vida agitada, a falta de dinheiro e responsabilizamos até Deus – mas de forma consistente, o marido (ou esposa). Desenvolvemos inconscientemente uma ira não resolvida, que se transforma em irritabilidade e raiva. É mais fácil “cair nos outros que cair em si”.

A maturidade consiste em perceber que o outro não é a causa do  fracasso. Que a solidão é algo tão profundo e existencial que nenhuma outra pessoa poderá resolver. Que a depressão já estava presente antes do casamento, que eu já era triste e amargo antes de dizer “Sim”!  São muitos aqueles que estão prontos para acusar e culpar o outro pelo seu fracasso, mas só há crescimento emocional quando se olha para o próprio coração.

Mário Quintana fala que nos votos do casamento, deveríamos fazer algumas mudanças, e propõe algumas:

-“Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?
-“Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?”

A verdade é que a insatisfação e solidão, jamais pode ser preenchida pelo outro. Pascal afirmou que “o homem tem um vazio no coração do formato de Deus”. Esta insatisfação é existencial e espiritual. Perdemos o vínculo com o Eterno, nos afastamos de Deus e nesta tentativa de construir uma vida separado dEle, adoecemos, nos tornamos existencialmente solitários.

Jesus falou de algo enigmático: “Eu vim para que tenham vida, e vida em abundância”. Se ele falou que queria dar vida abundante, certamente é porque conhecia o ser humano e sabia quão facilmente poderia se tornar superficial e vazio. Ele oferece a solução para o senso de vacuidade e insatisfação que sentimos. Esta nova experiência de plenitude só será encontrada no mistério do Eterno.

Quando o vazio no formato de Deus invadir o nosso ser interior preenchendo cada espaço vazio da insatisfação.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Resoluções para o Ano Novo


Apesar de toda frustração e desencanto por outros alvos anteriormente estabelecidos – e não alcançados – em tempos passados, aprecio o “simbólico” da passagem do ano. Emocionalmente sentimos que algo foi concluído, fechou-se um ciclo. E isto pode ser muito positivo.

No livro do Profeta Isaías há uma exortação: “Não lembreis as coisas passadas, nem considereis as antigas”, penso que esta palavra se aplica bem a cada um de nós, ao tomarmos novas resoluções e estabelecermos novos alvos. Ter um momento como ponto de partida pode ser altamente benéfico em se tratando de alvos e objetivos, afinal, estamos virando a página da história, um novo tempo começou, o calendário mudou.

Existem muitos alvos: Perder alguns quilos, organizar melhor a agenda, ter mais tempo para si e para a família, aumentar a produção da empresa, receber uma promoção, conseguir tirar de férias (alguns dizem que não é possível encontrar tempo nem dinheiro para isto), ter mais compromisso com a família (os pais estão idosos, os filhos adolescentes precisando da nossa presença), reavivar compromissos espirituais (a correria está afastando muitos da igreja), ler a bíblia toda neste ano, ser mais generoso com os recursos – a lista pode ser quase interminável.

Provavelmente você falhará num destes compromissos, mas pelo menos tente. Pode ser que você até descubra uma nova fonte de prazer ao assumir atitudes diferentes, afinal, “melhores atitudes, maiores altitudes”. Vá em frente. O calendário é fator motivacional para eliminar comportamentos tóxicos e estabelecimento de novos valores e princípios.

Um antigo ditado afirma que “o uso do cachimbo entorta a boca”. Pode ser que você tenha adotado um estilo de vida tão disfuncional em determinado momento da sua vida e incorporado esta forma de ser e viver de uma maneira tal que passou a acreditar que é assim que são as coisas... descobrir  novas maneiras de fazer as coisas pode ser libertador. Entender que a vida segue sem a gente, pode ser terapêutico. Se você adoecer ou morrer de estresse, esteja certo de que seus filhos e esposa vão sobreviver – e isto pode lhe assustar: Talvez até melhor sem você!

Você não é insubstituível. “o cemitério está cheio de gente insubstituível”.

Tome algumas decisões.


A mudança de calendário ajuda, inspira, motiva. Mesmo que você descubra que não conseguiu atingir seus alvos, não tenha medo de estabelecê-los, pois ao fazer isto, vai perceber que o fracasso pode ajudar a entender que precisa ser mais diligente e aplicado, e que o objetivo continua sendo bom. Mantenha-o sempre como meta para um estilo de vida mais saudável e abençoador.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A vida não pode acabar assim


Bill Hybels, conhecido conferencista cristão participava recentemente participou de um funeral que ele considerou um dos mais difíceis momentos de sua vida. O melhor amigo de seu filho, de apenas 20 anos de idade, sofreu um acidente de carro e veio a óbito. Embora os pais do garoto não fossem da sua comunidade, ele conhecia a família e decidiu ficar ao lado deles, solidário à dor que sofriam, e também triste por ver uma vida sendo interrompida de forma tão abrupta.

No funeral, a tônica foi a ausência de qualquer esperança. Até mesmo o oficiante do funeral terminou o ato de forma desoladora. “Pois foste formado do pó, e ao pó tornarás”. A vida parecia ser apenas um chiste, algo lacônico e bizarro. O pai daquele moço veio na sua direção, abraçou-o fortemente e disse em voz alta: “Pastor, a vida não pode acabar assim” e pediu para que orasse por eles. Então ele foi à frente e disse: “Hoje estamos nos despedindo do Clark, o caminho que ele fez, é o caminho que todos faremos. Estamos nos despedindo dele mais cedo do que queríamos ou esperávamos. Mas não será para sempre, todos nós um dia poderemos nos encontrar com o Clark. A vida dele não acaba num túmulo frio, mas nos braços de um Pai amoroso”.

Tenho pensado na frase deste pai: “A vida não pode acabar assim”.

Muitas vezes olhamos para a vida e nos resignamos, aceitamos o fracasso de forma passiva, nos rendemos ao desespero sem luta, nos entregamos sem esboçar reação, nem sequer oramos para que as coisas mudem e sejam diferentes. Vemos casamentos acabando e desistimos com facilidade; nossos filhos se perdendo e nos resignamos; a corrupção e a imoralidade se tornando banais, o desrespeito à vida parte do cotidiano. Nos tornamos apáticos, as agressões se sucedem e deixamos para lá de forma indiferente; não nos desafiamos para um engajamento e nem acreditamos que as coisas melhorem e mudem o rumo, achamos que pó e cinzas são de fato o destino final – somos tomados pelo pessimismo e falta de fé e caminhamos para o abismo sem nos incomodarmos. No entanto, as coisas não precisam acabar desta forma.

Existe uma antiga oração que diz: “Senhor, dá-me forças para mudar as coisas que precisam ser mudadas; paciência para suportar aquelas que não podem ser mudadas; e sabedoria para discernir entre elas”.

Obviamente que nos misteriosos e enigmáticos planos de Deus, há realidades que não podem ser mudadas, que não dependem de nosso esforço ou garra, da luta ou perseverança, mas existem outras, que requerem de nós um pouco de vergonha e brilho nos olhos, que demandam uma resposta de coragem e dependem de ousadia e tenacidade. Precisamos enfrentá-las, e não apenas receber o diagnóstico final e aquietarmos. Muitas questões exigem ação e reação, não podemos simplesmente aceitar e calar.

Mesmo diante de fatos que não podem ser mudados, precisamos ter esperança. A morte é uma delas. Morte não é ponto final para aqueles que crêem, mas passagem de uma vida para outra. A vida vai além da realidade transitória de nossa fugaz existência. O ladrão ao lado de Cristo na cruz, vendo o fim se aproximar, conseguiu fazer uma ousada oração de esperança: “Senhor, lembra-te de mim quando vieres no teu reino”, e Jesus lhe deu uma resposta encorajadora: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”.

A vida não pode ser um eterno réquiem, nem pode se resumir à marcha fúnebre. Precisamos trazer à memória aquilo que pode nos dar esperança e prosseguir. A vida não pode acabar assim...

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Hábitos que estrangulam

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Na selva amazônica existe um cipó chamado pelos espanhóis  de “el matador”, o que realmente faz juz ao nome que recebe. Ele nasce na raiz das árvores e inicialmente não parece ser uma ameaça, mas à medida que vai crescendo, enrola-se no tronco indo até o topo e quando o alcança, dá uma linda flor, como que coroando sua conquista e a árvore é sufocada até sua eventual morte.
Muitos hábitos agem da mesma forma. Surgem com aparência inocente, mas vai assumindo o controle, sufocando a espontaneidade e alegria e aprisionando. É uma luxúria aqui, um desequilíbrio financeiro acolá, uma brincadeira maliciosa cá, uma rodada divertida de jogos e apostas com dinheiro, uma pequena indiscrição e quando percebemos estamos envolvidos em destrutivos vícios que pareciam tão inofensivos e que agora aprisionam.
Na verdade, nunca encontraremos uma pessoa na ruína que não tenha começado com pequenas concessões e nunca acharemos alguém que, propositalmente, desenvolveu hábitos para se destruir.
Uma pessoa não entra em aventuras amorosas fora do casamento pensando que isto vai destruir sua família e causar muitas dores; ninguém se envolve em apostas de azar sabendo que vai comprometer seus recursos financeiros; o drogado não começa sua longa e dolorida via crucis de antemão projetando dor e angústia; ninguém deseja se tornar viciado em pornografia ao começar seus pequenos clicks; a pessoa que abusa de sua ira e descontrole emocional, não imagina quanto sofrimento psicológico vai causar aos seus filhos e quanto prejuízo no seu trabalho, nem o alcoólatra se envereda por esta tortuosa via buscando uma existência de desgraça.
Hábitos e atitudes, assim como o “el matador”, crescem gradualmente. O estrangulamento não acontece de uma hora para outra, existe um processo até o desfecho. Os movimentos são lentos e quase nunca temos consciência da cilada em que estamos até que os efeitos deletérios de nossas decisões sejam manifestos.
A ajuda de Deus para quem se sente estrangulado e preso em tais armadilhas é crucial. Ore a Deus para ter a percepção destes riscos ao redor e saber se defender e esquivar deles, afinal, “Os pecados são mortais, não porque Deus matar, mas porque eu morro deles. Deus proibiu os sete pecados não por exigência de perfeição, mas apenas por piedade de nós” (Clarice Lispector).
George R. R. Martin, autor da conhecida série Guerra dos tronos afirmou: “Nem mesmo o cavaleiro mais leal, pode proteger um rei contra si mesmo... Se um homem pinta um alvo no peito, deve esperar que mais cedo ou mais tarde, alguém lhe envie uma seta”.


Por que esperar tanto?



Três dias antes do Dia das mães, um homem idoso telefonou para seu filho que morava numa cidade distante dizendo: “Eu odeio estragar o seu dia, mas eu preciso lhe dizer que sua mãe e eu estamos divorciando – após quarenta e cinco anos de miséria no nosso casamento, acho que foi mais que suficiente”.
-“Pai, do que o senhor está falando?” Seu filho lhe perguntou, alarmado com a notícia.
-“A verdade meu filho, é que não conseguimos mais sequer ver a cara do outro”, disse o pai. “Nós adoecemos. Sinto muito falar sobre isto, mas vou ligar também para sua irmã e comunicá-la”.
Tão logo o pai ligou para a filha, que vivia também em outra cidade, ela explodiu:
-“Eu não admito que isto esteja acontecendo, eu vou pessoalmente ai para conversar sobre este assunto. Não faça nada até eu chegar, vou ligar para meu irmão e iremos amanhã para estar com vocês. Não faça nada até a gente chegar”.
Após desligar o telefone, o velho pai voltou-se para sua esposa e disse: “-Eles estão vindo para passar o dia das mães conosco e estão pagando suas passagens. Agora preciso pensar o que preciso fazer para que eles venham também no Natal”.
Ao entrar em contacto com esta estória, fiquei me perguntando porque precisamos permitir que as coisas cheguem ao extremo para que possamos fazer alguma demonstração de afeto? Porque nossos casamentos precisam chegar ao limite para que saiamos desesperados para demonstrar que amamos? Porque nossos pais precisam adoecer para priorizarmos tempo para estar com eles? Porque nossos filhos precisam se envolver com drogas e com comportamentos estranhos e pecaminosos para que comecemos a dar atenção às suas necessidades?

Um líder de nossa igreja em Brasília tinha três filhas. Eles moravam a 23 Km da igreja, e no sábado, com atividades de crianças, pré-adolescentes e adolescentes em horários distintos,  chegava a vir três vezes para trazer e levar as filhas. Quando eu perguntei se não era cansativo demais, ele me respondeu que cansativo seria buscar filha drogada e na balada, às três horas da manhã, participando de festas e bailes que ninguém sabe o que acontece lá dentro, e que ele trazia prazerosamente suas filhas à igreja, para que não tivesse que buscá-las em ambientes pesados na sua mocidade.