quarta-feira, 30 de agosto de 2006

Ganância, Ambição e Ética

Émerson afirmou: “A ganância e o monopólio reduzem a potência física e mental do povo. O povo afunda-se e corrompe-se na luta para subir” Pensamento vivo de Émerson, pg. 5.
Ganância e Ambição são termos correlatos. São vizinhos na literatura e compatíveis na lingüística e semântica. Contudo, pode-se estabelecer uma boa diferença entre estes termos. Ganância é o desejo desmesurado de ter mais, parece-se muito com a inveja, e por isto facilmente se torna voraz e mórbida. A literatura judaica afirma "tal é a sorte de todo ganancioso, e o espírito de ganância tira a vida de quem o possui" (Pv 1.19). Ganância revela sempre a sombra da alma, o lado escuro do desejo, por isto é algo sempre negativo.
Ambição, contudo, possui uma ambivalência, isto é, pode ser percebida no seu aspecto positivo e também no seu aspecto negativo. Uma boa ambição gera um desejo de estudar com diligência, trabalhar com esmero e com seriedade, subir na vida, se tornar um bom profissional, de estudar para se alcançar um fim, de ser alguém com dignidade. Na verdade, a ausência de ambição pode revelar a preguiça da alma, uma síndrome de Jeca tatu que olha para a vida e acha que tanto faz, para cima para baixo, para a direita ou esquerda, e vai deixando o pagode reger a minha vida: "deixa a vida me levar, vida leva eu..." Falta de ambição pode ser uma deformidade da alma e do caráter, revelar a preguiça e o desatino de quem nunca sonhou, nunca aspirou e nunca vai realizar nada, porque na mente destas pessoas a vida funciona pela lei da inércia, do acaso e do sortilégio.
Por ter o seu aspecto positivo, pode ser um grande fator motivador de sonhos e utopias. Com ambição se busca incansavelmente a cura da Aids, pessoas se articulam numa campanha pela moralidade e pelo bem, se mobilizam para minorar a causa do pobre e do esquecido. Tenho encontrado gente assim, que se gasta e se deixa gastar por um desejo ambicioso de ver a vida se tornando mais digna de ser vivida. Gente inconformada com a dor e a miséria.
A ética vai estabelecer os limites para que a Ambição trilhe no caminho da vida. É fácil ocorrer desvios nas nossas motivações. Stephen Kanitz, que foi o inspirador deste artigo, afirma: "Definir cedo o comportamento ético pode ser a tarefa mais importante da vida(...) Nunca me esqueço de um almoço, há 25 anos, com um importante empresário do setor eletrônico. Ele começou a chorar no meio do almoço, algo incomum entre empresários, e eu não conseguia imaginar o que eu havia dito de errado. O caso, na realidade, era pessoal: sua filha se casaria no dia seguinte, e ele se dera conta de que não a conhecia, praticamente. Aquele choro me marcou profundamente e se tornou logo cedo parte da ética na minha vida: nunca colocar minha ambição na frente da minha família".
Kanitz conclui dizendo: "Defina sua ética quanto antes possível. A ambição não pode antecedê-la, é ela que tem de preceder à sua ambição". Veja, 1684 ano 34 no 3 de 24 de janeiro de 2001

quarta-feira, 21 de junho de 2006

A PRESSÃO DA EFICIÊNCIA

Até o segundo jogo do Brasil nesta copa, uma palavra parece expressar o sentimento dos apaixonados torcedores: Frustração! Honestamente eu acho isto até positivo: O clima de já ganhou nunca foi bom, posto que ninguém ganha o jogo na véspera.
Afinal, o que aconteceu com o celebrado quarteto mágico, que pode ter de tudo e até mesmo ser quadrado, mas até agora sem nenhuma magia que gere encantamento? Onde está o aguardado encanto de Ronaldinho, que até agora deu apenas dois chutes a gols contra a Croácia e nenhum contra a Austrália, além de, literalmente, pisar na bola neste ultimo jogo?
Apesar de minha crítica, quero fazer uma defesa desta situação. Eu não gostaria de viver a pressão da eficiência que estes jogadores tem vivido. A cobrança que pesa sobre para se ter uma boa performance, ser eficiente todo tempo e atender sempre a expectativas de milhares de pessoas, ser genial, criativo e produtivo, é uma das maiores fontes de estresse.
Todos nós precisamos de espaço para o ordinário, para o comum, para vulnerabilidade e limitação, de não ter que provar nada. Creio que a tirania do sucesso é uma das mais fortes imposições sociais e uma das mais cruéis neste universo competitivo. Isto nos faz pensar que nossos filhos precisam ser competentes em todas as áreas: esporte, música, línguas, exatas, e assim, sair-se bem em todas as matérias. Por causa desta pressão, impomos uma agenda sobrecarregada de atividades sobre eles para que os mesmos alcancem eficiência e se tornem ícones. Assim fazendo, roubamos-lhes a vida e o direito de serem crianças, e isto os acompanha durante toda a vida. Entram na faculdade sob pressão e seguem assim ao disputar vaga no mercado de trabalho, sob enorme angústia em serem homens e mulheres de sucesso, acertar sempre e nunca fracassar.
Não percebemos quanto estresse isto gera neles e em nós, e quanto vazio isto provoca no coração, na mente e nos relacionamentos. Perdemos nossa própria vida, tentando achá-la.
Às vezes fico a pensar no significado das palavras de Jesus: “quem ama a sua vida, perde-a, mas aquele que odeia a sua vida neste mundo, preserva-la-á para a vida eterna” (Jo 12.25) O que isto quer dizer?
Creio que deixar de ser uma máquina de eficiência, ou um ser ”performático”, tem tudo a ver com este pensamento de Jesus, afinal, o grande alvo da vida não é eficiência, mas realização; não conquistas, mas doação; não aprendizado, mas plenificação, nem sucesso, mas significado, e isto se acha não no desespero louco do sucesso, mas no encontro de nossa alma inquieta e agitada com o centro maior de seu significado que é a relação com o seu criador.
Talvez se estivéssemos menos obcecados pelo sucesso, poderíamos amar mais, viver mais, comer melhor, desfrutar melhor as amizades, fazer sexo de melhor qualidade, adorar a Deus com maior disposição e disponibilizar tempo para servir aos outros com maior alegria. No entanto, estamos preocupados demais em termos e sermos sucesso, sem entender que nesta louca tensão, temos fracassado em nosso objetivo de ser gente.

quarta-feira, 14 de junho de 2006

Esporte e Cultura

Sempre vi o esporte como uma expressão da arte de um povo. Cultura e esporte estão sempre muito próximos um do outro. Com muita propriedade alguém já afirmou que o esporte não forma o caráter, apenas o revela.
Quando morei fora do Brasil fiquei impressionado com algumas características do esporte na cultura americana, e talvez, a partir desta leitura, tenha compreendido um pouco do pensamento americano e brasileiro.
Já viram quais são os esportes com maior poder de penetração na cultura americana? Sempre me impressionei com o wrestling, ou luta livre. Os estádios lotados, ingressos vendidos antecipadamente, canais de TV por assinatura transmitindo os eventos e milhares de americanos simplesmente apaixonados com aquela luta simulada. Se você disser que a luta livre é simulada, eles contestarão você. Afinal de contas, é uma luta. Todos sabem que os lances são treinados cuidadosamente e que, apesar da força daquele esporte, trata-se de uma luta simulada. Não para muitos americanos que crêem tratar-se de algo de vida e morte.
Não seria isto uma revelação da hipocrisia americana? A experiência parece dizer que sim. Pense num exemplo simples: Você pode beber uma cerveja na rua, desde que sua garrafa esteja dentro de uma sacola que não revela o rótulo. Se você resolver retirar a garrafa da sacola, pode ser abordado por um policial, mas se você bebê-la sem estampar o que tem dentro dela, tudo estará bem. Neste caso, esporte e cultura não estariam ai se mesclando?
Pense noutro esporte americano: O Football, ou como simplesmente chamamos de futebol americano: Um esporte de força e rapidez. Isto não revelaria um pouco da cultura que gosta de ser troglodita, trombar e lutar? Não estaria aí a gênese da sede de domínio, e a intrepidez para brigar, características estas marcantes na cultura americana?
Pense ainda no basquete, esporte no qual eles possuem a supremacia sobre outras nações. Sem dúvida, não há competidor para o nível de técnica que eles possuem. Sua habilidade técnica e precisão é algo surpreendente. Não seria isto um traço do povo americano? Uma forma de pensar e agir? De construir grandes impérios, empresas e administrar a vida?
Bem, como estou aqui tentando escrever um ensaio um tanto quanto filosófico, deixe-me arriscar alguns palpites sobre o Brasil e sua relação de paixão com o futebol. Por que ele é tão popular entre nós? Porque o mundo fica tão embasbacado com a qualidade técnica de nossos jogadores? O futebol não revelaria um elemento também cultural?
Creio que sim. O que diferencia o futebol é sua ginga, sua malandragem, seu passo desconcertante, o jeito inesperado e diferente de fazer as coisas. É o jeitinho brasileiro, de sempre querer fazer que vai mas não vai, dar a impressão de que é mas não é? Lamento informar mas os nossos gordos congressistas parecem demonstrar toda esta habilidade para o drible, para a malandragem, para a ginga. Embora não o possam fazer isto fisicamente por causa de sua característica marcantemente obesa, o fazem com galhardia no que diz respeito à dignidade e ao bem público.

sexta-feira, 2 de junho de 2006

Violência e sociedade

Violência tem etiologia. Não surge num vácuo histórico, nem acontece do nada. Violência tem raiz, origem, umas averiguáveis, outras não claramente distinguíveis.
Rollo May trabalha este tema de forma muito madura em seu clássico livro “Eros e violência”, afirmando que a agressividade em geral está relacionada à impotência animal, quando estes se sentem desprotegidos, tornam-se agressivos. Assim, é que um animal acuado, encurralado ou em sofrimento, pode ter reações absolutamente estranhas. O filme “O Patriota” traça este perfil, na pele de um homem pacato que vendo seu filho sendo friamente executado, torna-se um monstro, e revela uma violência que ele mesmo desconhecia.
Leonardo Boff ainda articula um conceito amplamente discutido no campo comportamental que é a “violência dos violentados”. Para ele, esta seria a violência como resposta ou a violência reativa, que brota de ambientes hostis, e muitas vezes trata-se de uma questão até mesmo de sobrevivência para aqueles que a praticam.
Arnaldo Jabor em sua análise sobre o hediondo e lamentável incidente ocorrido em Brasília na invasão que o MLST fez ao Congresso Nacional no dia 06/06/2006, foi muito feliz na sua observação afirmando que o Legislativo violentou a nação absolvendo pessoas com práticas ilegais e suspendeu sanções sobre pessoas comprovadamente corruptas; o Judiciário zombou do povo ao permitir que reconhecidos criminosos tivessem o direito de “não responder” numa Comissão Parlamentar de Inquérito, e que o Executivo tratou com descaso os sucessivos escândalos engendrados na cozinha do Palácio fazendo de conta que isto não era com eles. Esta violência dos poderosos se materializa agora na violência dos impotentes e dos partidos marginais que articulam esta nova Guerra dos Farrapos.
Tudo isto nos ajuda a ler a história, fazer hermenêutica da violência, mas precisamos lembrar que a agressão, a balbúrdia e o caos precisam ser rigorosa e exemplarmente julgados. Explicar não é justificar. Se o país mais uma vez tratar com indulgência cenas de bandidagem vamos precisar explicar outra vez, num futuro breve, novas cenas de selvageria pública que eclodirão neste país de tanta violência social.
Esperamos ainda que não sejam julgados apenas aqueles que praticaram estes recentes atos de selvageria recentes em Brasília, mas em nome da justiça e em nome de Deus, que os crimes de colarinho brancos também levem para a cadeia aqueles que tem sistematizado, “pandemizado” e “endemizado” a corrupção, outra forma de violência tão conhecida em nosso país.

quarta-feira, 3 de maio de 2006

TRABALHO

Em torno da idéia do trabalho nasceram muitas piadas, uma delas diz: “na hora de comer, comer; na hora de dormir, dormir; na hora de trabalhar, pernas para o ar, porque ninguém é de ferro”. Uma outra é descrita assim: “Às vezes me dá uma vontade de trabalhar, aí eu fico quietinho até a vontade passar”.De fato, muita idéia errônea foi construída em torno do trabalho. Aristóteles chegou a afirmar que o trabalho deveria ser deixado para os escravos e este conceito penetrou no mente européia por anos, até ser desafiada pela Reforma no século XVI.
No entanto, a doutrina da criação, registrada inicialmente no livro de Gênesis, inclui dentre as tarefas humanas o trabalho, e isto antes da queda da Raça humana. Ainda no Éden Deus disse ao homem: “Tenham domínio sobre os peixes, sobre as aves, sobre os animais domésticos e selvagens e sobre os animais do campo” (Gn 1.26).
A idéia de domínio não era a de exploração, mas acima de cuidado e proteção. Ao homem foi dada a tarefa de dar nome aos animais e de cuidar do jardim (2.20-21).
Isto demonstra que o Trabalho não estava associado à maldição, mas como parte intrínseca da tarefa de ser gente, de expressar sua humanidade. “Este ensinamento percorre todo o Antigo Testamento e culmina em Jesus, que era um homem trabalhador antes de se tornar um pregador itinerante” (Samuel Escobar). O povo judeu tinha um provérbio que era repetido de pai para filho: “Quem não ensina ao seu filho uma profissão, faz dele um ladrão”.
Os males que rondam o trabalho devem ser avaliados e discutidos: Karl Marx denunciou o desequilíbrio econômico afirmando que a maior mazela social tem a ver com a exploração da classe burguesa ao desvalorizar o valor humano do trabalho. Marx se referiu ao conceito da “mais-valia” que se dá pelo fato do trabalhador não ser valorizado pelo que fez. Este princípio é profundamente atualizado ainda no nosso mundo carregado de injustiça e opressão contra o trabalhador.
A Bíblia também denuncia severamente o trabalho opressivo. Ela nos ensina que Deus ouviu o clamor dos israelitas escravizados no Egito. Tiago denuncia a exploração da mão de obra, e os baixos salários, de uma forma que nenhuma ONG poderia dizer de forma mais apropriada e contemporânea: “Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos e que por vós foi retido com fraude está clamando; e os clamor dos ceifeiros penetrou até os ouvidos do Senhor dos Exércitos” (Tg 5.4).
Tanto a Reforma religiosa do Século XVI, com João Calvino e Lutero, quanto os Puritanos, procuraram associar o trabalho à vocação, demonstrando que ele era um instrumento de benção, não de opressão. Esta visão ajudou a formar a sociedade industrial Européia.
Quando o trabalho encontra este sentido da sacralidade e é descrito com um bem supremo ou vocação as coisas passam a ser feitas com maior sentido, porque são realizadas antes de tudo para Deus. Se é dramática a situação brasileira com remunerações indignas, igualmente o é fazer o trabalho de forma negligente quando se lesa o empregador com uma baixa qualidade de atividade e descaso, mesmo quando se trata daquilo que é público. Por ser vocação o trabalho traz realização e nos torna plenos naquilo que fazemos.

terça-feira, 18 de abril de 2006

Liberdade autêntica

O evento Tiradentes é um dos marcos mais significativos na história brasileira sobre sua liberdade enquanto nação, muito mais importante, por exemplo, que a Declaração da Independência feita às margens do Ipiranga por D. Pedro I, que nada mais foi que uma saída honrosa, um arranjo político, para satisfação de pressões internacionais da Inglaterra, trazendo favorecimento financeiro aos poderes externos. O Dia da Independência, da forma romântica como nos é ensinada nas escolas é uma grande farsa. Quem declarou a independência foi o opressor, que continuou dominando sobre uma suposta nação livre. A situação foi tão flagrante que vários países da América do Sul, por anos, recusou a reconhecer esta farsa da independência realizada na Terra Brasilis.
O evento Tiradentes é diferente. Homens desejosos da liberdade deram, de fato, suas vidas, sacrificando-as em torno de um ideal, que era uma nação livre das ingerências da Coroa Portuguesa. Morreram em praça pública, como criminosos e rebeldes, tornando-se semente para a autonomia brasileira.
Isto nos direciona para a questão da liberdade. O que é, de fato, liberdade? O que leva homens a darem sua vida e a morrerem por ideal? Os dicionários muitas vezes definem liberdade em termos negativos: “Ausência de repressão, prisão” ou mesmo “o fato de não estar acorrentado, restringido no seu direito de ir e ver, de pensar e afirmar o que pensa”. Todas definições possuem certo aspecto negativo. O verdadeiro clamor por liberdade, contudo, é mais que um apelo para se ver livre da tirania, sendo também, um convite para uma vida plena de significado.
Michael Ramsey fez uma série de palestras para a Cambridge University (Londres, 1970) indagando: “Todos nós queremos o homem livre de alguma coisa, mas precisamos também perguntar, para que queremos liberdade”.
O que Ramsey advoga é que Liberdade absoluta e ilimitada, não quer dizer liberdade autêntica. Ele usa o exemplo do peixe. Deus o criou para viver na água. Sua estrutura é preparada para absorver oxigênio da água, por isto, o peixe só vai encontrar seu significado, sua identidade, sua plenitude, vivendo na água. Ele está limitado ao seu habitat, mas nele encontra verdadeira liberdade. Se ele resolve sair do aquário em que vive, buscando viver no carpete ou no concreto, sua atitude o leva para a morte, não para a liberdade.
Autêntica liberdade, portanto, é exatamente o oposto daquilo que muitos pensam. Não existe liberdade quando perco a interação e responsabilidade para com Deus e para com os outros. Isto é escravidão ao meu egoísmo, aos meus instintos e aos meus apelos interiores. Neste sentido, minha liberdade torna-se minha algema.
Verdadeira liberdade, portanto, alterna dois pólos: O negativo (liberdade de que?) com o positivo (liberdade para que?)
Desde que o homem faça o que está dentro dele, cometerá sempre pecado mortal… livre, ele é apenas para o mal”(Lutero). Agostinho finaliza dizendo: “O Livre arbítrio sem a graça apenas outorga poder ao pecaminoso”. Neste caso, não há autêntica liberdade, que deveria nos ensinar a amar, mas uma forma de escravidão que nos leva a viver egoisticamente. Alexander Soljenitsin, conhecido dissidente russo afirmou: “Quando você despoja um homem de tudo o que ele possui, ele já não está mais sob o seu poder. É livre de novo”. Este é o paradoxo da liberdade.

terça-feira, 4 de abril de 2006

O Problema do sofrimento e do mal

Numa palestra proferida na Harvard University em 2001, o Dr Billy Graham, falou sobre os grandes mistérios que ainda perduram na humanidade apesar de sua conquista tecnológica. Problemas espirituais que só podem ser resolvidos com respostas morais e espirituais: (a) O problema do Mal - Nosso século povoado de tragédias: Mortes, guerras, catástrofes. Como explicar o mal, em seu poder de mudar nossa história e sonhos? (b) O problema do sofrimento - Divórcio, orfandade, guerras, violência, destruição da família. Por que sofremos? (c) O problema da morte – Como explicar este fenômeno que é ao mesmo tempo tão natural e antinatural?
A Bíblia nos ensina que o universo foi criado de forma perfeita e harmoniosa, e que Deus considerou que tudo que havia feito era muito bom, mas o pecado entrou no mundo por causa do orgulho, rebeldia e das escolhas morais feitas pelo homem. A dor e o mal vieram como conseqüência, não faziam parte do plano original de Deus. “Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias” (Ec 7.29).
O mal, a dor e a morte não faziam parte do propósito original de Deus, mas são resultantes de conflitos morais e decisões erradas. Se formos honestos, veremos que muitos dos males que sofremos resultam de nossa atitude tola nas escolhas que fazemos e nas prioridades erradas que damos à nossa vida.
Jesus, contudo, não considerou o sofrimento de uma forma normal. Muitas vezes se sentiu indignado e entristecido diante do desprezo humano em relação à vida. Por duas vezes tentou tirar dos discípulos uma cosmovisão equivocada e cultural que tinham de associar a dor a um pecado especifico (Lc 13.1-5; Jo 9.1-4). Ao ministrar sobre este assunto, deixou claro que, o mal, nem sempre, é resultado de escolhas morais. Ele considerou o mal como algo anormal, e por isto não aceitou resignadamente a brutalidade e violência da vida. Chorou diante da morte, reagiu diante de atitudes de lideranças que impunham sofrimento aos seus liderados, curou leprosos, cegos e coxos, conspirando contra a angústia presente na vida humana.
A dor, o mal e a morte ainda continuam sendo filosoficamente desafiadores, às vezes ficamos perplexos diante de notícias estarrecedoras. Apesar de não entendermos a complexidade destes fatos, somos exortados a lutar contra toda forma de expressão, violência e anti-vida com a qual nos defrontamos. “Precisamos resgatar a capacidade de indignação e dor diante da miséria que assola a América Latina” (Oscar Bulhole). Devemos lutar contra toda expressão satânica ou humana do mal, da injustiça e da opressão, lembrando que “A religião pura e sem mácula para com nosso Deus e Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo” (Tg 1.27).
O mal não pode ser explicado em todas as suas dimensões, mas isto não pode levar-nos a uma atitude cômoda em não combatê-lo com a prática do bem. O mal e a dor podem não ser teologicamente explicados, mas devem ser confrontados com o exercício do bem e da promoção do Reino de Deus. Quando somos a vítima do mal, somos também desafiados a enfrentá-lo com coragem, fé e esperança. “Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12.31).