Uma das boas heranças da tradição Judaico-cristã é sua capacidade de ser celebrativa. Infelizmente temos criado o esteriótipo do cristão “estraga-prazer” do religioso mau humorado, moralista e crítico que usualmente pessoas com tal perfil assume. Isto tudo torna-se, por definição, características de quem não conheceu ainda a graciosidade do Deus da bíblia e ainda luta por romper o velho conceito de um Deus temperamental e animoso que determinadas religiões insistem em propagar.
Curiosamente, a Bíblia, o livro que boa parte dos religiosos diz seguir, fala muito de celebração, principalmente no contexto vétero-testamentário. No calendário judaico sempre havia espaço para a festividade, para a celebração com muita festa, dança, bom vinho e abundante comida. O livro de Levítico (que trata das leis cerimoniais, civis e morais do povo de Israel), fala de pelo menos cinco festas fixas, estabelecidas por Deus para o seu povo. O Deus hebraico é descrito como um Deus festivo. Neste calendário anual havia lugar para a festa da Páscoa (ou da passagem), das Primícias, do Pentecostes, da expiação e dos Tabernáculos, cada uma delas relacionada aos feitos heróicos de Deus por seu povo (Lev 23.1-44). Todas estas festas eram populares, altamente festivas e tinham um lugar muito especial na agenda daquela nação. O calendário judaico era, portanto, marcado por festividades.
No Novo Testamento, o mesmo espírito de celebração estava presente. Jesus começa seu ministério e dá inicio aos seus sinais miraculosos, fazendo algo impensável para a nossa moralidade evangélica tupiniquim: Ele transforma água em vinho (Jo 2.1-12). A coisa é tão complicada que existem grupos tentando provar que este vinho não era vinho, mas era suco de uva. Bem, isto é história para um outro artigo...
Pelo seu caráter celebrativo, Jesus é mal interpretado e passa pela via crucis de ser acusado de “glutão, bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores” (Mt 11.19), e mostra na parábola do Filho pródigo que, a ausência de celebração, festa e dança, está relacionada a uma atitude de superioridade moral de um filho rígido, tenso e incapaz de demonstrar misericórdia, firmado na sua justiça própria e incapaz de perceber o irmão que está sendo restaurado, e que por isso não consegue participar das danças, sente agressão aos ouvidos quando ouve a música e sente-se ultrajado quando sabe que o Pai resolve matar um novilho preparado para uma ocasião especial e que agora manda fazer um churrasco com seus amigos porque o filho perdido fora encontrado. Faltou ao filho que ficou em casa, que simboliza o religioso moralista, os símbolos marcantes da presença de Deus: Festa, alegria, celebração e dança.
Certamente tais argumentos acima podem ser usados para justificativa para a festa do carnaval. Intencionalmente conduzi o tema desta forma para que pudéssemos refletir de forma madura sobre as implicações da celebração desta festa folclórica e histórica de nosso povo. O carnaval tem tudo, menos celebração.
O problema da nossa cultura brasileira é que, na concepção popular, celebração e alegria não são temas de um povo que caminha com Deus, mas de um povo antagônico a Deus. A celebração, os gritos de entusiasmo e euforia pertencem ao universo dos pagãos e dos ímpios. Religiosos e não religiosos possuem esta mesma concepção... Por causa deste conceito deturpado, tende-se a excluir Deus dos aspectos celebrativos da vida, a sacralidade se torna ausente e até contrária à festa. A pessoa que se aproxima de Deus acredita, de forma sub-reptícia, que não pode celebrar, tem que se penitenciar, transforma a vida em um peso, e o viver em fadiga. As vestes perdem o brilho, as cores, a festividade é riscada da agenda, transforma-se em um ser triste. O resultado é caótico.
Como resposta a esta errônea interpretação, outro grupo resolve celebrar fazendo outra leitura equivocada. Se com Deus a vida é feia, sem cores e triste, vamos exclui-lo do roteiro da folia. Deus tem que se tornar ausente por ser alguém que se opõe a alegria, assim faz-se uma celebração às avessas. Então, ao se fazer uma festa folclórica, exclui-se Deus e celebra-se Baco (Um Deus pagão, donde se origina a palavra bacanal). Celebra-se assim, a orgia, o carna-val, festa onde a carne, símbolo dos nossos instintos mais primitivos e resultantes deste Id, desta força animal inerente à natureza humana, torna-se evidente. Não se celebra Deus, celebram-se instintos e impulsos que se imiscuem às fantasias submersas e tornam-se evidentes neste período do carnaval. Nestes dias, cria-se uma sociedade que sacrifica valores porque afinal de contas o limite do permissivo torna-se mais amplo.
O problema é que, o desejo pela celebração, torna-se muitas vezes o oposto. Espera-se a alegria, e ela transforma-se em pesar. Espera-se festividade e ela se decodifica em pranto. Não se celebra a vida, porque fora de Deus, toda tentativa de alegria é dissipada, todo esforço pela alegria nulifica-se.
Nas festas históricas do povo de Israel Deus estava no centro. Nem por isto, a euforia e alegria precisavam ser banidas, porque Deus não é antagônico àquilo que nos plenifica, aliás ele é o ponto no qual torna-se possível encontrar o maior sentido de viver e de amar. A perspectiva do prazer é intensa e intencionalmente presente nos textos sagrados, pois, “fora de Deus, quem pode comer, beber e alegrar-se?” (Ec 2.24-25). O carnaval faz promessas que não pode cumprir, cria expectativas que nunca se concretizarão, promete celebração e muitas vezes gera um resultado completamente oposto.
Celebração só é autêntica quando nos torna plenos. Se no final da festa o resultado é o vazio, é a dor de um coração sem resposta, de uma família fragmentada e dividida, o que se esperava nela tornou-se o oposto daquilo que ela prometia dar. Ao invés de sermos preenchidos com manifestações de paz e harmonia, tal festa tornou-se num elemento da divisão e da porfia. É uma celebração às avessas. É a anti-celebração.
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2003
quinta-feira, 16 de janeiro de 2003
AS CRIANÇAS NO REINO DE DEUS
Herdeira da reforma, a Igreja Presbiteriana tem uma doutrina que hoje beira à heresia nos meios evangélicos: que os filhos dos crentes são herdeiros da mesma promessa de vida (1 Co 7.14), e que embora Deus não tenha netos, mas filhos, Ele tem promessa de vida para a descendência dos cristãos, pois ele não nos tem dado filhos para povoar o inferno. “Não trabalharão debalde, nem terão filhos para a calamidade, porque são a posteridade bendita do Senhor e seus filhos estarão com eles” (Is 65.23). Os filhos, são herdeiros da mesma herança. Deus faz um pacto mais abrangente que com indivíduos, Deus fez um pacto com a família.
O fato de tal doutrina hoje ser considerada semi-herética, possui um pano de fundo histórico.
No Século XVI, quase simultâneo à Reforma, surgiu um grupo radical, os anabatistas, que foi considerado herético por causa de suas estranhas posições especialmente quanto ao batismo: Exigiam que seus seguidores se rebatizassem ao se filiar ao seu grupo, e rejeitavam veemente o batismo de crianças. Por causa de suas posições, foram duramente perseguidos, alguns indo parar na fogueira por sua excentricidade doutrinária, mas como sempre acontece na história, mártires são facilmente considerado heróis e comumente o herege não é o que vai para a fogueira, mas aquele que é o algoz.
Com a popularização do Pentecostalismo que eclodiu na Azuza St, em Los Angeles, em 1907 e o seu vertiginosos crescimento e, tendo tais movimentos adotado princípios anabatistas, o que era herege tornou-se o padrão, e o que se convencionava correto, hoje beira à apostasia. A história tem o poder da ironia.
Contudo, vale a pena considerar a grande promessa abrâmica que se estende à igreja de Cristo, que considera a família do povo de Deus parte de um pacto muito mais amplo, que se estende às gerações. “Estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência no decurso de suas gerações, aliança perpétua para ser o teu Deus e da tua descendência” (Gn 17.7). Nossos filhos são incluídos no pacto que nos foi dado. Eles são inseridos nesta mesma aliança. Entendendo isto Paulo faz a seguinte análise hermenêutica. “Doutra sorte, os vossos filhos seriam impuros, porém, agora, são santos”. (1 Co 7.14).
Não podemos desconsiderar as implicações da grande responsabilidade e promessa que tal doutrina traz as nossas famílias.
O fato de tal doutrina hoje ser considerada semi-herética, possui um pano de fundo histórico.
No Século XVI, quase simultâneo à Reforma, surgiu um grupo radical, os anabatistas, que foi considerado herético por causa de suas estranhas posições especialmente quanto ao batismo: Exigiam que seus seguidores se rebatizassem ao se filiar ao seu grupo, e rejeitavam veemente o batismo de crianças. Por causa de suas posições, foram duramente perseguidos, alguns indo parar na fogueira por sua excentricidade doutrinária, mas como sempre acontece na história, mártires são facilmente considerado heróis e comumente o herege não é o que vai para a fogueira, mas aquele que é o algoz.
Com a popularização do Pentecostalismo que eclodiu na Azuza St, em Los Angeles, em 1907 e o seu vertiginosos crescimento e, tendo tais movimentos adotado princípios anabatistas, o que era herege tornou-se o padrão, e o que se convencionava correto, hoje beira à apostasia. A história tem o poder da ironia.
Contudo, vale a pena considerar a grande promessa abrâmica que se estende à igreja de Cristo, que considera a família do povo de Deus parte de um pacto muito mais amplo, que se estende às gerações. “Estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência no decurso de suas gerações, aliança perpétua para ser o teu Deus e da tua descendência” (Gn 17.7). Nossos filhos são incluídos no pacto que nos foi dado. Eles são inseridos nesta mesma aliança. Entendendo isto Paulo faz a seguinte análise hermenêutica. “Doutra sorte, os vossos filhos seriam impuros, porém, agora, são santos”. (1 Co 7.14).
Não podemos desconsiderar as implicações da grande responsabilidade e promessa que tal doutrina traz as nossas famílias.
Anápolis 15.01.03
Chácara do Billy Fanstone e Jussara – 72 graus F
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