sábado, 19 de março de 2022

De Quanto Tempo você Precisa?

 



Tempo é uma questão de prioridade, não uma questão de relógio. Há um texto, cuja procedência ignoro, chamado O Banco da Vida. Ele diz assim:

"Quer saber o valor de um ano? Pergunte a um garoto que repetiu a série escolar. Para saber o valor de um mês, pergunte a uma mulher que teve um filho prematuro. Para saber o valor de uma semana, pergunte a um editor de jornal semanal. Quer saber o valor de um dia? Pergunte a quem tem tarefas árduas para fazer. Para saber o valor de uma hora, pergunte aos namorados que não veem a hora de se encontrar. Para saber o valor de um minuto, pergunte a quem perdeu o avião. Para saber o de um segundo, pergunte a quem conseguiu evitar um acidente de trânsito e, para saber quanto vale um milésimo de segundos, pergunte a um atleta que ganhou medalhas de prata nas olimpíadas. Por isso, não desperdice o seu tempo. Ele é seu bem mais precioso!"

O autor de Eclesiastes afirma que “há tempo para todo propósito debaixo do céu.” Ao contrário do que muitos creem, não há tempo para tudo, apenas quando há propósito. Toda vez que houver intencionalidade, o tempo aparecerá. Não falta tempo, falta foco e prioridade. Todos os dias decidimos o que faremos com o tempo que temos e o gastamos naquilo que consideramos importante e valioso.

Para aqueles que dizem não ter tempo, gosto de usar a seguinte analogia. Imagine se sua agenda estivesse lotada hoje, surgisse a oportunidade de realizar um grande negócio e você teria que parar suas atividades para realizá-las. Você teria ou não tempo para isso? Você não remanejaria toda sua agenda para resolver essa questão?

Imagine outro cenário: um jovem se apaixona por uma garota e quer vê-la novamente, antes de sua viagem. O problema é que ela mora em outro país e leva tempo encontrá-la novamente. Você não acha que ele faria todo o possível para adequar os horários e estar com ela? 

Quando você diz que não tem tempo para descansar, o que você está declarando, de fato, é que descanso não é algo realmente importante para você. Quando você diz que não tem tempo para sua família, você está afirmando que gastar tempo com sua esposa e filhos não é algo muito importante. Quando você diz que não há tempo para investir em sua vida espiritual, implicitamente, você afirma que Deus não é algo para ser colocado em primeiro plano.

De quanto tempo você precisa para fazer o que tem de ser feito? Na verdade, não é necessário ter horas a mais no relógio, mas sim foco e mais concentração. Se você tivesse mais horas, certamente investiria mais tempo no que considera importante. Afinal, mais da mesma coisa te leva para o mesmo lugar.

Você não precisa de mais tempo, mas de mais atenção para o que é fundamental. Não é de tempo que você precisa. Você precisa de propósito!

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Não Olhe para Cima!

  




 

Com roteiro e direção de Adam McKay, o filme Não Olhe para Cima (2021) se tornou o terceiro mais visto da Netflix em todos os tempos. Do gênero ficção científica e sátira política, estreado por Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence e Meryl Streep, ele atraiu a atenção do grande público e surpreendeu a todos com o seu sucesso. Mas, o que a obra sugere?

 

Os astrônomos Mindy (DiCaprio) e Kate (Jennifer) fazem a descoberta surpreendente de que há um cometa orbitando o sistema solar e vindo em direção à Terra. Seu impacto será semelhante ao de um asteroide que colidiu com o planeta há cerca de 66 milhões de anos e extinguiu a maior parte dos seres vivos. Preocupados,

 

procuram as autoridades para revelar que o choque acontecerá em seis meses, mas são totalmente ignorados pelos políticos que no momento discutem pautas que podem afetar sua popularidade. Os especialistas procuram também a Imprensa, que trata com ironia as informações recebidas, ignorando a advertência.

 

O filme é um tanto arrastado e gira em torno das inócuas discussões politicas, polarizações, insensatez, manipulação da mídia, dos políticos e de um poderoso e estranho empresário que vê na catástrofe a chance de obter grandes lucros. Com o comportamento deste empresário a obra mostra como as redes sociais podem ser facilmente manipuladas por interesses diversos.

 

O enredo é maniqueísta e os interesses pessoais são sempre colocados acima do bem comum. A filósofa Hannah Arendt afirma que quando a vida humana se torna

 

descartável, estamos em sério perigo. Os cientistas que veem a catástrofe iminente são tidos como ameaças e parecem agir como idiotas.

 

Não Olhe para Cima aborda o negacionismo, bem como a recusa em aceitar uma realidade cientificamente comprovada. Mostra como a mídia pode prestar um desserviço quando não está interessada nos fatos, mas sim em narrativas que atraem o público e vendem mais. Também lança luz sobre a política inescrupulosa e insensata e como a ganância e o desejo de ter vantagem pode conspirar contra todo o bom senso e a realidade. 

 

O filme se torna vago diante de um roteiro exagerado. Falta sutileza, elemento fundamental quando a intenção é destacar grandes absurdos, mas pode ser uma boa proposta para quem quer se divertir e não está obcecado com tolices e desatinos.

 

 

A cena que mais me chamou a atenção é uma quase esquecida no filme! É o momento em que Yule (Thimotée Chalamet), um skatista desmiolado, começa a namorar, por acaso, a astrônoma Kate. Ele parece alheio a tudo, mas quando o grande impacto está para acontecer, ele é o único que consegue olhar verdadeiramente para cima, fazendo uma oração sensata e profunda. Eu esperava mais sátira e humor nesta oração, mas ele a faz com reverência e todos, perdidos na fé e na espiritualidade, incapazes de olhar para cima, conseguem dizer: Amém!

 

Talvez estejamos aprendendo a “olhar para cima”, ainda que estejamos rodeados pela insensatez e a loucura dos políticos insensíveis, da mídia desatenta e dos empresários gananciosos. Mesmo diante da iminente destruição humana, ainda é possível olhar para cima!


Farei o que Puder... Enquanto eu Puder

  



 

Recentemente, encontrei um conhecido professor de Educação Física em nossa cidade, que me disse o seguinte: “Eu não sei quanto tempo terei para praticar esportes, nem como será minha saúde amanhã, mas eu farei o que puder, enquanto eu puder.”

 

Todos certamente sentimos cada vez mais o processo de envelhecimento do corpo e ele acontece mais rapidamente do que imaginamos. Você vai praticar determinado esporte e percebe que o corpo reage mais lenta e tardiamente. É como um motor que perdeu seu poder de aceleração. Entretanto, não dá para encerrar a carreira por causa da diminuição do ritmo. Dentro do possível, é preciso mesmo fazer o que se pode, enquanto for possível.

 

 

Um antigo livro judaico diz: “Tudo que vier à sua mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças.” Não é necessário (nem possível) fazer além das forças, mas também não precisamos fazer aquém...

 

A tentação de acomodar é gigantesca! O corpo se mostra preguiçoso e lento. As plataformas de streaming e as redes sociais atraem. O sofá fica mais macio e surge o grande risco da estagnação. Nestas horas é necessário vencer a tentação do conforto e da preguiça. Devemos fazer “o que pudermos, enquanto pudermos.”

 

O corpo tem limites e impõe restrições. Parei de jogar futebol porque, ultimamente, eu tinha apenas duas alegrias em relação a esse esporte: primeira, entrar no campo e sentir a adrenalina de jogar; segunda, quando conseguia, sair do campo sem me machucar, sem distensão muscular. Mas chegou o momento em que a segunda

 

alegria foi se tornando cada vez mais rara. Então parei! Uma boa caminhada não me dá a mesma adrenalina do campo, mas me renova e não corro risco maior de uma contusão. Pronto.

 

Haverá um tempo em que terei de diminuir o tempo e a extensão da caminhada, mas tenho planos de fazer o que eu puder... enquanto eu puder.

 

É muito arriscado limitar o corpo antes da limitação que o próprio tempo vai impor. Não é saudável fazer menos do que é possível. Talvez essa seja a grande diferença entre idosos saudáveis e não saudáveis. Alguns decidem mexer o esqueleto e mantêm o corpo e a mente ativos.

 

Portanto, faça o que puder enquanto puder...

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Sua Falta de Fé é Perturbadora

 



 

A conhecida série Star Wars (Guerra nas Estrelas) arrastou uma multidão de fãs aos cinemas e conquistou um número muito grande de admiradores. A trilogia levou cerca de 30 anos para ser concluída e seu conteúdo é marcado por diálogos inteligentes. A saga, escrita por George Lucas sob orientação do maior mitólogo do mundo - Sir Joseph Campbell - é carregada de símbolos e lendas.

Um dos trechos mais interessantes do filme acontece entre Luke, que diante de tantos reveses afirma para Yoda: “O meu grande problema é que eu não acredito”. A esta afirmação Yoda responde: “É por isso que você fracassa. Sua falta de fé é perturbadora” ou, conforme o texto em inglês: “Estou muito preocupado com sua falta de fé”.

Elben M. Lens César afirmou: “Toda vez que se fala na evolução não como método divino de operação, mas como jogo de forças do acaso; toda vez que se encarece a relatividade como uma deusa; toda vez que se profetiza o enclausuramento do homem nas garrafas da cibernética; toda vez que se pretende, com a técnica, substituir plenamente a natureza; sim, toda vez que se encaminha para a afirmação de uma autossuficiência humana, pretensiosa e injusta, ficamos no ar.”

Basta ter acesso a alguns dos mais celebrados cientistas e filósofos - que em suas introspecções caminharam para o secularismo e a descrença - para percebermos quão malévolos foram os resultados do secularismo em suas almas. Sartre, Nietzsche, Camus ou Jaspers, na tentativa de eliminar a ideia de Deus, penetraram em um universo de sombras e escuridão, náusea, niilismo e desespero. A falta de fé é perturbadora e o seu resultado é o absurdo e a angústia.

 A supressão de Deus rouba do homem uma das suas dimensões essenciais: o desejo de transcendência, o anseio pelo infinito. Independentemente da formação cultural das sociedades, sempre perceberemos a dimensão da sobrenaturalidade. Por essa razão, o matemático e filósofo Blaise Pascal afirmou que “o homem tem um vazio do tamanho de Deus.”

Talvez seja isso o cerne da falta de sentido e angústia de muitos. Eventualmente, são pessoas bem sucedidas, vendem uma imagem de sucesso e realização, mas há um senso de vacuidade não explicável que precisa ser tratado. Falta uma dimensão mística, uma resposta espiritual. Ela é disponível e real.

Jesus percebeu nitidamente isso nas pessoas que andavam ao seu redor. Há um relato do Evangelho que afirma que ele se compadeceu delas por serem “como ovelhas sem pastor.” Jesus oferece um convite: “Vinde a mim todos os cansados e sobrecarregados e eu vos aliviarei.”

Para você, cuja alma é marcada pelo secularismo, eu diria: Por que não tentar se aproximar de Jesus? Seu convite é de graça! Sua oração “sem fé”, mas marcada por um fio de esperança, pode revolucionar sua existência.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Prisioneiros do medo



 

Na festa familiar do dia de Natal, minha esposa, irmão e cunhada contraíram o influenza H3N2, e no período do final de ano todos passaram por um grande perrengue com esta doença. Minha esposa sofreu muito com uma forte dor de garganta e por quase cinco dias mal conseguia engolir, e até mesmo beber água tornou-se dolorido. Mas era “apenas” uma gripe e ia passar logo. E passou.

 

Mas quinze dias depois, recebemos a visita de outro vírus, o Covid-19, e desta vez todos da família foram contaminados, inclusive meus filhos que moram foram do Brasil e estavam conosco. Apenas meu netinho de 2 anos não foi positivado. E agora, com minha filha grávida, minha sogra de 86 anos em casa, todos estávamos enfrentando uma ameaça com outros tons: fazíamos agora parte de uma estatística de uma pandemia que só no Brasil já matou mais de 620 mil pessoas.

 

O que poderia acontecer? Apesar de sabermos que se tratava de uma cepa mais branda todos ficamos assustados com os possíveis desdobramentos e as consequências. Graças a Deus, todos passamos muito bem. Os sintomas não passaram de um gripe leve, e na minha filha foi quase assintomático. Mas era Covid-19. Pessoas ligavam, oravam, queriam saber como estávamos reagindo. Alguns ainda mais cuidadosos nos trouxeram almoço e lanche para nos apoiar e mostrar carinho e cuidado. Minha mãe que mora em Palmas-TO, ligava todos os dias para saber noticias.

 

No dia 20/12/21, o site da CNN notificou que na cidade do Rio de Janeiro, a Influenza estava matando mais do que a Covid-19, em dezembro quando se tratava de números absolutos,. No último mês do ano, 17 pessoas haviam morrido por Síndrome Respiratória Aguda (SRAG) provocada pelo coronavirus, quase a metade dos óbitos provocados pela gripe no período: 33, de acordo com dados do Sistema de Informações em Saúde da Prefeitura do Rio de Janeiro. Mas poucas pessoas estão, de fato, com medo da gripe. Somos prisioneiros do medo do Covid.

 

De fato não dá para minimizar o grande desafio da pandemia, mas um aspecto precisa ser considerado. Podemos sucumbir mais aos efeitos deletérios do medo do que da doença em si. E assim deixamos de viver, nos encolhemos nos nossos afetos, restringimos relacionamentos, nos enclausuramos nos nossos temores.

 

Um artigo da Revista Brasileira de Psiquiatria afirma que “No caso de uma pandemia, além das manifestações físicas, o medo é capaz de aumentar os níveis de ansiedade e estresse em indivíduos saudáveis ou de intensificar os sintomas daqueles com transtornos psiquiátricos pré-existentes.” E fica o medo do vírus e de suas consequências. Medo que pode se exacerbar e se tornar uma “coronofobia”, provocando ansiedade e insegurança, já que desorganiza a previsibilidade, não só em relação ao comportamento do vírus em cada pessoa mas também no que diz respeito ao futuro da carreira, do sustento e dos negócios. Tais incertezas elevam a propensão a transtornos psiquiátricos e geram um evento traumático coletivo, numa dimensão nunca antes observada.

 

O medo precisa ser enfrentado. Um ditado japonês afirma que “o medo de perder não deixa a gente ganhar”. O medo precisa ser tratado, eventualmente precisamos conversar com amigos, terapeutas, famílias, não num negacionismo inconsequente e irresponsável, nem numa neurose fóbica limitante. O medo não é bom conselheiro. A Bíblia diz que “o amor lança fora o medo”. Talvez seja uma referência ao fato de que comunidade, igreja, família, amigos, todos os atos de solidariedade e amizade podem nos ajudar a terapeutizar, com a graça de Deus, o medo que nos ronda.

 

 

 

 

 

 

 

Não vamos trabalhar!!!

 


 

A maioria de nossa idade adulta gastamos trabalhando, envolvidos com o trabalho, procurando trabalho e falando do trabalho. Esta é uma forma social de iniciar uma conversa: “Eu sou ....” ou “Eu trabalho em...” Assim tem sido desde sempre e de forma mais profunda na era industrial. Muitos valorizaram mais o trabalho em suas vidas, que até mesmo suas relações afetivas ou sua fé.

 

Com  o surgimento da tecnologia, o trabalho tem sido cada vez menos físico e mais intelectual, além do mais existe mais liberdade de escolher a educação e de poder trabalhar nas áreas nas quais cada um se sente recompensado, cuja remuneração satisfaça, e que assegure o status social desejado.

 

Com a economia digital, o trabalho exige plena atenção, habilidade para criar, produzir, vender, inovar e consumir. Apesar do papel central do trabalho na vida do ser humano, recentemente um forte movimento, começou a surgir nos EUA, e tem sido chamado de “Anti-work movement”.

 

A pergunta que o Sheila Flynn levanta no Jornal Inglês “The Independent”  É interessante: é possível realmente existir um mundo sem trabalhos?” Ela analisa o fenômeno atual de um grande número de pessoas que pediram demissão de seus trabalhos. As estimativas falam em 4 milhões de pessoas que recentemente decidiram não trabalhar em empregos formais.

 

Na verdade este movimento não defende explicitamente a ideia de não trabalhar, mesmo porque as pessoas precisam sobreviver; mas expressa um desejo profundo de mudança, que ficou mais acentuada na pandemia. Um fórum foi criado, “Reddit”,  e tem crescido vertiginosamente. O número de pessoas inscritas aumentou 400% em um ano, alcançando quase 1 milhão de assinaturas. A proposta deste fórum é “começar um diálogo sobre a problemática do trabalho como conhecemos e resistir aos valores dos gerentes e corporações que encontram-se acima das necessidades dos trabalhadores e as relações abusivas do trabalho”.

 

Em Outubro de 2021, Elle Hunt, colunista do prestigiado “The Guardian”, escreveu um artigo sobre o assunto, aprofundando a discussão e explorando a crítica sociológica que este movimento suscita sobre o modelo “exaustivo e insustentável de trabalho” que sustenta a atual economia.

 

Os líderes do movimento reconhecem que precisam de ter dinheiro para pagar as contas e colocar comida na mesa, mas trata-se de uma reação ao sistema de trabalho estressante a que os trabalhadores tem sido submetidos. Eles advogam a necessidade das pessoas encontrarem um novo estilo de vida, mais saudável, mais feliz, e que realmente possa trazer significado.

 

Trata-se, portando, de uma reflexão sobre o papel da produção e do trabalho. Qual o local que ele deve ocupar em nossas vidas e prioridades? É possível repensar o modelo atual que tem sido a mola mestre da Era Industrial? Estamos iniciando um novo processo sobre as relações de trabalho que marcarão a Sociedade moderna nas próximas gerações? Bem... apenas o tempo poderá responder a estas profundas questões.

 

 

Faz escuro mas eu canto

 


No dia 14 de janeiro de 2022, faleceu o poeta e jornalista amazonense, Thiago de Mello, aos 95 anos. Ele foi um dos grandes escritores de sua geração. Nascido em Barreirinha, no interior do Amazonas, era um dos poetas mais conhecidos da região e cantou em prosa e verso sua luta pela preservação da maior floresta do mundo. Nara Leão tornou conhecido seu poema ao transformar sua letra em música. 

O texto mais conhecido de sua poesia, diz o seguinte: "Faz Escuro, Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar." Esta é uma maravilhosa noticia, não é? Saber que a noite não dura para sempre. 

Na verdade, os versos de Thiago de Mello parecem inspirados numa antiga poesia judaica, narrada no livro de Salmos, o texto tem um desdobramento interessante no judaísmo: “Porque a sua ira dura só um momento; no seu favor está a vida. O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.” (Sl 30.5)

É um salmo que descreve a bondade de Deus no meio do dor e da angústia. A verdade é que não há dor que dure para sempre, nem luto que não se encerre. Talvez este seja o momento mais difícil da sua vida, pode ser que você já tenha passado por situações ainda mais complexas, olhe para a sua história. A dor não tem o poder de predominar. Assim como o prazer e a alegria, a dor é fugaz e passageira. Amanhã será um novo dia, trazendo esperança e novas expectativas. 

Dois personagens bíblicos levaram a sério a questão de cantar na noite escura. Quando chegaram a Filipos, porta de entrada da Macedônia, os apóstolos cristãos, Paulo e Silas foram duramente espancados e jogados numa prisão, esmagados pelo peso da tortura a que haviam sido submetidos. O que fizeram? Surpreendentemente começaram a cantar. Este relato impressionante registrado nos anais da história do cristianismo teve desdobramentos inesperados, levando o carcereiro torturador, a um encontro pessoal consigo mesmo e com Deus. O impacto foi tão imediato, que ele decidiu receber os prisioneiros como hóspedes em sua casa, tratou suas feridas, lhes serviu refeição e tratou de suas feridas. Aquele que causava sofrimento, trouxe medicina e cura.

“Faz escuro mas eu canto.” Não é fácil cantar quando as trevas dominam, quando a dor dita o tom, e a esperança parece desaparecer. Não devemos cantar apenas quando há claridade. É importante ter esperança no caos. Acreditar quando o cenário é nebuloso. Cantar na noite escura, traz luz nas trevas, ilumina os porões menos arejados. Revigora a alma. Cantar em meio as trevas é rebelião, é subversão, é contra-intuitivo. O cenário pode não ser otimista, mas o coração ainda pode se manter elevado, afugentando as trevas, trazendo luz...cantando.