quinta-feira, 20 de janeiro de 2005

A TIRANIA DOS FILHOS

Uma antiga amiga minha afirmava que estava sempre vivendo na contramão da história: quando pequena, os melhores pedaços de frango no almoço de sua casa eram reservados aos adultos, e hoje, a melhor parte da refeição estava reservada às crianças.
Na verdade, sua afirmação jocosa reflete apenas algo bem mais sério que tem acontecido em nossos dias. Os pedagogos e orientadores têm chamado isto de "a tirania dos filhos". A dificuldade dos pais em estabelecer limites cria uma geração de crianças mimadas, dominadoras e desajustadas socialmente.
A pedagoga Tânia Zagury, da Universidade Federal do Rio de Janeiro escreveu nos idos de 90 uma tese, publicada com o titulo, "Sem padecer no paraíso – em defesa dos pais ou sobre a tirania dos filhos", baseada na entrevista com 160 pessoas da classe média carioca e concluiu que, temendo traumatizar os filhos e não querendo desagradá-los ao impor padrões mais rígidos de educação, os pais passaram a ser comandados pelos filhos. Seu trabalho mostra que os pais não conseguem definir regras triviais em casa e a maioria está confusa sobre seus papéis e confessa que não sabe como agir com eles.
Sua pesquisa demonstra o seguinte:
88% acabam fazendo concessões aos filhos com medo de errar na educação.
88% se sentem culpados em dizer não aos filhos.
76% crêem que a disciplina possa controlar alguns casos de rebeldia, mas teme aplicá-la.
73% são a favor do castigo, embora não estejam muito claro quando e como devem fazê-lo.
70% Acreditam que as mães que trabalham fora não conseguem atender adequadamente as necessidades de seus filhos.
68% fazem o que a criança pede tentando evitar sentimento de culpa.
67% se sentem inseguros quanto às regras da educação.

Como educar filhos no Século XXI?
Esta é uma grande questão para nossos dias. Nosso contexto pós moderno, com ênfase no pluralismo, no relativismo e na tolerância, gerou um vácuo educacional. Nossa sociedade questionou a educação tradicional mas não conseguiu colocar outro modelo em seu lugar. Ninguém aceita as condições de autoritarismo impostas no antigo modelo educacional, mas a situação torna-se ainda mais grave, quando os filhos se tornam mimados, abusados, descontrolados, com uma enorme capacidade de fazerem chantagem e até mesmo agredirem fisicamente, e os pais amedrontados e acuados com a possível reação dos filhos, caso suas necessidades não sejam plenamente atendidas. Surgem assim, verdadeiros "monstrinhos verdes" dentro de casa, vorazes, temperamentais, exigentes e cheios de direitos sem responsabilidade.

O papel da autoridade
Fundamentados num falso psicologismo, os pais se tornaram presas de chavões mal interpretados do tipo "disciplinar pode traumatizar os filhos", "se dissermos não eles podem crescer recalcados", "rebeldia é uma forma de afirmar sua personalidade" e "nunca diga não".
Ora, tanto a visão mais antiga sobre educação, como pesquisas mais modernas sobre o assunto mostram exatamente o contrário.
Salomão, o sábio milenar afirmava que "A criança entregue a si mesma, cairá no mal" (Pv 29.15). Permitir que a criança faça escolhas num momento em que não tem maturidade para isto, e seja voluntariosa em suas atitudes, torna-se na verdade, um enorme peso e desgraça para ela. Esta suposta liberdade pode trazer-lhe graves conseqüências.
Freud, controvertido médico e pai da psicanálise, analisou a estrutura psíquica do ser humano sobre três pilares: Id, Ego e Superego. O Id é intuitivo, impulsivo, busca prazer imediato e não tem regras. Quando ele quer, tem que ser aqui e agora, não importando as conseqüências que tal atitude trará no futuro. O Superego é comparado à consciência social e moral. Está sempre censurando e questionando se uma satisfação pessoal deve ou não ser assumida. E o Ego, faz um papel mediador entre estas duas forças, sendo um fiel da balança, que tenta avaliar as conseqüências, e estabelecer limites e regras que sejam flexíveis o suficiente para que a pessoa não seja frouxa e licenciosa demais para atender o Id, nem repressiva e autoritária demais para se submeter ao domínio do Superego. Quando O Id predomina, temos um descontrole psicológico, a pessoa está entregue aos seus impulsos e quer atendê-lo sempre. Torna-se uma pessoa desajustada socialmente, e em casos mais graves um psicopata. Quando o Superego predomina, a pessoa se torna cheia de recalques, tem dificuldade de tomar decisões, tem medo de tudo e se encolhe. Nem a licenciosidade nem a rigidez interessam à estrutura psicológica saudável.
Içami Tiba, psiquiatra renomado hoje no Brasil pelas suas teses sobre educação infantil afirma que os filhos têm uma enorme necessidade de delimitações. Ao estabelecer limites os filhos aprendem que a sociedade tem regra, e quando os pais, para poupar os filhos não fixam estas normas poderão trazer muitos pesares para eles na fase adulta, porque relacionamentos são normativos. Tiba advoga o princípio de uma disciplina que seja constante, consistente e que ensine as conseqüências aos filhos.
Quando as regras são claras, elas se tornam cercas de proteção psicológica aos filhos. Incoerência e rigidez são traumáticas assim como a falta de parâmetros.
Deus colocou os pais com a tarefa de mentoria sobre os filhos. Nossa sociedade tem muita dificuldade em obedecer autoridades, bem como em exercê-las. Muitos não querem estar em posição decisória, mas é necessário que existam regras, por isto nenhum sistema de governo é anárquico. Filhos criados debaixo de uma autoridade amorosa e sensível, onde existe comunicação e ternura, com limites claros e amenos sentem-se seguras. Eventualmente protestarão, principalmente na fase em que é necessária a afirmação da personalidade, mas saberão que são amados. Nunca vi filhos criados debaixo de uma disciplina amorosa crescerem neuróticos, mas já vi muitos filhos neuróticos por ausência de regras, assim como tantos outros deformados em seu caráter pelo excesso de regras.
A autoridade dos pais é altamente benéfica para a organização do mundo interior dos filhos. E esta autoridade foi dada por Deus. Pais não precisam mendigar autoridade, já que esta lhe foi outorgada, mas precisam exercê-la. Isto os livrará de futuros dissabores no relacionamento com seus filhos, e de transtornos sociais e morais que filhos tiranos podem trazer sobre si mesmos.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2005

A Oração do Senhor

Não posso dizer “PAI”
Se não demonstro o espírito comunicativo na vida diária.
Não posso dizer “NOSSO”
Se vivo num compartimento espiritual estreito.
Não posso dizer “QUE ESTÁS NO CÉU”
Se estou tão ocupado com a terra que enterro meus tesouros aí.
Não posso dizer “SANTIFICADO SEJA TEU NOME”
Se eu, que sou chamado por Seu nome não vivo santamente.
Não posso dizer “VENHA A NÓS O TEU REINO”
Se não fizer tudo o que estiver em meu poder para apressar a tal vinda.
Não posso dizer “SEJA FEITA A TUA VONTADE”
Se sou desobediente à Sua vontade para comigo.
Não posso dizer “ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU”
Se não estou preparado para devotar minha vida aqui ao Seu serviço.
Não posso dizer “O PÃO NOSSO DE CADA DIA DÁ-NOS HOJE”
Se estou vivendo numa experiência passada.
Não posso dizer “PERDOA-NOS AS NOSSAS DÍVIDAS, COMO TAMBÉM PERDOAMOS OS NOSSOS DEVEDORES”
Se estou de briga contra alguém.
Não posso dizer “NÃO NOS DEIXE CAIR EM TENTAÇÃO”
Se estou sempre me expondo a coisas provocativas.
Não posso dizer “LIVRA-NOS DO MAL”
Se estou sempre alimentando a malícia em meu coração.
Não posso dizer “TEU É O REINO”
Se nunca procuro aquilo que se relaciona com o teu governo
Não posso dizer “TEU É O PODER “
Se nunca me submeto ao teu governo e a tua direção.
Não posso dizer “TUA É A GLÓRIA”
Se não estou procurando a glória para mim.
Não posso dizer “PARA TODO SEMPRE”
Se meu horizonte está limitado pelas coisas do tempo.

sexta-feira, 26 de novembro de 2004

SER AGRADECIDO FAZ TODAS AS COISAS MELHORES

A Bíblia nos mostra que gratidão é o caminho que Deus deseja que trilhemos. Lamentavelmente tenho aquela mesma impressão expressa por um poeta brasileiro. "Só encontro, gente amarga pendurada no passado". O caminho da murmuração, do lamento, da ingratidão não é, definitivamente, o caminho que Deus propôs para nós.
Uma das frases mais interessante sobre gratidão, li nos escritos de Chesterton. Ele disse: “Agradeço sempre Àquele que todos os dias põe em nossos sapatos um maravilhoso par de pés”.
Gratidão envolve reconhecimento e apreciação. Vem de um coração grato, que, olhando o passado ou analisando o presente, o faz com amor e reconhecimento. “Quem não vê é cego, quem vê em silêncio - ingrato. (Agostinho, Livro I, Cap.II, Confissões). Muitos só conseguem reclamar, vivem uma vida azeda apesar da imensa graça de Deus demonstrada em todas as coisas. São pessoas abastadas, vivendo como pobres. São pessoas bonitas vivendo vida medíocre e tornando-se feias. Gente que sempre consegue extrair o pior da vida. Gente que não consegue ver o que Deus e se agradar daquilo que ele faz. A Bíblia afirma: "Agrada-te do Senhor e Ele satisfará os desejos do teu coração". Entendendo que esta afirmação é correta, precisamos também pensar que no oposto. Quem não se agrada do Senhor, nunca satisfaz os desejos do seu coração. Viverá uma vida de mau humor e azedume.

Pelo que devemos agradecer?
A alegria de nossa casa e família (Sl 128.1-4).2. A benção de viver num país livre, onde podemos adorar e servir a Deus sem ameaças. (Sl 33.12; 1 Pe 3.13).3. A "indescritível graça" de nossa eterna salvação em Jesus Cristo (2 Co 9.15; Ef 2.8-9).4. O milagre de vidas que tem sido transformadas diariamente pela palavra de Deus (2 Co 5.17; Hb 4.12).

quarta-feira, 3 de novembro de 2004

A Igreja e a Cidade

Com muita alegria parabenizamos o nosso irmão Pedro Sahium, e celebramos sua eleição para o mandato de 4 anos para a Prefeitura de Anápolis(2005-2008),. Ter uma pessoa temente a Deus na direção de nossa cidade, certamente é uma benção. Parabéns Pedro e Rosana, pelo excelente trabalho. A diferença de votos foi de 10.4%, Pedro obteve 55.2% dos votos, mais de 83 mil pessoas votaram nele, sendo o candidato mais votado até hoje para a Prefeitura de nossa cidade.

Uma nova etapa no governo de nossa cidade começa para o Pedro, mas hoje gostaria de trazer uma palavra para a igreja:

Precisamos assumir um compromisso constante de oração a seu favor. Se o Pedro não fosse o prefeito eleito, já teríamos a obrigação de orar, sendo ele nosso irmão e companheiro de fé, torna-se ainda mais necessária nosso clamor. No Sábado passado, dia 30 de Outubro, depois de ministrar a Palavra a cerca de 200 pastores, dei um testemunho sobre a vida de fé do Pedro, e disse que não era bastante que soubéssemos que ele amava a Deus, mas acima de tudo necessário que orássemos por ele. Tal recomendação deriva de vários textos das escrituras.
ü A Bíblia recomenda que oremos pela nossa cidade – "Orai pela cidade, porque na sua paz tereis paz" (Jr 29.7). Uma cidade dominada por um governo justo e sábio traz benefícios para todos só seus cidadãos.
ü A Bíblia recomenda que oremos pelas autoridades – "Antes de tudo, pois, exorto que se use a pratica de suplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito" (1 Tm 2.1-2). Orar deve ser algo que ocupe um item fundamental na nossa agenda, já que ele afirma, "antes de tudo". Como prefeito precisamos protegê-lo, cobri-lo espiritualmente, e este foi um compromisso assumido por aqueles pastores que encontravam-se ali naquele encontro.

Precisamos olhar para nossa cidade, não tentando descobrir quanto ela pode nos dar, mas quanto poderemos dar-lhe – Muitas pessoas se aproximam da política como se ela fosse uma generosa doadora. Na verdade, como cristãos, deveríamos nos aproximar tentando descobrir o que poderíamos dar. Muitos cidadãos e alguns deles cristãos, poluem as ruas, jogam papéis no chão, depredam bens públicos, desvalorizam o que é feito pelo governo. Outros tantos exercem mal sua cidadania, cuidam mal de sua cidade. O cristão deveria ter o melhor jardim de sua casa, cuidar bem do lixo que coloca na porta, ser um guardião do bem público, e não se aproximar como alguém a quem a prefeitura precisa lhe dar. Muitos acham que prefeitos e secretários são obrigados a arranjar-lhe trabalho, mas esta aproximação é viciosa e prejudicial para o bem público. Se ocuparmos algum cargo, sejamos benfeitores de tal função. Não há nenhum problema em sermos contratados, mas quando formos chamados para tal vocação deveremos exercê-la com integridade e inteireza.

sábado, 9 de outubro de 2004

A soberania de Deus é limitada pela liberdade humana?

Normalmente temos dificuldade de entender soberania, porque não entendemos a condição do homem: radical corrupção.
Pode o homem fazer escolhas morais?
Gardner defende ética como “O estudo crítico da moralidade”[1] Para ele, trata-se da análise sistemática da vida moral, que inclui padrões de certo/errado, escolhas morais práticas e alvos e princípios ideais.
A pressuposição ética básica é “O Homem é livre e responsável”.
Aqui surge o primeiro dilema: O homem é verdadeiramente livre e responsável?

Várias controvérsias surgem aqui neste campo:
1. Controvérsia no campo psicológico:
i. Skinner – Psicólogo de uma linha behaviorista, escreveu um livro chamado: “O Mito da liberdade humana”. O homem seria um ser programado. Ele estaria preso a categorias de manipulação. Não emite respostas livres, mas somos frutos de um condicionamento pavloviano;
ii. Freud: O homem seria presa de seus processos inconscientes. Suas respostas seriam fundamentadas nos seus processos inconscientes. Quem determina minha escolha, se eu sou escravo de forças do Id/ego/superego?

2. Controvérsias no Campo Teológico:
i. Calvino – Para Calvino, só existe um "fazer" humano quando o mesmo é mediado por Deus. O homem vive na dimensão da queda, em sua natureza adâmica, para que uma ética humana e profunda aconteça, é fundamental
"Nascer em nós um desejo de buscar a Deus para recuperar nele o Deus que perdemos". [2]
Por vivermos em nossa natureza adâmica, apenas Deus poderá restaurar nossa imagem caída. A doutrina da Total depravation sustenta a incapacidade moral do homem de responder a Deus, a não ser que Deus inicie um novo processo de restauração moral através do Espírito Santo em nós. Existe uma absoluta ausência de bem moral no homem.
ii. Lutero - “O Livre arbítrio (liberium arbitrium), depois da queda do homem, é uma mera questão de título (apenas palavras): Desde que o homem faça o que está dentro dele, cometerá sempre pecado mortal…livre, ele é apenas para o mal…por isso Agostinho diz: “O Livre arbítrio sem a graça apenas outorga poder ao pecaminoso[3] (…) “O homem sem a teologia da cruz, faz do melhor, um péssimo uso”.[4]
iii. Satanização – Não é muito raro, nos círculos evangélicos, vermos pessoas satanizando seu processo de escolha. O diabo passa a ser responsável por todas nossas escolhas morais, ele é o culpado. Por isso, ao invés de confrontarmos o pecado humano, e exigirmos uma resposta ética às nossas atitudes, satanizamos nossos conflitos. [5]

3. Controvérsias no campo filosófico e literário–
i. Rousseau – No seu clássico: “O contrato Social”, inicia fazendo a seguinte afirmação: “O homem é livro, mas em toda parte encontra-se a ferros”.
ii. Graciliano Ramos: “Liberdade completa ninguém desfruta: Começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a delegacia de ordem política e social. Nos estreitos limites que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer”[6]

Retomamos à questão inicial: Seria o homem um ser livre? “A não ser que ele seja livre em sentido bem real, não pode ser considerado responsável por seus atos, e se não é responsável por esses atos, não há sentido em falar deles como tendo significação ética”.[7]
Ética pressupõe Liberdade e Responsabilidade. A atividade moral moral é inevitável enquanto o homem permanece homem.
[1] . Gardner, E. C. – Fé Bíblica e Ética Social, São Paulo, ASTE, 1965, pg. 19
[2] Calvin, Juan – Institutas de las religiones cristianas. Livro II, cap.1 & 1, pg. 161.

[3] . Gottffried Fitzer O que Lutero realmente disse, São Paulo, Civilização Brasileira, , pg. 29
[4] . Fitzer, op. Cit. Pg. 31
[5] . Ler o livro: Antes de amarrar satanás de Elber Lens César.
[6]. Graciliano Ramos - ” in Memórias de Cárcere

[7] . Gardner, E. C., 1965 – pg. 19

sexta-feira, 24 de setembro de 2004

Eleições Municipais

No próximo domingo, todo nosso país estará mobilizado em torno da eleição de prefeitos (Executivo) e vereadores (legislativo). Anápolis está neste clima de política, que gera tanta paixão e muitas controvérsias.

Apesar de não concordarmos com o voto obrigatório, achamos que o mesmo é um instrumento legítimo da democracia e uma grande oportunidade do exercício da cidadania. Pelé certa vez afirmou que o povo Brasileiro não sabe votar, e talvez ele esteja certo, mas isto não deve impedir o livre exercício do nosso direito de cidadania, e que, nas tentativas de erros e acertos, aprendamos a escolher líderes mais competentes e preparados para os cargos disponíveis.

Como cristãos devemos votar. Muitos idosos aqui da igreja, apesar de terem dificuldade de transporte, e não serem obrigados ao voto, devem também exercer sua cidadania. Voto é um direito democrático no qual ricos e pobres participam com igual peso de decisão. Tanto vale o voto do que tem um grande preparo intelectual e muitos recursos quanto o voto daquele que é simples e pobre.

Nossa igreja não assumiu nenhuma posição oficial. Mas como pastor, recomendo fortemente o nome de dois homens que são líderes em nossa comunidade para seus cargos, pela sua história de caminhada entre nós, e exemplos de dignidade e vida cristã. Pedro Sahium (40) para prefeito, e Nilton Barbosa dos Santos (13.444) para vereador. Apesar de estarem labutando em partidos diferentes, são homens que tem todo nosso respeito para seus respectivos cargos. Sabemos que existem outros homens também competentes se candidatando e que o voto deve ser conseqüência de um livre exame e escolha, e ninguém é constrangido a votar em qualquer pessoa. Este é um dos princípios da reforma, "ninguém deve agir contra sua própria consciência".

Acima de tudo, devemos nos lembrar de orar nesta escolha. Deus dará esclarecimento e convencimento a todos irmãos.

Viva a democracia!

segunda-feira, 6 de setembro de 2004

A dignidade Humana

Poucas coisas na vida têm sido mais desafiadoras para a reflexão moderna que o resgate do valor do ser humano, independentemente de sua raça, cor, conta bancária, currículo, etc., Uma das grandes verdades universais é que o ser humano tem uma dignidade inerente em si mesma, e esta deve ser sempre encontrada, e, em alguns casos, resgatada.

A grande questão humana, antes de ser filosófica, tem que ser antropológica. Porque o valor do ser humano deve ser o fundamento de toda reflexão epistemológica, religiosa ou existencial.

Mas como tem sido desprezado o valor do homem, sua dignidade enquanto ser...

Por causa desta moeda ser tão desvalorizada, observamos estarrecidos cenas como esta recentemente acontecida na catástrofe russa que deixou cerca de 350 pessoas mortas, sendo a maioria crianças e adolescentes.

O ser humano tem sido desvalorizado em massacres como o da Ruanda. "Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietnã cozido a napalme, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atômicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazistas a vomitar cinzas, daqueles caminhões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse. De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta aos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus"[1]. O que nos chama a atenção é que no centro de todas estas cenas absurdas, muitas vezes usa-se o nome de Deus para se justificar os massacres, mas o cerne da questão, de fato, é que a vida se banalizou, se coisificou, tornou-se objeto de troca, de manipulação, de exploração e de abuso. Perde-se a dignidade humana. Perdeu-se a noção do para que existimos, e da dignidade inerente que todos nós temos, por sermos humanos, simplesmente humanos.

Um dos primeiros conceitos que encontramos nas Escrituras Sagradas, é que o homem foi feito "A Imagem e semelhança de Deus". [2] Sua dignidade existe pela sua procedência. Ele é um ser diferenciado dos outros, criado de forma distinta das demais criaturas. Deus o fez de forma pessoal, e lhe deu responsabilidades maiores, deu-lhe domínio, inteligência, criatividade, capacidade de raciocinar, de se relacionar, de amar não apenas de forma instintiva, mas de forma madura e responsável.

Mas o homem perdeu sua identidade. Esqueceu-se do seu eidos.[3] Não sabe mais que cara possui, qual é sua feição. Temos o homem máquina, o homem produto, o homem objeto, o homem alienado, o homem coisa, o homem robotizado, e as designações poderiam se multiplicar ad infinitum nesta adjetivização da natureza e do ser do homem.

Por perdermos a referência, agimos tresloucadamente. Sacrificamos a nossa existência. Morremos e matamos sem sentido. Banalizamos a vida quando o ser humano não se encaixa no perfil que julgamos trazer dignidade. Deficientes, mendigos, índios, raças diferentes, ideologias diferentes, cores passam a roubar o valor do ser humano, pois o vemos, não na sua essência (aquilo que ele é), mas nos seus acidentes (sua história, herança, cor, religião, etc).

M. Luther King Jr no seu famoso sermão I have a dream, afirmava que sonhava com um dia quando o homem seria julgado não por causa da cor de sua pele, mas pelo seu caráter. Este dia precisa ser sonhado e desejado por todos nós. Menosprezamos pessoas de classe social diferente, porque achamos que elas são menos que são.

Durante nove anos morei fora do Brasil. Certa vez me perguntaram se no Brasil existia racismo. Orgulhosamente respondi que não. Acreditava eu, que não havia conflitos inerentes entre raças, que os negros não eram desconsiderados por serem negros. Mas hoje entendo que minha análise estava errada. Roubamos a dignidade do pobre, do necessitado, e nos julgamos superiores a pessoas de classes sociais que não estão no nosso mesmo nível cultural. Temos um sofisticado racismo social, tolo e ignorante, mas tão presente nas classes dominantes.

Este texto de Cristovam Buarque, exprime o meu sentimento:

Em nenhum outro país os ricos demonstram mais ostentação que no Brasil.. Apesar disso, os brasileiros ricos são pobres.Na verdade, a maior pobreza dos ricos brasileiros está na incapacidade de verem a riqueza que há nos pobres. Foi esta pobreza de visão que impediu os ricos brasileiros de perceberem, cem anos atrás, a riqueza que havia nos braços dos escravos libertos se lhes fosse dado o direito de trabalhar a imensa quantidade de terra ociosa de que o país dispunha. Se tivessem percebido essa riqueza e libertado a terra junto com osescravos, os ricos brasileiros teriam abolido a pobreza que os acompanha ao longo de mais de um século. Se os latifúndios tivessem sido colocados à disposição dos braços dos ex-escravos, a riqueza criada teria chegado aos ricos de hoje, que viveriam em cidades sem o peso da imigração descontrolada e com umapopulação sem miséria.A pobreza de visão dos ricos impediu também de verem a riqueza que há na cabeça de um povo educado. Ao longo de toda nossa história, os nossos ricos abandonaram a educação do povo, desviaram os recursos para criar a riqueza que seria só deles, e ficaram pobres: contratam trabalhadores com baixa produtividade, investem em modernos equipamentos e não encontram quem os saiba manejar, vivem rodeados de compatriotas que não sabem ler o mundo ao redor, não sabem mudar o mundo, não sabem construir um novo país que beneficie a todos. Muito mais ricos seriam os ricos se vivessem em uma sociedade onde todos fossem educados.CRISTOVAM BUARQUE, O Globo, 12/02/2001

Conclusão:
Precisamos resgatar o conceito da dignidade humana. Como um ser criado por Deus para se relacionar com o Criador, e com aqueles que estão ao seu lado. Resgatar a capacidade de ver o outro, com os olhos de Deus, nos capacitaria a sermos mais parecidos com o próprio Deus e geraria uma nova sociedade, firmada no princípio de que todos são iguais perante a lei, sem corrermos o risco de afirmar como George Orwell no seu clássico animal farm "Mas alguns são mais iguais que outros".

A grande questão humana, antes de ser filosófica, tem que ser antropológica.


[1] Jose Saramago, O Fator Deus.
[2] Gen 1.26
[3] Eidos, é a palavra grega, traduzida na Septuaginte, para se referir ao homem como imagem e semelhança de Deus.