sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Desigualdade social e violência



É alarmante e assustador a violência no Brasil. De acordo com a OMS, 123 pessoas morrem vítimas de homicídios por armas de fogo todos os dias no Brasil. O Brasil teve no ano passado 59.103 vítimas assassinadas – uma a cada 9 minutos, em média. O dado contabiliza todos os homicídios dolosos, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte, que, juntos, compõem os chamados crimes violentos letais e intencionais. O Brasil mata 207 vezes mais que Alemanha, Áustria, Dinamarca e Polônia e vive uma epidemia de violência, que é um obstáculo para o crescimento econômico.

A riqueza demasiada de um lado e a pobreza demasiada de outro é um dos maiores fatores de violência social. Na verdade a desigualdade já é em si uma violência e um problema que afeta grande parte da população brasileira, embora nos últimos anos ela tenha diminuído. Estatísticas apontam que, nos últimos anos 28 milhões de brasileiros saíram da pobreza absoluta e 36 milhões entraram na classe média, entretanto, estima-se que 16 milhões de pessoas ainda permanecem na pobreza extrema.

O Brasil está entre os dez países com o PIB mais alto, e o oitavo país com o maior índice de desigualdade social e econômica do mundo. As principais causas da desigualdade social são: Falta de acesso à educação de qualidade; política fiscal injusta; baixos salários e dificuldade de acesso aos serviços básicos: saúde, transporte público e saneamento básico.

O professor Leandro Piquet Carneiro, da Faculdade de Ciências Políticas da USP diz que “ao cruzar dados socioeconômicos e criminais foi possível provar que a extrema necessidade pode ser um incentivo ao crime, e Daniel Cerqueira, do IPEA afirma que “o grande combustível da criminalidade é a desigualdade social”.

Quando se fala em segurança, discute-se armamento, aumento do contingente policial, encarceramento, diminuição da idade penal, pena de morte, mas não se discute as causas e a profilaxia. A ausência da inclusão social transforma muitos jovens em presas fáceis para os líderes do tráfico. A violência não vai mudar enquanto as diferenças econômicas forem tão grandes.

A redução de 74% dos assassinatos na década de 90 em Nova York, no Programa tolerância zero deveu-se ao maior rigor da justiça, mas também aos programas sociais e da reestruturação de áreas urbanas.

A injustiça social é resultado de uma construção social perversa. A justiça social é uma das implicações do evangelho e ignorar tal desafio gera grandes dificuldades para a consciência e para o testemunho cristão. Precisamos redobrar esforços para seguir os passos de Jesus, que “andou entre nós fazendo o bem”.  

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Brasilidade e brasileirismos



O nosso país realmente encontra-se na UTI ou o pessimismo do brasileiro é desproporcional à realidade? O que você acha? Será que realmente nosso negativismo corresponde aos fatos?

O perfil do brasileiro normalmente descrito como sendo um povo hospitaleiro, gentil, otimista, divertido e alegre está mudando rapidamente. Uma pesquisa feita pelo Instituto Ipsos em 25 países aponta que estamos entre os quatro povos mais pessimistas do mundo. Isto te surpreende? 94% dos brasileiros acham que o país está no rumo errado, e este índice encontra-se numa linha ascendente, podendo chegar facilmente a 99%. Unanimidade.

Na época do “Brasil Grande”, o brasileiro orgulhava-se da nação, mas com o crescente linchamento pelas redes sociais, a mídia terrorista apresentando sempre o lado sombrio da realidade, o aumento no número do desemprego, a falta da confiança nas instituições e o impacto da corrupção da classe política, o Brasil entrou num quadro de depressão social. Oito anos atrás, 25% dos imóveis negociados na Flórida estavam sendo adquiridos por brasileiros endinheirados, e hoje, quem agita o mercado imobiliário de Lisboa é o Brasil. Ainda gostamos de investir em imóveis, mas não queremos mais investir no Brasil. Dezenas de fábricas do sul do país estão se mudando para o Paraguai (Quem diria?) porque não suportam mais o excesso de burocracia e de leis confusas em nosso país.

A crise ética e politica, contaminou o humor da nação. O desânimo é gerado pela falta de esperança e da falta de expectativa de mudança. Mudam os governantes, mas percebe-se que o cenário não muda. Tivemos por vários anos uma direita burra, incompetente, indiferente à necessidade do pobre, que deixou de investir em educação e saúde e criou o ambiente para uma esquerda populista, igualmente corrupta, cujo discurso utópico e romântico revelou-se de um desatino mental absurdamente esquizofrenizado, que insiste numa inocência e pureza idiota, e o resultado encontra-se aí numa nação desacreditada de si mesma.

Milton Nascimento sintetiza bem a frustração social na letra da música Carta à República:
Ao ver que o sonho anda pra trás, E a mentira voltou
Ou será mesmo que não nos deixara?
A esperança que a gente carrega é um sorvete em pleno sol
O que fizeram da nossa fé?

Eu briguei, apanhei, eu sofri, aprendi,
Eu cantei, eu berrei, eu chorei, eu sorri, Eu saí pra sonhar meu país
E foi tão bom, não estava sozinho. A praça era alegria sadia
O povo era senhor, e só uma voz, numa só canção

E foi por ter posto a mão no futuro, que no presente preciso ser duro
E eu não posso me acomodar - Quero um país melhor

Algumas questões podem nortear a discussão:

1.   Até quando a estúpida classe política vai continuar acreditando que uma nação sobrevive com o estrangulamento produtivo e a corrupção sistêmica?

2.   Qual o papel da mídia neste emaranhado? Sem ser romântica não poderia utilizar seu potencial para falar do Brasil que dá certo? Dos brasileiros que inspiram?

3.   Qual é o papel da igreja, comunidades e instituições em potencializar e educar para um Brasil melhor, sem ser instrumentalizada pela direita ou esquerda cuja obsessão é meramente controle e poder?

4.   O que nós, individualmente podemos fazer para mudar o cenário, sendo agentes de transformação social?

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Hora de sair...



Morando nos EUA, nos mudamos para uma casa onde um casal vivera por quase 40 anos. Ele era exímio carpinteiro e extremamente habilidoso com as tarefas de sua casa e morreu num súbito infarto e sua esposa decidiu que não deveria permanecer mais naquela casa com tantas memórias e não deveria morar sozinha.

No dia da entrega das chaves, ela estava presente e nos deu todas as orientações sobre os registros, limpeza do aquecimento, manutenção do fogão e da máquina de lavar louças e de algumas plantas que ficavam. Ela era muito simpática e decidiu nos dar pessoalmente as dicas. Algo inusitado, porém, aconteceu quando, já na sala, se despedindo, confusa se virou para minha esposa e pediu que a ajudasse a sair da casa. Minha esposa pensou que tivesse entendido mal o seu inglês, mas logo observou que ela estava psicologicamente abalada e obnubilada ao se deparar com o fato de que não voltaria mais àquele ambiente de tantas memórias. Ela perdeu a noção do espaço e da porta de saída. Atenciosamente minha esposa deu-lhe a mão e a conduziu até o carro, onde sua filha a esperava para irem embora.

Ao pensar neste incidente, observo como é difícil superar etapas e ciclos da vida. Imagine um professor que depois de 25 anos numa mesma escola chega a hora de se aposentar e despedir-se da sua sala de aula; ou um funcionário que serviu a mesma empresa por anos, e precisa abandonar sua mesa; ou um idoso que precisa morar com seus filhos e deixa a sua casa porque a idade não lhe permite mais morar sozinho, deixando seus velhos móveis que faziam sentido para ele mas não podem ser levados onde vão morar.

Um dia, mais cedo ou mais tarde, chega a hora de sair. A história vira a página. Estamos preparados? A saúde é imprevisível e pode nos obrigar a mudanças radicais; uma falência, acidente ou desequilíbrio financeiro podem reduzir drasticamente as condições de auto manutenção e nos obrigar a morar com os filhos ou num asilo. Estamos preparados para tais mudanças previsíveis ou não? Prontos para sair? E o mais desafiador ainda: A vida é tão transitória e temporal, estamos preparados para a eternidade?

Bioética



Com o avanço da pesquisa científica e a adoção de métodos cada vez menos ortodoxos, surgiram questões ética imensas na discussão dos limites da ciência, ética e teologia. Para algumas pessoas, o simples uso de animais em pesquisas científicas já seria suficientemente inquietante, quanto mais quando se trata de mexer na essência da natureza humana.

Em 2003, a Revista Seleções trouxe uma reportagem sobre as pesquisas do Dr. Robert White, neurocirurgião formado por Harvard, na época com 76 anos anos de idade que havia desenvolvido o método de congelar o cérebro humano a fim de conservá-lo, para efetuar cirurgias de grande porte, e que estava tentando realizar algo ainda mais radical: o transplante de corpo inteiro. Simplesmente tirar a cabeça de uma pessoa e colocá-la noutro corpo.

As pesquisas remontam o ano de 1970. No dia 14 de março daquele ano uma equipe de neurocirurgiões sob sua liderança, realizou o transplante de cabeça de um macaco em outro. Apesar de toda complexidade e da longa duração da cirurgia, separaram a cabeça do tronco e a prenderam num corpo acéfalo que estava ao lado e o animal retomou a consciência até mesmo tentando morder o médico e sobrevivendo por 12 horas. Nas duas décadas seguintes foram realizados mais 14 transplantes de corpo inteiro, chegando a manter vivos os animais por até oito dias.

O projeto do Dr. White é realizar tais cirurgias em seres humanos. Apesar de ser um católico praticante tendo sido até recebido em entrevista por dois diferentes papas, nenhum deles contestou suas pesquisas, embora não tenham exatamente abençoado a transferência de cabeças humanas. Do seu ponto de vista o corpo não passa de um ajuntamento de órgãos: O corpo apenas daria suporte à vida.

Naturalmente suas pesquisas geraram uma série de reações adversas. Ele recebeu ameaças e teve que buscar a proteção policial para sua família.  O Dr. Arthur Capan, diretor do Centro de Bioética da Universidade da Pensilvânia afirmou: “A cirurgia é assustadora. A vida pós operatória seria insuportável. A identidade da pessoa estaria mudada”.

Teoricamente seria possível realizar tais cirurgias. A pergunta fundamental, porém, é a seguinte: Seria eticamente correta? Seria possível transportar a consciência de um corpo para outro? Como seria acordar depois de uma longa cirurgia e se ver no corpo de outra pessoa? Até que ponto a ciência deve ir?

Suas cirurgias ainda levantam questões mais complexas: O que significa ser humano? Como lidar com a sacralidade do corpo? Qual o risco que a raça humana corre quando decide brincar de ser Deus? Tais perguntas certamente não são fáceis de serem respondidas. Nem sempre a ciência e a ética são facilmente reconciliáveis.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Pais, construtores de memórias


Grandes lembranças que nos acompanham pelo resto da vida se dão na infância e no ambiente familiar. Sejam elas memórias negativas ou positivas. A figura do pai, ou sua ausência, constrói símbolos poderosos que seguirão por toda a vida.
Que memórias trazemos conosco?
Quais são as memórias que estamos construindo nos filhos?
Memórias apontam para o nosso valor e aceitação ou para a rejeição e depreciação. De forma indelével elas nos acompanham por toda a vida. Já encontrei pessoas que foram profundamente marcadas por uma declaração, uma frase desamorosa e depreciativa, ou no seu oposto, uma orientação e declaração amorosa. A forma como o pai afirma ou nega a identidade do seu filho, tem tudo a ver com as memórias e eventos significativos neste processo de afirmação e negação. Elas parecem ser escritas com pena de ferro e com chumbo, esculpidos na rocha.
Precisamos marcar o coração dos filhos, mas a única possibilidade disto acontecer tem a ver com esta construção que fazemos na medida em que caminhamos com eles. Não sei exatamente porque Deus foi tão enfático na relação com o seu Filho Jesus, enquanto estava na terra, ao afirmar por duas vezes, em situações distintas, de forma audível que ele era o seu filho amado, em quem Deus encontrava prazer. As declarações foram feitas no batismo e na transfiguração.
Parece-me que o Pai queria deixar claro, tanto ao seu Filho, que enfrentaria tantas tentações e lutas, quanto àqueles que estavam próximos, que o relacionamento entre eles estava marcado pela experiência maravilhosa de aceitação e carinho.
No dia de hoje, você está marcando de forma indelével o coração do seu filho ou filha, construindo memorias carregadas de valores e ternura ou ódio e tristeza. Construa boas memórias hoje! Tais lembranças serão a referência de seus filhos no futuro e das futuras famílias que serão formadas. 

Amizades funcionais


Podemos falar de amizade em vários níveis ou categorias:
Existe o amigo circunstancial. Ele aparece na sua vida, torna-se uma referência num curto período, traz grande alegria ao seu coração num momento especial de sua vida, e depois desaparece, e você não mais o reencontra. Suas histórias foram para direções opostas, não porque houvesse hostilidade ou desconfiança, simplesmente ele (ou você) some.
Existe outro tipo de amizade que é caracterizada pela esporadicidade. Você tem uma história de caminhada, mas as contingências da vida, a geografia de vocês, o levaram para longe um do outro, mas mesmo assim, eventualmente vocês se encontram. Tais encontros acontecem muito raramente, mas quando se dá é sempre uma razão de muito contentamento para ambos. Depois vocês se despedem novamente e não sabem se e quando tornarão a se encontrar.
Existem amizades que eu chamo de funcionais. Elas não são necessariamente negativas ou ruins, mas estão relacionadas às atividades que desenvolvemos. Pode ser alguém de sua própria empresa, ou que trabalha no mesmo ramo, com quem se torna conveniente caminhar, respeitar, ir para ohappy hour, e eventualmente até fazer uma viagem junto. Mas desfeitos os laços empresariais ou comerciais, esta amizade se perde no tempo e pouco significa para sua vida. Não que tenha sido algo ruim, nem se trata de uma relação de exploração ou abuso, ela simplesmente opera assim. São os amigos funcionais. No dia em que você não estiver ligado administrativamente ou sair da empresa ou do negócio que estabelece a relação, tal amizade desaparecerá, mas seu propósito, era exatamente este. Não era para gerar intimidade, mas para facilitar a vida de ambos.
Existe ainda outro tipo de amigo. Aquele que a Bíblia chama de “mais chegado que um irmão”, A Bíblia diz que “tem muitos amigos sai perdendo”, exatamente por se referir a isto tipo de pessoa que não desiste de você e que é capaz de reconhecer suas idiossincrasias e defeitos, mas que embora não te bajule também não te abandona. É aquele que chega quando todos os outros saem. Por isto, outra passagem das Escrituras afirma: “Em todo tempo ama o amigo, e na angústia se faz o irmão”. Este é o amigo forjado no tempo da dor e frustração, nos dias maus que nos sobrevém.
Todos os tipos de amigos são necessários e tem o seu lugar. Um dos problemas é ter expectativas que vão além daquilo que determinado tipo de amizade propõe. Se conseguirmos discernir em que categoria ela deve ser colocada, seremos capazes de desfrutar a beleza que cada um destes modelos produz e sermos enriquecidos em todas elas.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Autodestruição



Segundo pesquisas recentes, a taxa de suicídio de jovens Brasil, com idade entre 10 e 14 anos aumentou 40% nos últimos 10 anos, entre os jovens com idade entre 15 e 19 anos, o crescimento foi de 33%. A  cidade que ocupa a primeira posição do ranking é São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, com taxa dez vezes acima da média nacional, porque os indígenas entraram numa espécie de processo de extinção voluntária e nos últimos 10 anos, houve um aumento de 134%, no Estado do Amazonas e a situação é parecida em Acre e Rondônia, que viram dobrar suas taxas. A tendência não é registrada apenas no Brasil. Segundo a Organização Mundial de Saúde o suicídio ocupa a 16ª posição no ranking das doenças que mais matam no mundo.

Apesar da discussão sobre o suicídio ser tão relevante, o problema tem uma raiz mais complexa e profunda. Trata-se do processo de autodestruição, que não necessariamente desemboca na perda intencional da vida, nem no ato da morte, mas que revela traços destrutivos da alma.

Considere, por exemplo, a auto-sabotagem. Muitas pessoas conspiram contra si mesmas, tomando decisões sabendo de antemão que o resultado será danoso, ou deixando de assumir atitudes positivas que poderiam num contínuo processo de procrastinação até que o tempo e a oportunidade passem, ou mentem para si mesmos. Muitos chegam a afirmar: “Eu sabia que não deveria ter feito isto”, ou, “eu fiz todas as coisas que não deveria fazer”.

Considere a voracidade nos alimentos, quando a pessoa vai lentamente se auto destruindo com excesso de comidas gordurosas, vida sedentária, consumo de álcool e drogas, excesso de refrigerantes, falta de disciplina, descontrole das emoções, relacionamentos tóxicos, estilo de vida violento e agressivo, ou o ato de dirigir sem atenção. Nestes casos, todos os sinais de “cuidado”, “devagar”, ou “pare”, são ignorados. É um desejo inconsciente de morte, desprezo pela vida.

No impulso da autodestruição, a pessoa se machuca física ou emocionalmente, de forma passiva ou agressiva, porque tem a sensação de que não é importante preservar a vida. Provavelmente nunca colocarão uma corda no pescoço, mas morrerão lentamente, como afirmava a frase de uma camiseta: “bebida mata devagar... e daí, não estou mesmo com pressa...”

Quando o instinto positivo para a vida se torna fraco somos patologicamente atraídos para a morte social, perda da auto-estima, isolamento, solidão auto-infligida e auto-mutilação.

Todas as pessoas eventualmente podem pensar na morte como uma saída razoável, mas logo voltam atrás e rejeitam tais ideias, mas quando tal obsessão, estranhamente nos faz enveredar por processos negativos, este é um sinal de que precisamos buscar apoio, ajuda de amigos, família, comunidade, terapia, ou mesmo da medicina e de remédios. O instinto mais forte que temos é a vida, e quando este instinto enfraquece, algo não está bem resolvido em nossa mente.