sexta-feira, 2 de maio de 2003

Honra teu pai e tua mãe

Este é o 5o mandamento. Uma das perguntas mais freqüentes que ouço quando estamos tratando do relacionamento familiar é: O que significa honrar pai e mãe? Muitas vezes a forma de se entender algo é pensando no seu oposto. Como um filho “desonraria” os pais?
Pais se sentem desonrados quando os filhos deixam um rastro de vergonha e mau comportamento por onde passam. Nada desonra mais o pai que a desonra do filho ou quando se tornam uma fonte de angústia e pesar para eles. Quando os pais já não conseguem dormir sem que seus corações estejam pesados e os joelhos calejados pelas infindáveis orações de livramento que parecem não ter mais fim.

Há alguns anos atrás, um ministro de estado de nossos pais, numa entrevista em cadeia nacional de Televisão, exclamou com lagrimas ao referir-se ao filho que estava envolvido em escândalos financeiros: “Este meu filho é a minha desgraça”. Este dramático quadro exemplifica bem um filho quando desonra seu pai e mãe.

Vejamos de forma positiva este mandamento: Pais são honrados quando lhe atribuímos dignidade, quando os filhos lhes dão uma sensação de orgulho, quando dizem: “Este é o meu filho”. Quando estes se tornam o melhor curriculum vitae dos pais, tornam-se uma honra para eles. Pais são honrados quando podem fazer uma prece, e o fazem, não pedindo livramento para os filhos, mas agradecendo a Deus pela benção de ter gerado alguém tão especial.

Honra teu pai e tua mãe!

quinta-feira, 24 de abril de 2003

DESCOBRIRAM O BRASIL. VIVA O IMPÉRIO!

Existem determinadas coisas que jamais conseguiremos entender! Falta lógica, coerência histórica, bom senso e um mínimo razoável de percepção critica. Dentre tantas, realçamos o Descobrimento do Brasil. Não dá para entender porque ainda se ensina a história do Brasil numa perspectiva romântica, e não na perspectiva dos fatos e da critica? Teme-se o juízo de quem? Não dá para entender porque os historiadores não revisam de uma vez por outras, tal conceito e inicia-se assim uma leitura critica da história, que vai nos ajudar a pensar de forma mais correta e criará nos nossos adolescentes e jovens um senso de dignidade e de valor?

Ainda hoje se ensina que o Brasil foi descoberto por Pedro Álvares Cabral. Basta perguntar para qualquer estudante que ele saberá prontamente responder à simples e ideologizada pergunta: Quem descobriu o Brasil? Embora tal pergunta seja séria, e precisa ser analisada, a resposta que damos é de um simplismo quixotesco. Quando Cabral chegou aqui, no séc. XVI, Portugal, nação invasora, tinha 1.5 milhões de habitantes, e o Brasil, nação invadida, tinha aproximadamente 6 milhões de habitantes. Quem descobriu quem?

O problema é que a história é sempre contada pelos poderosos, para atender a interesses ideológicos. Afinal, o herege quase nunca é o que vai para a fogueira, mas quem coloca o outro para ser queimado, mas aquele que foi para a fogueira não pode escrever sua história, então aceita-se a versão oficial do opressor, que conta o fato conforme lhe interessa, para que não venha a ser culpado nem julgado no futuro. Afinal, não gostamos de depor contra nós mesmos, por isto os tribunais buscam testemunhas, pessoas que possam depor e contar outra versão. A nossa leitura pessoal, tendenciosa e cínica não vale…

O que aconteceu foi um encontro das civilizações, não o descobrimento do Brasil. Mas mesmo tal idéia é tão dolorida que alguns querem apagar da memória o que aconteceu. No encontro destes povos, havia um que era opressor, outro a vítima. A presa agia romanticamente diante do agressor, em troca de brinquedos que refletiam seus rostos vermelhos, instrumentos cortantes, e cachaça. Nesta troca, trazia-se sífilis e gripe e levava-se ouro e madeira. A lógica do império sempre foi a do extrativismo, da religiosidade exterior que não chegava ao coração nem dos que pregavam nem dos que ouviam a mensagem anunciada, a dominação financeira e a versão da história para sustentar seus atos bárbaros, afinal de contas, como sobreviveríamos se eles não tivessem nos descoberto? Já imaginou que tragédia um povo que ainda não foi descoberto?
Mentiras e versões enganosas. Esta é uma boa alegoria da história da redenção. Satanás nos faz crer no que não devemos, e não nos deixa crer naquilo que precisamos. Ele é o Pai da mentira! No campo espiritual e ético, mentiras são ainda mais danosas que no campo histórico, porque tem efeito eterno. “Ai dos que chamam ao mal bem e ao bem mal; dos que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade; põem o amargo por doce e o doce, por amargo!” (Is 5.

terça-feira, 15 de abril de 2003

O SIGNIFICADO DA PÁSCOA

Páscoa significa originalmente “passagem”, vem do hebraico pesah, e é associada com o verbo pasah, que significa “saltar” ou “passar por cima”, daí a razão dos ingleses usaram a palavra “passover” para páscoa, resgatando a idéia original de “passar sobre”.

A instituição da Páscoa é registrada no livro de Êxodo, capítulo 12, das Sagradas Escrituras, relaciona-se à libertação dos israelitas da sua escravidão no Egito, e é, para o povo judeu, tanto nos tempos bíblicos quanto atual, sua comemoração mais importante. Esta festa se deu logo após a passagem do Senhor no meio do Egito, onde a maioria do povo judeu vivia escravizada. Naquela noite, o anjo passou, e todas as casas que possuíam a marca de sangue de um cordeiro foram poupadas da morte, e onde não havia a marca do sangue, o filho mais velho morria. Era o julgamento de Deus vindo sobre o povo, e apenas o sangue poderia impedir a morte.

No Novo Testamento, após a vinda de Jesus, os cristãos retraduziram esta festa, dando-lhe um significado especial, pois foi durante a festa da páscoa que Jesus foi crucificado e morreu, e assim, foi interpretada como figura da obra redentora de Cristo, o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1.29).

A Páscoa, no sentido em que a comemoramos, está longe de ter o significado que possuía na sua origem. Li recentemente um artigo do Rev. Hernandes Dias Lopes, que reflete bem esta tensão:

Coelho ou cordeiro?
O comércio voraz, faminto de dinheiro, trocou o cordeiro pelo coelho. Aliás, um coelho muito versátil, quase milagroso, que põe ovos de chocolate de todos os tamanhos e para todos os gostos. Para o consumismo insaciável, a essência da páscoa não tem a menor importância. O que importa é vender, vender muito, ainda que na mente das pessoas a verdade seja sacrificada, e o cordeiro fique esquecido. Para uma sociedade materialista, secularizada e consumista cujo deus é o ventre, o importante é empanturrar o estômago de chocolate, ainda que se sacrifique no altar do comércio esfaimado, a essência da verdade.

Preocupante é o fato de fazermos parte desta cultura sem nenhuma reação de inconformação. Fazemos como Eli, banqueteando com as gorduras tiradas pecaminosamente do altar, sendo coniventes com os pecados de uma geração que se recusa a dar ouvidos à verdade de Deus. Nossos filhos são levados a assimilar mais o coelho, ou melhor, o chocolate, do que o cordeiro que foi morto por nós. Vêem mais o retrato das lojas agressivamente decoradas do que a história eloqüente da libertação do povo de Deus. Precisamos investir mais tempo ensinando aos nossos filhos sobre a Páscoa. Esta é uma história central do Antigo Testamento. Foi naquela noite fatídica que o povo de Deus foi salvo da tragédia da morte dos primogênitos, porque um cordeiro tinha sido sacrificado e o seu sangue havia sido aplicado sobre as vergas das portas. Esta é a história épica da libertação do povo de Deus do cativeiro, com mão forte e poderosa. A Bíblia fala que Jesus é o nosso cordeiro pascal. O cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo é Jesus. Foi ele quem foi imolado na cruz por nós. Ele sofreu o castigo que nos traz a paz. Deus lançou sobre Ele a iniqüidade de todos nós. Ele, como ovelha muda, foi para o matadouro, carregando sobre o seu corpo, no madeiro, os nossos pecados. Ele se fez maldição por nós. Ele se fez pecado por nós. Ele morreu exangue na cruz, adquirindo para nós eterna redenção. Esta é a história da nossa alforria. É a história da nossa libertação do cativeiro. É a história da nossa eterna salvação. Não podemos deixar que ela seja distorcida e diluída em chocolate. Não podemos permitir que o maior de todos os sacrifícios, vivido na hora mais amarga do Filho de Deus, bebendo sozinho o cálice da ira divina, seja reduzido a um festival de gastronomia.
O coelho é um intruso que nada tem a ver com a festa da páscoa. Esta festa é a festa do cordeiro, do Cordeiro de Deus. Ele sim, deve ser o centro, o conteúdo, a atração e a razão de ser desta festividade. Que a nossa família possa estar reunida não em torno do ovo de chocolate, mas em torno de Jesus, o Cordeiro que foi morto, mas vive pelos séculos dos séculos, tendo a certeza que estamos debaixo do abrigo de seu sangue.

Vivemos assim, bombardeados e confusos com conceitos difusos que em nada refletem a essência da Páscoa. Neste feriado prolongado, uma boa prática devocional pode ser a leitura atenta dos relatos do Evangelho em torno da Páscoa. Existem quatro livros na Bíblia que falam deste evento, eles são chamados de Evangelhos, porque narram a vida de Jesus. Três deles são sinóticos, porque possuem relatos idênticos, o último é o Evangelho de João, que é mais denso e teológico, se preocupando mais com a explicação teológica destes acontecimentos. Numa época em que os homens estão se voltando mais para os fenômenos espirituais (Pós modernismo), e nos dias em que o nosso pais, considerado cristão, convencionou chamar de quaresma, vale a pena rever conceitos e ampliar nossa compreensão da Páscoa.

segunda-feira, 14 de abril de 2003

DEUS É BOM !!!

ERA UMA VEZ,
num reino muito distante, dois amigos. Um era o rei daquele lugar o outro era o seu melhor amigo. Por ocasião da temporada anual de caça, os dois saíram para caçar. Durante o caminho, o amigo do rei vinha afirmando e dizendo para ele o quanto DEUS É BOM, e ele contemplava a natureza, a criação de Deus e repetia declarando o quanto DEUS É BOM...
Ao avistarem a presa, prepararam a arma, mas quando o rei foi atirar, o tiro literalmente "saiu pela culatra", acertando em cheio o seu dedo mindinho da mão direita.
O rei ficou indignado e virando-se para o amigo o questionou se mesmo depois do que tinha acontecido, ele ainda achava que DEUS ERA BOM?? Mediante a resposta positiva de seu amigo, o rei mandou prendê-lo até ele se convencer que Deus não era tão bom assim, pois não o impediu de perder seu precioso dedo.
Um ano se passou, e por ocasião da temporada de caça, a comitiva real decidiu ir a terras mais longínquas, pois a caça já estava escassa naquela região. Foram parar então em uma terra dominada por canibais, onde foram todos capturados, inclusive o rei.
Quando chegou a hora do jantar, o cozinheiro dos canibais verificou que um dos prisioneiros não tinha um dos dedos, e como era costume, eles não comiam ninguém mutilado, pois além da carne ser considerada dura e de paladar ruim, diziam ainda que era amaldiçoado pelos deuses. Assim, de toda a comitiva, somente o rei voltou com vida para o seu reino.
Ao chegar, mandou libertar seu amigo. Agora, com a firme certeza – e prova – de como Deus realmente é bom, e do modo maravilhoso com que preservou sua vida. Sendo assim, o rei pediu perdão para o seu amigo e ouviu a seguinte declaração:
- É claro que o perdôo alteza. Deus realmente é muito bom, pois se eu não tivesse ficado preso no calabouço, com certeza teria ido com a comitiva e provavelmente a esta hora eu já teria morrido!

sexta-feira, 4 de abril de 2003

A ORIGEM DAS GUERRAS

De repente percebemos que a guerra não está mais distante de nós. Acostumamo-nos a vê-la como uma espécie de vídeo game, onde pequenas luzes detonam alvos escondidos, sem maiores implicações para as nossas vidas. Outras vezes a vemos como números, apenas estatísticas. Em ambas as situações ignoramos, ou fazemos de conta que por detrás destes gestos existe dor, muita dor. É o sentimento do pai que não vê o filho no outro dia, da mãe que vai arrumar o quarto do filho que já morreu, ou da esposa que vai dormir na cama fria, sabendo que aquela situação não é transitória, o marido não está viajando…

De repente, porém, percebemos que a guerra não é apenas no Iraque. A guerra está aqui. Rio sofre de violência, as ameaças dos traficantes e a violência dos que foram violentados encontram-se de forma visível nas ruas cariocas. O mesmo fenômeno fatídico encontra-se nos grandes centros como São Paulo, e, acreditem se quiser, hoje a cidade que possui mais assassinatos proporcionais é Vitória, ES, seguido de perto por Cuiabá, MT, criando o que alguns especialistas tem chamado de colombianização do Brasil.

Mas a guerra está mais perto. A guerra está aí, em Posses, GO, onde um grupo de assaltantes domina uma cidade pacata e deixa em pânico seus moradores. A guerra não está longe.

Mas a guerra está mais perto ainda. Ela encontra-se em nossos lares. Reações violentas brotam dentro de nossas famílias. Atitudes violentas pelas marcas da insensibilidade, insensatez, indiferença. Tudo isto porém, tem uma etiologia, procede do coração. A guerra está aqui, em nossa alma. Nosso problema não é o que está lá fora, mas do monstro que habita em nós. De uma força instintiva e carnal, devoradora e voraz.

Tiago diz: “De onde procedem guerras e contendas que há entre vós? De onde, senão dos prazeres que militam na vossa carne? Cobiçais e nada tendes; matais e invejais, e nada podeis obter; viveis a lutar e a fazer guerras. Nada tendes porque não pedis…” (Tg 4.1-2)

Apenas Deus pode apaziguar o coração em guerra. Os inimigos são fortes, a vida nos torna armados. Somos feridos e nos ferimos e neste processo de violência doméstica, histórica e pessoal, nos animalizamos. Precisamos de Deus para nos trazer paz. Jesus é o Cordeiro de Deus que tira nossa culpa e que cessa a violência em nossa alma, raiz de todas as demais formas de violência.

Rev. Samuel Vieira

quarta-feira, 19 de março de 2003

A ESCALADA DA VIOLÊNCIA

Trágico, assustador, revoltante, ameaçador, intrigante, dolorido. Faltam-nos adjetivos para descrever os sentimentos que vieram à nossa alma diante da estarrecedora notícia de que um juiz, considerado linha dura, isto é, por aplicar com rigor a lei, havia sido covardemente assassinato numa emboscada preparada por perigosos banditos que não hesitaram em exterminá-lo porque seus privilégios foram cassados, e porque foram aborrecidas por elas. Faz-nos lembrar da época de crianças que o garoto dono da bola, não deixava ninguém jogar apenas porque fora preterido na escolha do time. Só que aqui trata-se de uma vida, de um ser humano.

Creio que nossa auto-estima como povo brasileiro diminuiu um pouco mais, não bastassem todas as outras como a escassez de empregos, a ameaça inflacionária, o horrendo déficit público e débito externo. Na linguagem de um grande poeta brasileiro, “a minha gente hoje anda olhando pro lado, olhando pro chão”. Falta entusiasmo, brilho, honradez no nosso povo, mas certamente para as pessoas que sonham com isto, a agressão ao poder judiciário dificultou ainda mais esta caminhada da esperança e da fé.

É que este “tiro” foi mortal, certeiro, atingiu um ponto nevrálgico na sociedade. Considerando as proporções, o ataque ao World Trade Center, no dia 11 de Setembro de 2001, teve uma magnitude muito maior que este incidente de Presidente Prudente, mas nos leva a imaginar, e isto nos assusta tremendamente, que estamos vislumbrando uma reedição dos acidentes que assolaram a Itália 20 anos atrás. Ao atingir um juiz, a sociedade percebe-se ainda mais vulnerável e frágil, afinal de contas, Jesus já afirmava que “se em lenha verde pega fogo, imagine lenha seca…” Se os magistrados são tão violentamente atingidos, que se dirá do cidadão anônimo, que está, por razões óbvias. Muito mais desprotegido.

Certamente o sentimento de desamparo torna-se mais evidente diante destas situações. O teólogo alemão, Henry Niemuller, teve uma afirmação sua gravada em bronze e colocada no Museu do Holocausto em Jerusalém, onde tive o privilégio de pessoalmente ler, o seguinte:

"Primeiro vieram buscar os anarquistas,
mas como eu não sou anarquista, não se preocupei.
Depois vieram buscar os comunistas,
mas como eu não sou comunista, não me importei.
Depois vieram buscar os judeus,
mas como eu não sou judeu, também não me importei.
Agora vieram buscar a mim,
e ninguém se importa".

De repente, o sentimento de luto e orfandade torna-se mais concreto. A ameaça se aproxima de nós, não é mais uma realidade distante. O incidente em Posses, GO, ocorrido esta semana nos faz lembrar dos riscos presentes que a sociedade humana corre, quando ocorre uma colombianização social acontece. Para nosso espanto, tudo isto encontra-se tão próximo... À semelhança de Niemuller, vemo-nos isolados, ameaçados. Normalmente quando tragédias acontecem, tendemos a considerá-las apenas do ponto de vista estatístico, mas estatísticas são números marcados pela impessoalidade, e por isto não nos chocamos com a assustadora realidade que 40 mil pessoas morrem assassinadas anualmente no Brasil, isto é mais do que uma guerra civil. Infelizmente as pessoas que são violentadas neste processo não são números, mas seres humanos que possuem relações, seres de afetos, criaturas de Deus, gente que ama e é amada, gente que abraça e beija, tem relações sexuais, colegas de trabalho e de escola, acima de tudo, gente…Nem sempre estamos conscientes deste realismo bruto e fatídico.

Que resposta se pode dar a tamanho desafio?

Guerras não são apenas acontecimentos circunstanciais. Elas possuem etiologias e raízes bem mais profundas do que parecem à primeira vista. Num dos livros mais questionados e amados da história, que os cristãos o reconhecem como sacro, daí chamá-lo de “As Sagradas Escrituras”, existe uma ilação que somente poderia ser advinda da sabedoria sacrossanta. “De onde procedem guerras e contendas que há entre vós? De onde, senão dos prazeres que batalham dentro de vocês? Cobiçais e nada tendes; matais e invejais e nada podeis obter, viveis a lutar e a fazer guerra”. (Tiago 4.1)

Este texto aponta a origem da conflitividade humana como alguma coisa mais interior. A psicanálise segue esta mesma direção, existem conflitos de natureza interna, que geram lutas nem sempre conscientes em nós. As lutas e guerras que se manifestam do lado de fora, ocultam motivações endógenas. Não acontecem por acaso, tem a ver com a alma, o ser interior, sua psiquê. Fernandinho Beira Mar ou o anônimo marido ou esposa que vive em constante luta e inferno dentro do lar, ou do filho rebelde ou o adolescente problema, nem sempre têm consciência da grandiosidade das lutas internas que sua alma enfrenta. No desespero tenta-se tratar dos sintomas, quando a causa da enfermidade é mais profunda, está ligada ao coração, a forma de ler a vida e a tentativa de respondê-la. Paz não é mera supressão de armas, tem a ver com a natureza mais intrínseca da natureza. Violência é subproduto da alma em conflito, do desejo de sucesso a qualquer preço, da tentativa desesperada de resolução de uma luta maior que se abriga na alma. Toda violência é assim, em última instância, reativa, resposta às agressões sofridas ou tentativa malfadada de resolver o grito abafado do peito.

C.S.Lewis, conhecido escritor britânico afirma: “Se alguém pensa que a falta de castidade é para o cristianismo o vício mais perverso, está enganado. Os pecados da carne são maus, mas eles são os menos prejudiciais de todos os pecados. Os piores prazeres são espirituais: O prazer de humilhar os outros, os prazeres do poder ou do ódio. Existem duas coisas dentro de mim competindo no meu self. O animal self (Instinto animal), e o diabólico self (instinto diabólico). O último é o pior dos dois. Esta é a razão pela qual, uma pessoa indiferente e fria, orgulhosa de sua justiça própria e que vai regularmente a igreja, pode estar mais longe do céu que uma prostituta. Obviamente é melhor não ser um nem o outro. (LEWIS, C.S., Mere Christianity, Macmillam Publishing Co. Inc. New York, 2a. edição, 1976, pg. 95).

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2003

CARNAVAL: CELEBRAÇÃO ÀS AVESSAS

Uma das boas heranças da tradição Judaico-cristã é sua capacidade de ser celebrativa. Infelizmente temos criado o esteriótipo do cristão “estraga-prazer” do religioso mau humorado, moralista e crítico que usualmente pessoas com tal perfil assume. Isto tudo torna-se, por definição, características de quem não conheceu ainda a graciosidade do Deus da bíblia e ainda luta por romper o velho conceito de um Deus temperamental e animoso que determinadas religiões insistem em propagar.

Curiosamente, a Bíblia, o livro que boa parte dos religiosos diz seguir, fala muito de celebração, principalmente no contexto vétero-testamentário. No calendário judaico sempre havia espaço para a festividade, para a celebração com muita festa, dança, bom vinho e abundante comida. O livro de Levítico (que trata das leis cerimoniais, civis e morais do povo de Israel), fala de pelo menos cinco festas fixas, estabelecidas por Deus para o seu povo. O Deus hebraico é descrito como um Deus festivo. Neste calendário anual havia lugar para a festa da Páscoa (ou da passagem), das Primícias, do Pentecostes, da expiação e dos Tabernáculos, cada uma delas relacionada aos feitos heróicos de Deus por seu povo (Lev 23.1-44). Todas estas festas eram populares, altamente festivas e tinham um lugar muito especial na agenda daquela nação. O calendário judaico era, portanto, marcado por festividades.

No Novo Testamento, o mesmo espírito de celebração estava presente. Jesus começa seu ministério e dá inicio aos seus sinais miraculosos, fazendo algo impensável para a nossa moralidade evangélica tupiniquim: Ele transforma água em vinho (Jo 2.1-12). A coisa é tão complicada que existem grupos tentando provar que este vinho não era vinho, mas era suco de uva. Bem, isto é história para um outro artigo...

Pelo seu caráter celebrativo, Jesus é mal interpretado e passa pela via crucis de ser acusado de “glutão, bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores” (Mt 11.19), e mostra na parábola do Filho pródigo que, a ausência de celebração, festa e dança, está relacionada a uma atitude de superioridade moral de um filho rígido, tenso e incapaz de demonstrar misericórdia, firmado na sua justiça própria e incapaz de perceber o irmão que está sendo restaurado, e que por isso não consegue participar das danças, sente agressão aos ouvidos quando ouve a música e sente-se ultrajado quando sabe que o Pai resolve matar um novilho preparado para uma ocasião especial e que agora manda fazer um churrasco com seus amigos porque o filho perdido fora encontrado. Faltou ao filho que ficou em casa, que simboliza o religioso moralista, os símbolos marcantes da presença de Deus: Festa, alegria, celebração e dança.

Certamente tais argumentos acima podem ser usados para justificativa para a festa do carnaval. Intencionalmente conduzi o tema desta forma para que pudéssemos refletir de forma madura sobre as implicações da celebração desta festa folclórica e histórica de nosso povo. O carnaval tem tudo, menos celebração.

O problema da nossa cultura brasileira é que, na concepção popular, celebração e alegria não são temas de um povo que caminha com Deus, mas de um povo antagônico a Deus. A celebração, os gritos de entusiasmo e euforia pertencem ao universo dos pagãos e dos ímpios. Religiosos e não religiosos possuem esta mesma concepção... Por causa deste conceito deturpado, tende-se a excluir Deus dos aspectos celebrativos da vida, a sacralidade se torna ausente e até contrária à festa. A pessoa que se aproxima de Deus acredita, de forma sub-reptícia, que não pode celebrar, tem que se penitenciar, transforma a vida em um peso, e o viver em fadiga. As vestes perdem o brilho, as cores, a festividade é riscada da agenda, transforma-se em um ser triste. O resultado é caótico.

Como resposta a esta errônea interpretação, outro grupo resolve celebrar fazendo outra leitura equivocada. Se com Deus a vida é feia, sem cores e triste, vamos exclui-lo do roteiro da folia. Deus tem que se tornar ausente por ser alguém que se opõe a alegria, assim faz-se uma celebração às avessas. Então, ao se fazer uma festa folclórica, exclui-se Deus e celebra-se Baco (Um Deus pagão, donde se origina a palavra bacanal). Celebra-se assim, a orgia, o carna-val, festa onde a carne, símbolo dos nossos instintos mais primitivos e resultantes deste Id, desta força animal inerente à natureza humana, torna-se evidente. Não se celebra Deus, celebram-se instintos e impulsos que se imiscuem às fantasias submersas e tornam-se evidentes neste período do carnaval. Nestes dias, cria-se uma sociedade que sacrifica valores porque afinal de contas o limite do permissivo torna-se mais amplo.

O problema é que, o desejo pela celebração, torna-se muitas vezes o oposto. Espera-se a alegria, e ela transforma-se em pesar. Espera-se festividade e ela se decodifica em pranto. Não se celebra a vida, porque fora de Deus, toda tentativa de alegria é dissipada, todo esforço pela alegria nulifica-se.

Nas festas históricas do povo de Israel Deus estava no centro. Nem por isto, a euforia e alegria precisavam ser banidas, porque Deus não é antagônico àquilo que nos plenifica, aliás ele é o ponto no qual torna-se possível encontrar o maior sentido de viver e de amar. A perspectiva do prazer é intensa e intencionalmente presente nos textos sagrados, pois, “fora de Deus, quem pode comer, beber e alegrar-se?” (Ec 2.24-25). O carnaval faz promessas que não pode cumprir, cria expectativas que nunca se concretizarão, promete celebração e muitas vezes gera um resultado completamente oposto.

Celebração só é autêntica quando nos torna plenos. Se no final da festa o resultado é o vazio, é a dor de um coração sem resposta, de uma família fragmentada e dividida, o que se esperava nela tornou-se o oposto daquilo que ela prometia dar. Ao invés de sermos preenchidos com manifestações de paz e harmonia, tal festa tornou-se num elemento da divisão e da porfia. É uma celebração às avessas. É a anti-celebração.