quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Meditação


O homem moderno ocidental perdeu a arte da meditação, esta capacidade de refletir densamente sobre a vida, sobre Deus, sobre uma frase, pensamento, conceito, deixando que a mente aprofunde, os músculos relaxem e o coração descanse.
Muitos consideram a meditação uma perda de tempo, afinal, nos tornamos experts em atividades, entretenimento, planejamento. É a vitória do “homem de ação!”, marcado pela proatividade e parar a vida para refletir, pode parecer piegas, coisa de gente religiosa, mera distração burguesa ou até mesmo preguiça.  Vemos muitas pessoas hoje obcecadas por fisiculturismo, uma espécie de culto ao corpo, como o próprio termo sugere; mas poucas pessoas interessadas em reflexão.
Meditação, contudo, traz ótimos benefícios para a vida, como a serenidade, descanso interior, quebra da rotina e atividade, paz de espírito e equilíbrio emocional, por isto atividades voltadas para este tema tem sido recomendadas por médicos e terapeutas como meio de equilibrar as tensões. 
Meditação e oração andam juntas, mas possuem grandes diferenças no conteúdo e forma. Oração é um meio de falar com um Ser que encontra-se “fora”, ela se dirige a Deus, há um diálogo presumível com o Eterno. Na meditação, temos uma introspecção e reflexão: olhamos para dentro, consideramos os eventos e refletimos. É possível meditar sem orar e orar sem meditar. Qualquer uma destas práticas isoladas é capenga porque considera apenas um aspecto da questão e por isto pode trazer sérias distorções.
Por exemplo, podemos orar irrefletidamente, balbuciar fórmulas ou mantras sem sentido, apenas para atender um apelo neurótico e repetitivo de um ritual vazio. Neste caso não conversamos com Deus; apenas tagarelamos. Jesus condenou as “vãs repetições” de pessoas que presumiam que “pelo seu muito falar seriam ouvidas” (Mt 6.7). Isto é oração sem reflexão, sem aprofundamento da alma, sem meditar no que faz ou mesmo considerar Àquele a quem se dirige a prece.
Por outro lado, podemos meditar sem orar. Neste caso, falamos apenas com nosso ser interior, e não consideramos a dimensão da sobrenaturalidade, do Outro, do Eterno que nos ouve. Achamos que a resposta está dentro de nós, uma espécie de auto-ajuda barata. Muitas vezes não temos resposta alguma em nós, e isto gera mais pânico que solução, como bem afirmou Lloyd Jones: “Reflexão é positiva, introspecção é mórbida”. Muitos meditam para se esvaziar, quando já estão vazios – de sentido, propósito e valor. O espaço vazio facilmente se torna um universo de confusão.
Meditação com oração, entretanto, nos plenifica. O grande desafio é orar, meditando; e meditar, orando. Os cristãos sempre usam os textos sagrados contidos nas Escrituras para refletir sobre Deus e seus princípios, além de outros devocionais para orientar a reflexão. Muitas vezes isto é transformador.

O Salmo 1 afirma: “Bem aventurado é o homem que tem seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite”. Meditar nas promessas de Deus, refletir sobre seu princípios é sempre restaurador para a mente e emoções. Se você não tem ainda esta pratica, comece em doses homeopáticas, com moderação. Quem sabe 10 minutos diários, sem barulho ou intervenção de motores, conversas, celulares ou computadores. Considere determinados pensamentos, peça a graça de Deus sobre seu coração agitado, eleve sua mente à Deus, leve sua família e negócios ao Pai celestial. Descanse. Não tenha pressa. Sossegue. Deixa sua alma fecundar. Muito de sua esterilidade e ausência de sentido tem a ver com o fato de que você perdeu o eixo central de sua vida. Deixe seu coração ser fecundado no silêncio, oração e meditação. Há muito barulho do lado de fora, e muito barulho interno. O profeta Isaias afirmou: “em vos converterdes e em sossegardes, está a vossa salvação”.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Pensamentos... quando não estou pensando.


Rubem Alves, filósofo e professor na Unicamp, escreveu um livro com o titulo para lá de exótico: “Pensamentos que Penso Quando Não Estou Pensando”, com suas tiradas geniais, o autor comentou em entrevista sobre o título do livro: “Parece um título doido’'. Sem dúvida, pelo menos instigante é.

Alves explica suas reflexões: “Há os pensamentos diurnos, aqueles que a gente pensa porque tem de pensar. Incluem obrigações, raciocínios matemáticos, históricos, conjunturais. Análise das circunstâncias em que estamos mergulhados no dia-a-dia, esforços variados para compreender os outros e suas atitudes. Mas, felizmente, há também aqueles pensamentos que surgem do nada. Em geral, além de imprevistos, eles são divertidos, frutos de uma observação de um outro Eu que vive escondido dentro de nós. São imagens que nos levam por caminhos nunca dantes trilhados, que tangenciam nossa atenção desperta”.

Na verdade, muitas ideias criativas, surgiram quando as pessoas se “desligaram” da obrigatoriedade de pensar.

Segundo a lenda, A lei da gravitação universal foi formulada pelo físico Isaac Newton quando  uma maçã caiu sobre sua cabeça e, por observar que a maçã caiu por algum motivo, concluiu que alguém a estaria “puxando” e este alguém seria a terra. Mas ele foi mais além e sugeriu que os corpos se atraem, ou seja, não é somente a Terra que atrai todos os corpos do universo, mas todos os corpos do universo que possui massa atraem outros corpos que também possuem massa.

Muitos negócios bem-sucedidos surgem por causa de uma boa ideia. Algumas parecem tão simples que nos perguntamos por que ninguém havia pensado antes sobre isto, outras são tão revolucionárias que fica difícil imaginar como uma pessoa tenha pensado sobre o tema e o processo. Seja como for, fica sempre a pergunta sobre a origem de tais inspirações.

Casos de sucesso tem sido estudados e debatidos, e muitos empreendedores têm escrito suas próprias histórias, afirmando que ainspiração pode vir de qualquer lugar — situações do dia a dia, paixões e do próprio subconsciente. E que é preciso estar atento ao que acontece ao redor.

o jornal The Wall Street Journal foi atrás de especialistas para ouvir o que eles tinham a dizer, e eis algumas de suas observações:

Primeiro, “Preste atenção ao que está te incomodando”-   “Ideias para startups muitas vezes surgem a partir de um simples problema que precisa ser resolvido. E elas não costumam vir apenas quando você está sentado tomando um cafezinho e contemplando a vida. (David Cohen)

A segunda dica é “Você nunca está velho demais” (Vivek Wadhwa) — “o empresário típico da área de tecnologia é um profissional de meia-idade... a idade média de um empreendedor de sucesso em indústrias de alto crescimento é de 40 anos”.

Em terceiro lugar, “Esteja presente e viva a vida” - (Angela Bento,) —“É fácil perder uma parte potencial de ideias inovadoras quando estas estão bem debaixo do seu nariz se você não estiver presente”.

Em quarto lugar, Deixe seu subconsciente fazer o trabalho (Ben Baldwin) — “Quando a mente está ocupada com uma tarefa monótona, pode estimular o subconsciente a ter um 'click'. O subconsciente trabalha em segundo plano e afeta silenciosamente o resultado de muitos outros pensamentos”.

Quinto, Pense em coisas e lugares estranhos (Victor W. Hwang) — “Caminhe em lugares estranhos: faça caminhadas em bairros escondidos dos subúrbios, Quando você está andando sem propósito, vê as coisas com outros olhos, de maneira nova, porque tem o luxo de estar ali, atento a detalhes diferentes”.

Sexto, Ouça aqueles que sabem das coisas (Dave Lavinsky) — “Os empresários podem ter grandes ideias simplesmente ouvindo outras pessoas”.

Diante disto considere que, se você está num momento pouco produtivo da vida, não se assuste: a ausência de um pensar sistemático e rotineiro, pode abrir espaço para aqueles pensamentos que surgem do nada, e que além de imprevistos, são divertidos e em muitos casos, extremamente produtivos e revolucionários. 

sábado, 14 de janeiro de 2017

Otimismo



Recentemente o escritor e historiador sueco Johan Norberg escreveu o livro “Progresso: dez motivos para olhar para frente” defendendo que apesar dos políticos populistas afirmarem e a maioria acreditar que o mundo está piorando os dados indicam que a humanidade vive o melhor momento da sua história. “O mundo está melhorando rapidamente. Na verdade, nunca antes o mundo melhorou tão rápido. A cada minuto desta conversa, cem pessoas saem da pobreza”, argumenta.

O cientista cognitivo Steven Pinker, professor de Harvard, também defende a mesma tese, demonstrando que apesar das barbáries e contradições da raça humana, vivemos na época mais pacífica e próspera da história. “As pessoas, em todos os cantos do mundo, estão mais ricas, gozam de mais saúde, são mais livres, têm mais educação, estão mais pacíficas e desfrutam de uma maior igualdade do que nunca antes... Todas as estatísticas indicam que melhoramos. Em geral, a humanidade se encontra melhor que nunca.”

Os adultos desfrutam de vidas mais longas, a mortalidade infantil caiu a um quarto do que era há algumas décadas. Em 1960, de cada cinco crianças nascidas uma morria antes de completar cinco anos; agora, 19 de cada 20 sobrevivem. A riqueza também se multiplicou. Desde 1980, o percentual de pessoas que vivem na pobreza extrema foi reduzido em 75%. Apesar da violência no Brasil, a violência retrocede estatisticamente no mundo. Durante o século XX, ela provocou 5% das mortes, e hoje só é responsável por 1% da mortalidade global. A porcentagem de pessoas que não sabia ler em 1900 era de 80%, hoje apenas 17%. A pobreza extrema em 1980 era de 41%, hoje 12%.

Segundo Norberg por termos mais acesso às notícias e à comunicação, e as más notícias serem vendidas mais facilmente, ficamos sabendo de um novo incidente a cada minuto. Assim, as crises econômicas e de migração, bem como os horrores do Estado Islâmico entram quase diariamente nos nossos lares através de inúmeros e diversificados canais, dando-nos a impressão de caos.

Talvez esta questão possa ser analisada por ângulos diferentes:  Podemos dizer que econômica e tecnologicamente o mundo é muito melhor, embora não o seja moral e espiritualmente. Apesar dos avanços da genética na pecuária, e da mecanização das lavouras e o tecnicismo na indústria, é inconcebível imaginar que com tanta abundância, cerca de 500 milhões de pessoas hoje dormirão com fome em algum lugar do planeta.

A verdade é que a natureza humana essencialmente é a mesma: regida pela ambição, egoísmo, auto glorificação, luxo patético, corrupção e acúmulo exagerado de bens. Neste sentido, o homem continua sendo o mesmo.

Jesus descreveu assim o coração do homem: “Porque, de dentro do coração dos homens é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, a blasfêmia, as malicia, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos estes males vem de dentro e contaminam o homem” (Mc 7.21-23).

Por conhecer a natureza humana e seus desvarios, Jesus propôs algo radical. Não uma reforma social, tecnológica ou política, mas algo estranho, do tipo “nascer de novo”, uma ação do Espírito de Deus que tocaria na essência e no ser mais profundo do homem, e por ser algo tão revolucionário e radical, apenas Deus seria capaz de fazer: “Quem é nascido de carne é carne, não admires de eu te dizer: Importa-vos nascer de novo”. Somente a obra profunda de Deus no ser humano é capaz de resgatar o propósito original para o  qual ele nos criou, ou seja, sermos sua imagem e semelhança. 

sábado, 7 de janeiro de 2017

Desapego




Uma das palavras de ordem do tempo presente é “desapego”. Trata-se da necessidade de não se prender a coisas que já foram necessárias, mas que no momento só ocupam espaço. Pesquisadores, estudiosos e até mesmo o presidente da Ikea, que é uma das lojas mais incríveis de venda de tudo quanto é útil e inútil, de essenciais e supérfluos, veio a público recentemente criticar a atitude de pessoas que compram muitas coisas que nunca usarão.

Milton Jung, um dos comentaristas da rede CBN de notícias, afirmou recentemente que resolveu limpar os armários e gavetas de sua casa e para seu espanto descobriu que encontrou, nada menos, que trinta fones de ouvido. Aproveitou para perguntar aos seus colegas, o que eles tirariam de sua casa para entrar na onda do desapego, e as respostas foram as mais variadas, desde camisas, roupas, fitas de VHS, filmes, móveis, quadros e livros. E você, o que tiraria?

A tendência minimalista e a cultura do desapego, tem chega à conclusão que ter menos pode significar ter mais, e pode ajudar até mesmo na felicidade humana. Pessoas acumuladoras tendem a ser mais egoístas, narcisistas e depressivas que as pessoas que aprendem a repartir e desapegar.

Infelizmente, muitas pessoas tem assumido a postura de, não havendo espaço na casa ou no apartamento, fazer closets maiores ou, até mesmo, guardar objetos não utilizáveis num depósito, pagando alugueis e esperando que, em algum momento, venham a utilizar seus pertences. O resultado geralmente é mais traça, cupim, acúmulo de coisas e mais despesas. Determinados objetos já foram ou até podem ser importantes  no momento, mas eventualmente nunca mais serão usadas.

No extremo de reter, existe uma doença psiquiatricamente analisada que é característica dos acumuladores, que guardam objetos, souvenirs, lembranças e até tranqueiras, entulhando suas casas, mas não são capazes de doar ou abrir mão de absolutamente nada. Esta incapacidade de se livrar, só serve mesmo para gerar mais ansiedade, tensão e preocupação.

Experts sugerem que se temos tendência a tais atitudes, é importante tomar algumas precauções: primeiramente, não compre aquilo que não é essencial; segundo, se já tem demais, aprenda a dividir; terceiro, não construa mais armários, para ter mais espaço. Você não precisa de mais, mas é fundamental simplificar seu estilo de vida; quarto, aprenda que doar é uma benção para quem recebe, mas uma benção para quem dá. Hans Burke afirma: “Mais da mesma coisa nos leva para o mesmo lugar”. Quinto, cuidado com o auto-engano: acumuladores nunca acham que tem demais. Amigos ou cônjuges, podem ajudar a superar este perigoso ciclo de acúmulos.

Quando Rockefeller se tornou o homem mais rico do planeta, um jornalista lhe perguntou quanto de dinheiro a mais ele queria. Sua resposta é clássica: “ Só um pouquinho a mais”. 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

E se fosse possível fazer diferente?



Resoluções de Ano Novo são tão inúteis quanto mascar chicletes para resolver questões de matemática. Se você é mais jovem, possivelmente vai discordar de mim, mas depois dos 40, você vai entender o que eu digo... (e olha que Elis Regina falou em não confiar em ninguém com mais de 30 anos).

Mas, e se fosse possível mudar? E se a passagem deste ano se tornasse um marco e diferencial para sua história de vida, o que você faria de diferente?

Partindo do pressuposto de que é possível, escreva no papel as mudanças desejadas, até aquelas que lhe parecem absurdas, mas que se acontecessem, seriam maravilhosas. Depois leia a lista de resoluções, elimine as que forem bizarras demais e fique apenas com algumas mais razoáveis. Esta é uma dinâmica simples que ajuda na resolução de conflitos.

Depois disto, concentre-se em uma ou duas atitudes que mudariam sua vida, casamento, espiritualidade... Ore! Peça a Deus que o ajude e entenda que “melhores atitudes nos levam a maiores altitudes”.

A vida está cheia de exemplos de pessoas que mudaram para pior. Felizmente, há inúmeros relatos de pessoas que mudaram também, para melhor.

Considere um personagem bíblico: Daniel. Sim, aquele mesmo que foi lançado numa cova de leões por ordem de Dario, Imperador da Pérsia. Sua história pessoal é marcada pela brutalidade e violência. Levado cativo para a Babilônia, viu sua cidade destruída pelos inimigos, não há relatos de sua família, e por inferência podemos imaginar que seus pais foram mortos na guerra, os símbolos sagrados, o templo de Jerusalém, tudo estava destroçado. Seguiu uma longa viagem pelo deserto como escravo, humilhado. Ao chegar na Babilônia foi colocado sob supervisão de Aspenaz, que era o chefe dos eunucos.

Sabe qual o significado disto? Ele se tornou eunuco. Isto é, foi castrado para servir no palácio e transitar pelos haréns dos reis sem representar ameaça.

Sua existência foi de negação. Sua vida insistia em dizer não. Isto levou Daniel a desistir de viver? Suicidar? Se transformar numa vítima? Não! Antes se tornou um dos principais do reino e mesmo quando os babilônios foram derrotados pelo poder dos Medos e Persas, ele continuou em cargo de liderança política, por causa da respeitabilidade que possuía.

A Bíblia diz que Daniel tinha um “espírito excelente, conhecimento e inteligência, e era capaz de solucionar enigmas e casos difíceis (Dn 5.12), sendo fiel em todas as coisas não se achava nele erro nem culpa (Dn 6.4). Daniel decidiu que não seria escravo das circunstâncias, nem se transformaria numa vítima, mas tomou posições claras e assumiu o controle de sua história por causa do seu temor a Deus.

A verdade é que “não adianta sonhar com um ano novo, se as atitudes forem velhas”, mas é sempre possível construir um novo caminho, quando nos lembramos que o Carpinteiro de Nazaré é especialista em madeiras tortas.

sábado, 24 de dezembro de 2016

O Deus acessível



Todas as religiões possuem pressupostos sobre suas divindades e agem de acordo com a convicção que possuem delas, afinal, “os homens se parecem com seus deuses”.

Para algumas, Deus é misterioso, nebuloso, incompreensível, envolvido em mistérios, insondável. Trata-se de um ente diferente, distante, sublime, e muito difícil ser tocado. Animistas, religiões místicas e esotéricas, desenvolveram esta visão de Deus.

Para outras, Deus é enigmático, irreconhecível, inacessível, ainda que se comunique com os homens, não é possível elaborar qualquer concepção sobre ele, porque ele é o “numinoso” conforme Rudolf Otto em “The Idea of the Holy “(1917) e C. G. Jung que via o encontro com numinoso como uma característica de toda experiência religiosa. Bultmann falava do “inteiramente outro”.
Em outras religiões, Deus é uma extensão do eu. Nada mais que o interior absorvido e potencializado pela eternidade. Deus não é o “outro”, mas o “eu-estendido”, agindo na subjetividade. Assim afirma o budismo, uma religião com rituais mas sem uma concepção clara de Deus, nesta tradição não existe oração (dirigida ao Outro), mas contemplação (voltada para a interioridade), ainda que isto pareça estranho.

O islamismo desenvolve a ideia de um Deus forte, guerreiro, poderoso, conquistador e justo, que não suporta pecados e incoerências humanas, e pronto a punir os ímpios. “Allah é grande!” O “maktub”, pré-determinista e fatalista define um pouco desta divindade. O “jihad” é concebido como forma de julgamento dos fieis contra os ímpios, e a blasfêmia contra este deus é inaceitável e deve ser combatida com ira. Deus nunca é concebido como Pai, embora seja identificado como guerreiro.
Os judeus conceberam Deus como alguém assustador. Na entrega das tábuas da lei de Moisés, as pessoas precisaram ficar longe do Monte Sinai, pois quem se aproximasse, morreria. O templo e sua arquitetura revelam este distanciamento. Qualquer pessoa que não fosse judia e adentrasse o lugar dos santos, morreria; qualquer pessoa que fosse judia e decidisse entrar no santo dos santos, também morreria.

Quem poderia conceber um Deus acessível?

O Natal nos fala disto.
Jesus é Emanuel, que quer dizer “Deus conosco!”

O apóstolo João se maravilha ao descrevê-lo: “O que era deste o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam com respeito ao verbo da vida. E a vida se manifestou e nós a temos visto”(1 Jo 1.1).

Deus assume forma humana, no rosto de uma criança indefesa e frágil, que precisa cuidados de mãe e pai, o Deus eterno se torna carne. Plena humanidade. Não tinha apenas a “semelhança” humana, como queriam os docéticos, mas tinha na sua essência a humanidade, era 100% homem, suscetível a todas as necessidades humanas, sentia fome e frio, e tinha necessidades emocionais e fisiológicas.

Jesus chama a Deus de “Aba, Pai” no Getsêmani (Mc 14.36). “Aba” é uma expressão de ternura, usada afetivamente pelas crianças de colo ao chamarem o seu “paizinho” ou “papai”. Esta expressão segundo J. Jeremias não encontra analogia na literatura da época. Neste sentido, em nenhum texto do Antigo Testamento ou na literatura judaica, alguém se dirigiu a Deus como “Aba, Pai” (J. Jeremias, Teologia do Novo Testamento. São Paulo, Hagnos, 2008) p. 69

Aba, em sua origem é uma forma de balbucio de uma criança recém-desmamada e, para os judeus, certamente pareceria falta de respeito se dirigir a Deus como “Aba, Pai”.
Leonardo Boff, tecendo considerações sobre a humanidade de Cristo, afirmou: “alguém assim tão humano, só poderia ser Deus”. Natal aponta para um Deus transcendente, mas imanente, alguém sublime e majestoso, mas tangível. O profeta Isaias descreve Deus como alguém que habita num alto e sublime trono, mas também com o humilde e abatido de espírito. Deus é grande, intransponível, misteriosos, mas absolutamente acessível.

Em Jesus, vemos este Deus que se aproxima da raça humana, se deixa tocar, caminha nas estradas poeirentas da Galileia, absolutamente Deus, completamente humano. Cumpria-se assim a promessa do anjo Gabriel ao anunciar seu nascimento a Maria: “Ele será chamado Emanuel, que quer dizer: Deus conosco!”. 

É isto que os Evangelhos falam sobre o Natal!

Plena Alegria



Não nos enganemos: O maior desejo do coração do homem é a alegria.

Certamente você deve pensar em algo que lhe pareça mais essencial. Sim, é verdade que desejamos muitas outras coisas, lutamos por elas, trabalhamos duramente para conquistá-las, lamentavelmente sacrificamos consciência e até mesmo a pureza da fé no afã em encontrar aquilo que pensamos que dará sentido, status e valor, mas inconscientemente buscamos algo mais profundo – a alegria.
O problema é que julgamos que, tendo isto ou conquistando aquilo o senso de plenitude virá. Fazemos letais e fracassadas associações: “quando fizer isto...”ou, “quando conquistar aquilo...”e como na lenda do pote de ouro no final do arco íris, o caçador cansado não encontra o que procura e  morre extenuado.
Por definição, esta busca insana e obsessiva por coisas é, teologicamente, um ídolo. Ídolo é um substituto de Deus, pretende ficar no lugar de Deus e assumir seu lugar. Facilmente os construímos em nosso coração e se você deseja identificá-los, pergunte sinceramente: “O que desejo, temo e amo mais do que a Deus?”
Por mais estranho que possa parecer numa cultura hedonista como a nossa, alegria não pode ser o alvo da vida.
Alegria é resultado. Não a causa, mas a consequência. Assim como o sono, se você o busca obsessivamente, não o encontrará. Portanto, não deite dizendo: “eu quero dormir, eu preciso dormir”. Enquanto se preocupar com o sono em si mesmo, não o encontrará. Quando esquecemos do sono, ele vem. A mente precisa desligar. Ao buscar a felicidade dizendo que precisa encontrá-la, certamente ela não será achada.
O apóstolo João, numa de suas cartas no final de sua vida declarou o seguinte: “Estas coisas vos tenho dito para que a vossa alegria seja completa” (1 Jo 1.4). Ele fala de algo que poderia trazer plena alegria. Que segredo ele encontrou que a cultura moderna perdeu?

Para entender o princípio, precisamos ler o texto anterior:
Ora, a vossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo”(1 Jo 1.4).

O segredo da alegria estava em Deus, na comunhão, amizade e intimidade do povo de Deus com o seu Criador.
João falava disto com propriedade, já que poucas pessoas foram tão violentadas nos seus direitos pessoais quanto este homem. Exilado em Patmos por causa de sua fé, viveu num ambiente hostil, prestando serviços de escravo, espoliado de todos os seus bens, distanciado de seus queridos, mas nestas condições pode contemplar o céu e a glória de Deus.
Alguém afirmou o seguinte: “Adão viveu no Paraíso e não estava satisfeito. João em Patmos, teve visões celestiais. Isto demonstra que o importante não é o lugar ou as condições nas quais você vive, mas como está o seu coração”.

No abandono e exclusão, João teve a benção de encontrar a plena alegria na comunhão com o Pai, e com seu Filho, Jesus Cristo.